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O Tango é Um Instrumento de Política Exterior

Entrevista de J. M. de Barros Dias a Pedro Ezequiel Marotta, Cônsul da Argentina em Curitiba

Dr. Pedro Ezequiel Marotta, Cônsul da Argentina em Curitiba.

Diplomata de carreira (Ministro Plenipotenciário de Segunda Classe), mestrando (M.A.) em Relações Internacionais e advogado (Universidade Nacional de La Plata, Argentina). Especialista em Direito da Integração e em Solução de Controvérsias.

Prévio à sua designação como Cônsul em Curitiba, desempenhou funções na Direção Nacional de Negociações Econômicas Bilaterais (julho, 2015 – maio, 2016). Anteriormente, foi Attaché Econômico e Comercial do Consulado Geral e Centro de Promoção de Exportações da República Argentina em Xangai, R. P. da China (janeiro, 2012 – julho 2015), e da Embaixada Argentina na Nova Zelândia (novembro, 2006 – janeiro, 2012).

Ao longo de sua carreira, no âmbito do Ministério de Relações Exteriores da Argentina, o Conselheiro exerceu funções na Direção do Mercosul Institucional (Subsecretaria de Integração Econômica Americana e Mercosul) e nas Reuniões de Incorporação Normativa do Mercosul. Foi, também, negociador do Subgrupo de Trabalho N.º 2 (SGT N.º 2 “Aspectos Institucionais”) e assessor de gabinete na Subsecretaria de Promoção de Comércio.

Apoiou, de maneira decisiva, a realização do I Congresso de Tango de Curitiba, a decorrer na capital do Estado do Paraná.

Pergunta: Que papel desempenha o tango no âmbito da vida pública argentina?

Resposta: Tenho esta ideia. O tango é um instrumento de política exterior. Ele é um instrumento cultural de primeiro nível. O que não existe na Argentina é um mapeamento de como influenciou e se inseriu no mundo mas, a partir de minha experiência humilde de cinco anos na Nova Zelândia e de três anos e meio na República Popular da China e de três visitas ao Japão, em diferentes oportunidades, posso garantir que, no mundo anglo-saxónico, nos países escandinavos e, inclusive, na Ásia, faz sucesso. O tango é, hoje, a dança mais bailada no mundo.

A Argentina tem uma quantidade importante de diversas danças folclóricas. O tango não é o único, mas é o mais conhecido mundialmente. Outro dia enviaram-me um vídeo da chacarera, sendo dançada no Japão e numa província chinesa. Mas penso que a chacarera não chama tanto a atenção porque é uma dança mais coreográfica e tem, também, as vestes dos camponeses, no campo. Mas o tango tem chamado a atenção, e temos milhares e milhares de milhares de seguidores, porque a Argentina tomou a liderança e há doze anos que faz o Mundial de Tango em Buenos Aires, com o qual deu a possibilidade a todos esses grupos de dançarinos e de milongueros que estão no mundo de fazer mini-campeonatos locais onde sagram um campeão doméstico, que compete no Mundial de Tango, em Buenos Aires, o que deu uma saída e que isto continue e ganhe vida, força e energia.

Como instrumento de política cultural, de política exterior, para qualquer representante diplomático argentino, como eu num Consulado, ou outros numa Embaixada, é invalorável, é inigualável. Eu imagino que muitos euro-países quereriam ter um elemento tão forte.

Pergunta: Como surgiu a ideia do Congresso de Tango?

