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O Homem Moderno

O Homem Moderno.

Resenha de: ENRIQUE ROJAS, O Homem Moderno. A Luta contra o Vazio, 2.ª ed. Curitiba: Editora do Chain, 2013, trad. do espanhol por Waldir Dupont – revisão de Amanda Chang Chain, 165 págs.

Enrique Rojas (Granada, Espanha, 1949 –    ) é um médico psiquiatria espanhol e professor titular de psiquiatria e psicologia da Universidade de Extremadura. Ele é, também, um dos dirigentes do Instituto Espanhol de Investigações Psiquiátricas, em Madrid, presidindo à Aliança para a Depressão. Rojas se tornou mundialmente conhecido a partir de 1988, ano em que publicou a obra El Hombre Light. No âmbito dos países lusófonos, o livro foi dado a conhecer em Portugal, com o título O Homem Light. Uma Vida sem Valores, em 1994; a 2.ª edição do livro viu a luz do dia em 2006.

A 2.ª edição da tradução brasileira de El Hombre Light foi publicada, em 2013, com o título O Homem Moderno – A Luta contra o Vazio. Alguns dos capítulos foram originalmente publicados pelos jornais ABC, de Madri, El Mercurio, de Santiago do Chile, e Novosti [Novidades], de Moscou. O livro em apreço é composto por dezesseis capítulos: O Homem Light; Hedonismo e Permissividade; O que é o Homem?; O Caminho do Niilismo; A Sociedade Divertida; Sexualidade Light; A Síndrome do Controle Remoto (Zapping); A Vida Light; Revistas de Fofocas; Cansaço da Vida; A Ansiedade do Homem de Hoje; Psicologia do Fracasso; Psicologia da Droga; A Vida não se Improvisa; A Felicidade como Projeto; Soluções para o Homem Moderno.

Apresentando o livro, o Editor adianta que a obra de Enrique Rojas se dirige “igualmente a pais e professores, mas, sem dúvida àqueles jovens que queiram se afastar da massificação que lhes foi imposta pelo fenômeno da globalização” (p. 9). O Homem Moderno constitui, deste modo, a denúncia relativamente ao estilo de vida que predomina no Ocidente de nossos dias sendo, simultaneamente, um programa de ação rumo à autenticidade vital. Nas palavras de seu autor, a crise econômica que teve início em 2008 “é quase nada se comparada com a crise de desorientação moral generalizada que observamos por toda parte” (p. 11).  Atualmente, sublinha Rojas, “cada vez se torna mais fácil a informação, sabe-se mais do que está acontecendo no mais remoto canto do mundo, mas poucos conseguem sintetizar tudo o que está ocorrendo. Enquanto isso, paradoxalmente, cada vez há menos formação” (ibidem). Qual é, então, a finalidade última da vida, para o homem moderno? Em ruptura com a Ética eudaimônica, ou das virtudes, tal como Aristóteles a propôs, ou a Ética deontológica, como é a de Immanuel Kant, nós estamos vivendo num tempo que, em boa medida, é o “de uma sociedade doente, da qual emerge o homem moderno, ou light, um sujeito cuja bandeira é uma tetralogia niilista: hedonismo-consumismo-permissividade-relatividade. Tudo isto costurado pelo materialismo” (p. 15). Em contrapartida a este estado de coisas, defende Rojas, “a felicidade consiste em estar contente consigo próprio, ao comprovar que fizemos o maior bem possível e o menor mal consciente” (p. 13).

O relativismo axiológico, uma das atitudes preponderantes face à diluição da responsabilidade e à aceitação eclética de todos os deuses e todas as vontades, criou, no âmbito do pensiero debole, a ausência dos projetos de vida e a concomitante assunção do carpe diem teorizado pelo poeta romano Horácio. A este tipo de pensamento e prática, hoje dominantes, Enrique Rojas contrapõe o humanismo de signo cristão. Ele recomenda, neste contexto, que “frente à cultura de efêmero está a solidez de um pensamento humanista, o compromisso com os ideais. É preciso superar o pensamento débil, com argumentos e ilusão suficientemente atrativos para que o homem eleve sua dignidade e suas pretensões” (p. 16). Contudo, a indiferença global em face da dor, do sofrimento e da morte faz com que, por exemplo, “a epidemia de crises e rupturas conjugais, o drama das drogas, a marginalização de tantos jovens, as greves dos trabalhadores e outros tantos fatos da vida cotidiana” (p. 19) sejam encarados como algo natural e não como aquilo que, realmente, eles são: produtos agônicos gerados por nossas construções sociais.

