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Portugal: Da Decadência Nacional à Refundação do Projeto Atlantista

1. Introdução

Portugal é, na Europa, a par da Islândia, o único país no qual a nação corresponde ao Estado. Ao longo da História vários foram os momentos-chave que viriam a determinar aquilo que, atualmente, o define.

Evoquemos, a título de ilustração, alguns desses marcos cronológicos: 1143 (assinatura do Tratado de Zamora, entre D. Afonso Henriques, rei de Portugal, e D. Afonso VII, seu primo, rei de Leão e Castela. O Tratado, celebrado no dia 5 de Outubro é, por assim dizer, a “certidão de nascimento” de Portugal como país independente); 1179 (Bula Manifestis Probatum, na qual o papa Alexandre III reconhece a soberania portuguesa); 1383-1385 (crise dinástica, que terminou com a derrota de Castela na batalha de Aljubarrota e com a aclamação de D. João, mestre de Aviz, como rei de Portugal); 1415 (início da expansão de Portugal, com a conquista de Ceuta); 1498 (chegada de Vasco da Gama à Índia); 1500 (chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil); 1578 (batalha de Álcácer Quibir – morte de D. Sebastião e perda da soberania para Espanha, entre 1580 e 1640); 1750-1777 (consulado de Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal); 1820-1834 (Revolução Liberal); 1890 (Ultimatum inglês, que pôs termo às pretensões do mapa cor-de-rosa, de Henrique Barros Gomes); 1974 (golpe de Estado, que pôs fim à ditadura do Estado Novo e ao Império Colonial português).

Depois da hora em que os fundos comunitários, oriundos da União Europa, pareciam não ter fim, eis que Portugal tem vindo a despertar, desde o pedido de ajuda externa formulado em Abril de 2011, para a dor de um cotidiano triste, para um dia-a-dia sem alma, numa existência em que parece já não haver forças para questionar a vida e os projetos que nela se tecem. À deriva entre os escombros do que, ainda há pouco, já foi e a incerteza do que, logo mais, já não será, a Pátria lusitana tem vindo a gerir o seu presente como se o seu futuro fosse aquele que se perspectiva a uma empresa dotada de… massa falida.

Os intelectuais portugueses que, ainda há não muito tempo, sobreviviam embarcados numa ideia de Europa que não admitia o questionamento, apregoam, num unanimismo perigoso, o desnorte último do projeto nacional. Muitos empresários, grandes, médios e pequenos, reclamam que integrados em Espanha o país teria um porvir mais bonançoso. Os universitários pensam que, com o Tratado de Bolonha, tudo se resolverá… a contento da manutenção dos empregos.

É o Povo, esse Povo esquecido e hoje já sem voz que, em Portugal, pergunta: é o meu um País com sentido? O Povo sabe que os maiores são a Luz que alumia o caminho que os filhos, um dia, hão-de trilhar… O Povo sabe…

Permitam-me que evoque um episódio familiar, ocorrido há alguns anos. Estávamos em dia de Sexta-feira Santa, em S. João de Rei, lá nesse Minho que o general Jean-Andoche Junot, ao retirar humilhado para França, disse ter uma Natureza demasiado esplendorosa para os bárbaros que lá habitavam. Meu primo António Celestino e eu próprio cuidávamos do cognac que iria acalentar o almoço semi-jejuado, quando entrou o caseiro, que trazia uma mensagem.

– Remígio, tu queres?, inquiriu o primo Celestino.

– Não, senhor comendador. Logo Cristo morre e eu tenho que cuidar dele!

Atentemos no sentido profundo deste episódio. Enquanto que os da cidade, cosmopolitas e já globalizados, tratavam de remediar o fastio de uma refeição comida por imposição litúrgica, o homem simples lembrou o sentido simultaneamente popular e sagrado da vida, que já encontramos esculpido no Cancioneiro Geral. Estamos, aqui, ante o próprio Menino Jesus, de Guerra Junqueiro que, a certas horas do dia, sobe à Cruz para ajudar o Padre na celebração da missa.

O homem simples, todos os Remígios de Portugal sabem que, enquanto Povo, “nós somos feitos para o impossível” (SOUSA, 2003: 140), almejando, a cada saída de Calecut, a chegada à Ilha dos Amores. Aí, na nossa Ilha de São Borondon ideal, os marinheiros “continuam marinheiros, continuam bichos. Bichos! E ao mesmo tempo ouvem os deuses. Os deuses vêm, cantam coisas, contam coisas, estão no mesmo mundo dos deuses, estão fora do espaço e do tempo” (SOUSA, 2003: 215).

2. O que é Portugal?

Apesar das realizações, porventura sucessivas e grandiosas, de índole material, convém lembrar que este é o plano instrumental para a concretização da Pátria. De acordo com o já referido Guerra Junqueiro, preconizo que Portugal “não é uma tenda, n[em] um orçamento uma bíblia. Ninguém diz: a pátria do comerciante Araújo, do capitalista Seixas, do banqueiro Burnay. Diz-se a pátria de Herculano, de Camilo, de Antero, de João de Deus. Da mera comunhão de estômagos não resulta uma pátria, resulta uma pia” (JUNQUEIRO, s. d.: 637). É, pois, de acordo com os anseios da Escola Portuense, que afirmo ser a traditio a base da revolutio. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Tenho para mim que não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para percorrer o que falta. Podemos, contudo, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não concebo, contudo, que os povos sejam tábuas rasas que, sem memória de nada, criem tudo a cada momento do seu existir.