Resposta: Justamente pela minha experiência noutros países. Numa cidade como Wellington, que tem trezentos mil habitantes, contra Curitiba, que dizem que como Grande Curitiba, tem três milhões, e que era uma cidade com 10% de habitantes de Curitiba, eu tinha uma milonga pelo menos todos os dias da semana e em alguns dias tinha duas e dependendo da época do ano podia ter até três na mesma noite e todas cheias com cento e cinquenta casais dançando. Quando cheguei a Curitiba deparei que por aí havia duas milongas semanais, quando havia, e que a massa crítica dessas milongas era de quarenta casais, cinquenta casais e disse: “Algo está sendo mal feito, pela Argentina. Este lugar, que é frio, que tem toda a chuva melancólica que pega com o espírito de Buenos Aires, que tem estas ruas de paralelepípedos, que tem os candeeiros que fazem recordar tanto Buenos Aires, não é possível que estando ao lado da Argentina não haja decolado o espírito do tango. Fiquei pensando que em Xangai tínhamos três Academias que competiam ferozmente por um público de dançarinos”. Foi aí onde partiu minha ideia: “Temos feito o possível? Não fizemos a promoção adequada?  Temos que dar mais importância ao tango para levantar a massa dos dançarinos. E também tem outro tema. Se não crescer a massa de dançarinos, os professores não têm de quê viver e depois vão ensinar outra coisa. Podem ensinar tango, como ensinam mambo, como ensinam salsa, como ensinam samba, ou qualquer outro tipo de dança. E nós necessitamos de algo específico porque o tango tem muitas peculiaridades. E essa foi minha primeira ideia”. Minha porta está sempre aberta e esse foi um conselho de meu primeiro Embaixador. Sempre dou os cinco minutos de glória a cada pessoa que aparece no Consulado, porque desses contatos sacamos as ideias do que podemos fazer e do que não podemos. Aí veio Vania Andreassi, a empresária que tem seu Centro Cultural Todo Tango, uma pessoa que tem compromisso com o tango, que faz vinte e cinco anos que trabalha no setor, que é preparadora física, bailarina, fisioterapeuta, que viaja várias vezes, por ano, a Buenos Aires, e que veio com um projeto. Esse projeto era um festival, mas tinha muitos componentes. Apresentava um tango mais solidário, social, com palestras gratuitas, aulas para principiantes gratuitas. Eu disse-lhe, “sim, mas tem que ser para todos. Tem que ser inclusivo e aberto”. Num mercado pequeno, a institucionalidade do Consulado ajudou a atenuar a competição entre os diferentes profissionais. O resultado é que o folheto do Congresso tem, de um lado, as vinte  principais Escolas e Academias de Tango de Curitiba. Esse é, já, o primeiro triunfo deste Congresso.

Por outro lado, era tratar de postular Curitiba no mapa do tango do Brasil e é uma pena. Me parece que tem muitas mais condições até do que o Rio de Janeiro e São Paulo. Não terá a mesma quantidade de habitantes, não terá o mesmo poderio, em alguns aspectos, mas Curitiba, no tango, para mim tem a possibilidade de brilhar.

Pergunta: Como um evento cultural como este poderá contribuir para aumentar o intercâmbio entre a Argentina e o Brasil em setores como a cultura, o comércio e a indústria?

Resposta: de per se, o Paraná e a Argentina partem de um microcosmos comum. Culturalmente, a Argentina é um país de emigração. Buenos Aires, o Río de la Plata e o tango nascem porque, entre 1890 e 1910, nesses vinte anos, nós recebemos a maior quantidade de emigrantes relativamente ao tamanho de nossa população da História do Homem. O argentino, nascido na Argentina, nesse momento, ficou em minoria. Havia 55% de estrangeiros emigrantes e 45% de argentinos nascidos. Isto em Buenos Aires. No interior isso se diluiu um pouco, mas ficaria 60%, 40%. Era brutal. Nesse marco, o Paraná também é um lugar de emigração forte. Esses grupos de emigrantes têm uma procedência similar – muitíssimos italianos, muitos da Europa do Leste. Temos um componente e uma idiossincrasia muito similares.

O intercâmbio vem por si só. Sendo o 4.º Estado brasileiro no PIB, o Paraná é o 2.º no comércio com a Argentina, depois de São Paulo. No meio teriam que ter mais relevância Minas Gerais ou o Rio de Janeiro, mas não. O Paraná está em 2.º com um intercâmbio de USD$ 3 bilhões e um turismo que é impressionante. Já há muita relação e muita integração entre industriais e agricultores. Usamos os meios agroquímicos e maquinaria. Temos uma relação de cadeias produtivas muito fortes e creio que isso tem que ver com essa idiossincrasia. É uma questão de expandir isto que já existe um pouco mais a outros setores. Também participamos da Feira do Livro. Aqui, em Curitiba, há traduções de Jorge Luis Borges, que noutros lados do Brasil são diferentes e que aqui existem há mais tempo. A relação cultural da Argentina com o Paraná é, já hoje, muito forte e não falo da invasão dos argentinos a Santa Catarina que tem perto daqui. Aqui, falta um bocado mais de praia para ter cada vez mais argentinos. É uma imigração diferente.

Pergunta: Há outras iniciativas dessa natureza a serem colocadas em prática a curto e a médio prazo?

