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Sobre a NOVA ÁGUIA e o MIL (III)

Entrevista de Adília César e Fernando Esteves Pinto a Renato Epifânio

Prof. Dr. Renato Epifânio.

8. Que sentido e destino para a Comunidade Lusófona na contemporaneidade, tendo em conta a crise política e económica que se vive em Portugal e que parece esgotar o nosso país num espaço de mera sobrevivência no dia-a-dia?

É preciso ter uma perspectiva de médio-longo prazo. Por isso, temos procurado defender e difundir o conceito da cidadania lusófona, nos Congressos da Cidadania Lusófona (já se realizaram quatro, até ao momento), no âmbito dos quais temos sedimentado uma Plataforma de Associações da Sociedade Civil. Quanto mais a sociedade civil se afirmar à escala lusófona, mas próximo estará esse Horizonte. Mas não temos pressa. Acreditamos que temos a dinâmica da própria história do nosso lado…

9. Há ainda lugar para uma utopia criadora no espaço lusófono, apesar da pobreza e das fracas perspectivas de futuro para os jovens?

Temos consciência de que por vezes o quotidiano, por ser tão adverso, não permite a consideração dessas visões mais de médio-longo prazo. Mas os sinais que vamos recebendo, em particular por parte dos jovens, são positivos. Até porque, em geral, estes já não carregam em si alguns ressentimentos históricos que, no passado, dificultaram esse caminho de convergência entre os países e regiões do espaço de língua portuguesa.

10. Numa perspectiva geográfica, o mapa do mundo lusófono apresenta regiões muito distantes umas das outras. Também a nível dos valores culturais, sociais, cívicos e políticos consolidados nas diferentes comunidades se verifica o mesmo distanciamento?

Essa dispersão geográfica é, em si mesma, uma dificuldade e uma mais-valia, até em termos comparativos (com o espaço de língua castelhana, por exemplo, com muito menor projecção global). Com as novas tecnologias de comunicação, essa dificuldade é cada vez menor, porém. Falamos pela nossa experiência no MIL. Temos, por exemplo, um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, de todos os países e regiões de língua portuguesa. Recorrendo a essas novas tecnologias de comunicação, tem sido possível recolher, em tempo útil, os contributos de todas essas pessoas do nosso Conselho Consultivo.

11. Portugal é um pequeno país que integra uma comunidade europeia desde 1986, com ideais, dependências e políticas europeias. Tendo em atenção tudo o que essa adesão acarreta, e do ponto de vista cultural, o Portugal contemporâneo já é um país europeu ou ainda é um país lusófono?

Esse é, a nosso ver, um falso dilema. Na visão do MIL, a plataforma lusófona não tem que se afirmar contra ninguém, nem por exclusão. Pelo contrário, se Portugal não tivesse desprezado tanto a plataforma lusófona estaria hoje numa posição bem mais fortalecida na plataforma europeia. E o inverso também sucede: uma das mais-valias de Portugal na plataforma lusófona é a sua integração na plataforma europeia. Elas não são pois excludentes entre si – ao invés, reforçam-se mutuamente. E o mesmo direi do Brasil – na sua integração na plataforma sul-americana (Mercosul) –, de Timor-Leste – na sua integração na plataforma extremo-asiática (ASEAN) – e dos vários países africanos, que estão também, muito naturalmente, integrados em diversas plataformas político-económicas desse continente.

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Imagem:

Prof. Dr. Renato Epifânio.

(Fonte):

Arquivo NOVA ÁGUIA.