Se, tal como acabamos de verificar, o relativismo e a indiferença ante pessoas, situações e coisas é, provavelmente, a característica mais relevante do homem light, então, é de sublinhar que ele “raramente se sente feliz, tendo, no máximo, uma sensação de bem-estar e prazer. Trata-se, na verdade[,] de uma distinção bastante importante” (p. 39) para quem faz, dos valores aquisitivos, ou materiais, a fonte de mobilização para a existência. Por outro lado, de acordo com Rojas, a ausência significativa dos valores espirituais – ou, pelo menos, a sua presença entre nós, de modo esteticizante e, portanto, reificada –, faz com que “o homem da sociedade de bem-estar, que tem todos os seus desejos materiais cobertos, além de uma série de liberdades claramente desenhadas, corre o risco de cair numa ladeira que o levará à frivolidade se não conseguir abrir outras vias mais ricas no campo cultural” (p. 53-54). Acresce, ainda, este fato preocupante: na sociedade da informação, a quantidade de dados noticiosos disponíveis para cada ser humano corresponde, regra geral, à escassa profundidade problematizadora dessas “novidades”. Deste modo, segundo o autor de O Homem Moderno, vivemos uma época em que “existe uma ausência quase absoluta de cultura” (p. 54), o que faz com que o ser humano típico de hoje em dia procure unicamente “aquilo que tem relação com sua vida profissional” (ibidem), fazendo com que seu nível cultural não ultrapasse a esfera daquilo que a indústria cultural consegue proporcionar.

Caracterizando alguns dos comportamentos dominantes na atualidade, Enrique Rojas refere as relações afetivas, as terapias comportamentais e, ainda, a comunicação em suas múltiplas dimensões, Rojas situa sua análise na fragilidade das relações emocionais que nos são contemporâneas. Deste modo, assinala o autor, “fala-se muito, hoje[,] de amores e, mais concretamente, de uniões sentimentais, mas muito pouco do amor, o que nos permite deduzir a confusão que tudo isso provoca. A qualquer relação superficial damos o nome de ‘amor’” (p. 57). Na linha de pensadores como Santo Agostinho, o autor de O Homem Moderno inquire: “O que é amar alguém?” (p. 58). Em sua tentativa de resposta ele garante que “a sexualidade sem amor autêntico leva a um vazio que desemboca no tédio, na indiferença e no ceticismo, ou seja, uma atitude descomprometida em excesso. Às vezes podemos até, com espírito crítico, descobrir nesse processo tons autodestrutivos” (p. 60). Em contraposição ao mundo e à vida encarados de maneira light – “a vida light caracteriza-se pelo fato de que tudo está sem calorias, sem gosto, ou sem interesse, a essência das coisas não importa, só o ‘quente’ e o superficial” (p. 80) interessam verdadeiramente – Rojas nos propõe a construção da vida em função das ultimidades. Neste sentido, o autor se volta para um dos pilares do sentido da vida, no Ocidente, ou seja, a vida perspectivada em função da morte para assinalar aquela que, hoje em dia, é uma das lacunas do ser humano. Deste modo, no âmbito da pós-modernidade convulsiva, “se vive – em boa medida – de costas para a morte, como se ela já não existisse. E mudam também os conteúdos, já que agora existe o tabu da morte, ao lado de uma exaltação do erótico e do sexual” (p. 82).

Se, em finais do século XIX, Friedrich Nietzsche “matou” Deus abrindo o horizonte de sentido aos relativismos axiológicos, o século XX “higienizou” a vida humana, fazendo com que os momentos capitais da existência, ou seja, o nascimento e a morte, passassem a ter lugar em espaços e momentos públicos – os hospitais. Atualmente, sublinhe-se, quase ninguém nasce, ou morre, em casa. Mais recentemente, a ideia de uma “natureza humana” caiu por terra. Os recursos tecnológicos atualmente ao dispor da Humanidade permitem calcular o início de uma gestação – mesmo, até, transformar em póstumos os filhos que nascerão a partir da disponibilização do material genético previamente armazenado, como também possibilitam a sobrevida de partes de um corpo humano graças aos transplantes, cada vez mais sofisticados. Contudo, à aparente vontade de poder do homem light estão associadas as vulnerabilidades mais abscônditas. Rojas chega a afirmar, a este respeito: “O homem moderno é sumamente vulnerável. À primeira vista, esse homem é atraente, dinâmico e divertido, mas pouco a pouco oferece sua verdadeira imagem” (p. 84). Nós estamos, na verdade, ante um tipo de ser humano que, de acordo com nosso autor, é “um ser vazio, hedonista, materialista, sem ideias, evasivo e contraditório” (ibidem). Longe de um ideal de vida altruísta, e afastado dos valores comunitários que ergueram as mais diferentes civilizações, historicamente consideradas, o ser humano padrão de finais do século XX/inícios deste século é fútil. É no plano da realização subjetiva que se encontram ancorados seus ideais de vida. A ele interessam, pois, modalidades de atuação que, passando pelos mais diversos modismos, têm como fundamento para o agir o diletantismo cotidiano. Nós estamos falando em “ginástica, dietas lights, sauna, certo espiritualismo diluído de tradição oriental, incultura, muitos jornais e revistas – muita informação, mas sem capacidade de sintetizar, nem tempo para amadurecer intelectual e pessoalmente” (p. 90).