Resposta: Esta foi a iniciativa mais importante desde que eu aqui cheguei há um ano e meio e creio que vai continuar a ser, provavelmente, o cavalo de batalha. Mas expandir as outras expressões culturais é do mais importante. Participamos na Feira do Livro, trouxemos Leopoldo “Teuco” Castilla, um poeta argentino reconhecido mundialmente, queremos mais renovação e mais intercâmbio universitário, as Merco-Universidades estão intercambiando, mas creio que se pode fazer muito mais. A vice-reitora da Universidade Federal do Paraná é uma argentina. Graciela Bolzón de Muñiz é uma engenheira florestal que se destacou e chegou a vice-reitora. Antes, para chegar a presidente, tínhamos um processo daqueles a que se submetem os candidatos para reitores e vice-reitores nas Universidades Federais, com painéis públicos, com questionários intermináveis, televisados, três seguidos sucessivos, e os outros que se apresentam. É uma loucura. E esta é uma mulher muito proba. Me parece que isto demonstra que estamos no bom caminho. Mas sempre se pode progredir.

Pergunta: Como avalia o intercâmbio cultural entre o Brasil e a Argentina? De acordo com o seu ponto de vista, o que pode ser feito para intensificar as diferentes trocas  entre a Argentina o Brasil?

Resposta: O Brasil e a Argentina sempre tiveram algum tipo de intercâmbio cultural. Le Pera, que cantava tango com Gardel, nasceu em São Paulo. O próprio Gardel havia nascido em França e, depois, tinha cidadania argentina e uruguaia, não o vamos negar. Sempre se discute de onde era Gardel. Pixinguinha ia tocar a Buenos Aires. Nos começos do samba e nos começos do tango as músicas eram muito parecidas e os instrumentos utilizados eram idênticos. Somente que o tango se enfileirou numa cadência de modo menor, mais tristonha, mais melancólica. E o samba foi para uma nota maior. Mas os dois tocam uma mesma temática: a mulher que o deixou, não há dinheiro para comer. O que passa é que o samba tem uma forma alegre de tocar os mesmos temas. E haja depressão: me deixou, estou agoniado.

Em geral, e fazendo a simplificação absoluta, desde que começaram os governos militares, na Argentina, nos anos de 1930, mais ou menos na mesma época em que começaram no Brasil, tudo se complicou. O Brasil começou a olhar para o mundo luso-falante e a Europa e estava de costas voltadas para todos os inimigos. Para colocar o problema assim graficamente. E nós também o víamos como o estrangeiro que estava na América Latina. Nós tínhamos uma relação e uma ascendência importante do México e do Caribe para baixo e o Brasil tinha uma ascendência com outros países de outros lados e, às vezes, olhava para a América Latina. Graças ao fim dos últimos governos militares e, sobretudo, ao fim do último governo militar na Argentina, começaram alguns indícios de aproximação, nos anos de 1980/1985, graças aos acordos de colaboração bilateral que, gradualmente, vão dar origem ao Mercosul e começámos a reconhecer-nos. E um comércio, que era quase zero, ridículo, começou a crescer, a multiplicar-se geometricamente, até chegar ao ponto de que hoje o Brasil é o nosso primeiro sócio comercial. Estava colocado no 15.º lugar, 20.º, era uma coisa aparte, não havia pontes. A largura das ferrovias era de medidas diferentes para evitar invasões, incursões. Estávamos vivendo de costas e de forma agressiva. As fronteiras eram formas de separar, não formas de unir. Creio que o Mercosul mudou o eixo e agora são formas de viver, como se entendem hoje as fronteiras. Isto facilitou muito uma nova integração cultural que se havia perdido durante uns sessenta anos, setenta anos e favoreceu um intercâmbio muito maior. Creio que isto limitou um pouco o tango no Brasil, que poderia estar muito mais expandido, como o samba na Argentina.

Pergunta: Quais os setores de intervenção cultural, econômica e social pouco explorados pela Argentina e o Brasil e que merecem uma atenção especial pelos dois países?

Resposta: Essa pergunta é complicada. Na realidade estamos trabalhando no pré-existente e não estamos abrindo muitas áreas novas. Me parece que temos que trabalhar mais o tema da infraestrutura comum, da integração física comum, real. Temos que tratar de criar espaços jurídicos comuns, imediatamente, como se fez nos anos de 1980, com o Uruguai. Se alguém nasce no Uruguai ou alguém nasce na Argentina é indiferente, porque servem os documentos uruguaios na Argentina e os documentos argentinos no Uruguai. O registro de nascimento não necessita de nenhuma validação. O espaço jurídico comum foi evolucionado em alguns aspectos comerciais, com o Mercosul, que gerou uma mentalidade diferente em relação ao Outro, mas falta avançar, com urgência, no espaço jurídico comum.

Parece-me que sempre estamos bloqueando, por diferentes logarismos, normativas que o Mercosul lança de maneira bastante idealista. Por exemplo, que sirvam todos os certificados públicos, da documentação em português, na Argentina, e espanhola, aqui. Mas sempre vai haver um funcionário que vai dizer: “Se não a traduzir com um tradutor juramentado, eu não a aceito”. É muito difícil, às vezes, conseguir que se capilarizem todas as normativas. É necessária uma mudança de mentalidade. Aqui, no Brasil, por exemplo, uma agenda pendente é que ponham o ensino obrigatório do espanhol nas escolas. Nós fizemo-lo, pelo menos em várias, mas não temos professores de português na Argentina, e aqui também não há tantos professores de espanhol com um nível adequado e não é questão de certificar qualquer um porque senão vamos ter professores com um nível muito mau.

Há múltiplas agendas pendentes, desde a infraestrutura até ao idioma e ao espaço jurídico das documentações. Talvez devêssemos formar conjuntamente, ou permitir que se realize mais intercâmbio de nossas burocracias. As reuniões de ministros do Mercosul, nos últimos anos, abriram-se a ministros de outros países e, ao se abrirem e se generalizarem, não mudaram nada. Criámos generalizações que, no final, não mudam nada. Temos que ir à base e tratar de espaços comuns reais.

A nível da cooperação militar se avançou muito. Agora temos o triste episódio do submarino ARA San Juan, desaparecido, que pode ter um desenlace tristíssimo, mas o Brasil enviou quatro navios para colaborar na busca. Nos bons tempos há muitos amigos mas, nos maus tempos, se notam os verdadeiros, porque muitos desaparecem. Quando nós necessitamos, os brasileiros estão presentes e penso que a Argentina também está presente quando o Brasil necessita de nós. Eu, pelo menos, estou em meu posto.

Pergunta: Estou lembrando aquilo que Miguel de Unamuno escreveu há pouco mais de cem anos: “que nos conheçamos, mais do que não seja para discutir”.

Resposta: Exatamente. Bem, não me remontando tão longe, não o disse Freud, não o disse Platão, não o afirnou Sócrates. Um embaixador, que é o vice-presidente emérito do CEBRI – Centro Brasileiro de Relações Internacionais, José Botafogo Gonçalves, disse numa conferência: “Tudo nos une, Argentina e Brasil, só o futebol nos separa”. Nós temos um problema com essa bola. Mas há um lado positivo, inclusive no futebol, que eu resgato. Ninguém compete contra quem não respeita e admira em alguma medida, subconscientemente. Porque se eu não considero alguém e não lhe dou entidade não me interessa competir com essa pessoa. Se eu penso que uma pessoa não tem capacidade nem vale a pena nem compito. Porque é que vou competir? Temos que tentar traduzir essa base de respeito em algo positivo.

Pergunta: Quando terá lugar uma nova iniciativa como esta?

Resposta: O ano que vem teremos o II Congresso, maior, reload deste, o 2.0. Vamos fazer um mega-Congresso. Este Congresso foi feito como um evento grande, e foi muito bom, mas foi minimalista devido à crise orçamentária severa. Todos os logos que se veem aí, a maioria entrou com o nome, não entrou com dinheiro. Não foi um Congresso caro. Foi feito com muito menos de R$ 100.000. E quem entrou com dinheiro, agradecemos à Fecomércio, à Renault, à Sancor Seguros, entraram com muito pouco porque começámos a programar há oito meses, mas saímos para o terreno e nos decidimos há quatro, cinco meses atrás. O ano que vem vamos marcar no início do ano e toda a gente vai reservar essa data. Vai ser ainda maior.

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Imagem:

Dr. Pedro Ezequiel Marotta, Cônsul da Argentina em Curitiba.

(Fonte):

Jornal de Relações Internacionais (Fotógrafo: Luiz Fabiano).

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