Não há, à luz do diagnóstico feito em O Homem Moderno, salvação para o homem light já que ele não consegue ser feliz (cf. p. 91)? Os pressupostos necessários para uma mudança comportamental que nos conduza, aqui e agora, a um patamar eutrapélico, ou convivencial, do viver humano exige  que se reconsidere a autenticidade da existência humana e, também, o papel que a espiritualidade deve ocupar nela. Por outro lado, Enrique Rojas propõe o valor das aprendizagens produzidas a partir do fracasso. Com efeito, escreve o pensador espanhol, “o fracasso é necessário para o amadurecimento da personalidade. A vida humana está cheia de acertos e erros, de coisas que não saem de acordo com o projetado e de outras que não se concluem. A existência insiste num jogo de aprendizagem. Em geral, aprende-se mais com os fracassos que com os êxitos ou, pelo menos, ambos possuem a mesma importância” (p. 113). Se reportando explicitamente a Pedro Calderón de la Barca mas, também, a William Shakespeare e a Miguel de Unamuno, Rojas afirma que “a pátria do homem são os seus sonhos” (p. 115). Deste modo, assinala o autor, “não se pode viver sem sonhos. E para que estas [sic] aflorem é preciso ter um desejo forte de superação permanente. Aí está a essência de muitas vidas exemplares” (p. 117).

Tendo presente a multidimensionalidade da vida humana, nosso autor considera que “cada vida humana é uma trajetória dinâmica viva, ampla e plural. Podemos dizer que a vida humana é como um problema que deve ir se resolvendo sucessivamente, ao ritmo de seu desenvolvimento” (p. 125). Considerando que “a felicidade é a máxima aspiração do homem” (p. 137), a phrônesis, ou prudência, deverá se assumir como a via média entre o esbanjamento e a avareza para que cada um de nós tenha a oportunidade de vir a fruir o bem mais precioso que lhe é dado viver: a felicidade. Para Enrique Rojas, “a felicidade é uma vocação fundamental do homem, sua inclinação primeira, e em direção a ela as pessoas apontam todos os seus esforços, mesmo em situações difíceis e complexas” (p. 131). É de salientar, ainda, que, para o pensador espanhol, os valores materiais são, sempre, subordinados em relação aos valores espirituais. Para ele, “o progresso material sozinho nunca pode satisfazer as aspirações do homem, nem resultar em felicidade quando constitui o eixo vertebral de uma vida” (p. 139), pelo que, para o homem light, isto é, o tipo antropológico característico da atual civilização ocidental, o bem-estar e a tentação da opulência o conduzem “gradualmente ao individualismo e, assim, à difusão de falsos esquemas, que chamamos valores: sucesso, dinheiro, poder, avidez de sensações, curiosidade sem nenhuma pretensão de aprimoramento pessoal” (p. 139).

O autor de O Homem Moderno pretende que se recupere o humanismo, encarado como via de acesso ao ser humano de sempre, que esteve na base do desenvolvimento do espírito europeu. Hoje em dia, muitos de nós sabemos que o mito do progresso indefinido se encontra finalizado. Contudo, tal como Rojas salienta, “os avanços técnicos e científicos continuarão acontecendo, embora já não se pense que representem a única solução do homem para a obtenção de uma melhor qualidade de vida” (p. 149). Como atitudes vivenciais destinadas a implantar a autenticidade e a frugalidade vitais, nosso autor declara, sem titubear, que “a moral cristã é o melhor vetor para a realização da eterna vocação transcendente do homem” (p. 157), constituindo precisamente, na adoção da tão necessária “primazia da pessoa sobre as estruturas” (p. 148) políticas, econômicas, sociais e mentais hoje prevalecentes.

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Se o Homem Moderno constitui um libelo acusatório em relações aos vícios civilizacionais que nos foram dados viver, ele é, simultaneamente, um grito de esperança em relação àquilo que cada um de nós pode esperar, de si e do mundo. Nós estamos, portanto, ante uma obra que merece leitura atenta por quantos se interessam tanto pelo estudo desta época inquietante da História como pelas raízes do sem-sentido que nela existem.

 

 

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