Se a Pátria é passado – ela é, no dizer de Maurice Barrès, la terre et les morts – é, fundamentalmente, como declarou Claudel, la mer et les vivants. Melhor: a Pátria é a terra, o mar, os mortos, os vivos e os ainda não nascidos. Em tensão entre o passado e o devir, a Pátria será, no futuro de todos nós, conosco, mas com aqueles que, hoje, ainda não são.

Atualmente, na Europa mergulhada num pensiero debole sem saída, o que é Portugal? Hoje, “somos superlativamente europeus porque já o éramos quando a Europa se definia na História do mundo como continente medianeiro. É para a Europa, talvez, que nós constituímos, se não um desafio, pelo menos um problema” (LOURENÇO, 1990: 23). Assim, e dilematicamente, diga-se, os portugueses provaram, longo da História, que não podiam ser digeridos enquanto portugueses, dado que a sua vocação é a de estar no mundo como estar em sua própria casa. Paradoxalmente, já o Padre António Vieira nos advertia do seu complexo maior, do seu atavismo de sempre: “Todos nos cansamos em guardar Portugal dos Castelhanos, e devêramo-nos cansar mais em o guardar de nós. Guardemos o nosso Reino de nós, que nós somos os que lhe fazemos a maior guerra” (VIEIRA: 1954: 257).

3. Para quê Portugal?

É chegado o tempo de os portugueses deixarem, como tema fulcral de suas vidas, as questões relacionadas com os critérios de convergência nominal, as quotas de produção de isto e de aquilo, a maçã e o pêssego normalizados a partir das normas emanadas de Bruxelas. Tudo isto, que é importante, só o é num único plano: o material. Talvez hoje, enquanto comunidade, os portugueses estejam condenados ao nada. Ainda assim, se é o nada que lhes está reservado, como destino último, tanto em termos pessoais quanto em termos colectivos, eles devem começar por lutar, brava e rijamente, contra tal fatalidade. Talvez eles sejam os Sefarditas de uma Sefarad da qual ninguém os expulsou; talvez sejam, contemporaneamente, a bíblica tribo de Issachor[1]. Ainda assim, ante a tentação do gageiro sinistro da Nau Catrineta, eles têm o dever de cumprir o destino do seu capitão general:

                                                                                     Renego de ti, demónio,
                                                                                     Que me estavas a atentar!
                                                                                    A minha alma é só de Deus;
                                                                                    O meu corpo dou eu ao mar (GARRETT, s. d.: 695).
 Se, deles, alguns – talvez não tão poucos quanto isso – querem remover o Espírito e se cada um deles aquiescer, resignado, já vencido pela vida, então talvez os momentos mais pessimistas de Luís de Camões, de lord Byron, de António Nobre e de Manuel Laranjeira tenham razão. Se, eles, já tolhidos pela circunstância em que se encontram mergulhados, não têm capacidade para a criticar, explorando criativamente os rumos que, hoje, se abrem par em par àquele Povo, então devem escutar o seu Poema Nacional. Referindo-se àquilo, Camões narra a “austera, apagada e vil tristeza” (CAMÕES, 2000: X, 145); o romântico inglês disse dos portugueses paralisados pelos atavismos decorrentes da Revolução Industrial:
                                                                                   Poor, paltry slaves! yet born ’midst noblest
                                                                                        Scenes –
                                                                                   Why, Nature, waste thy wonders on such men? (BYRON, 1900: 16).

o tísico sublime de Oitocentos, esse, clama n’o livro mais triste que se escreveu no nosso País: “[…] Amigos,/ que desgraça nascer em Portugal!” (NOBRE, 1971: 148); Manuel Laranjeira, toldado por uma crise de vontade que o conduziria ao suicídio e que levaria a República ao colapso, escreve sobre a crise da matéria: “A Europa despreza-nos; a Europa civilizada ignora-nos; a Europa medíocre, burguesa, prática e egoísta, detesta-nos, como se detesta gente sem vergonha, sobretudo… sem dinheiro. Apesar de isso, em Portugal ainda há muita nobreza moral, ainda há pelo menos nobreza moral bastante para morrer” (LARANJEIRA, 1943: 146).

*

*          *

Portugal foi grande, quando, ao longo da sua História, encarou o mar, assumindo-o como desafio estratégico; Portugal tem sido pequeno sempre que, em cada bifurcação civilizacional, se posiciona tendo como horizonte último o continente europeu. Os portugueses saíram da crise de 1383/1385, rumando para o Norte de África; no século XVI, desenvolveram as adaptações pertinentes para, uma vez falida a rota do Cabo, iniciarem o dinamismo da rota do Atlântico; o ouro e os diamantes do Brasil foram, em Setecentos, o aliquid[2] que lhes permitiu o delírio do Barroco e, também, os excessos do ministro todo-poderoso de D. José, o marquês de Pombal.

O “para quê” tem sentido se Portugal se assumir como realidade espiritual de feição atlântica. Dar, ao mundo, novos mundos, significa, atualmente, dar a todos o mesmo pão para o corpo e proporcionar a cada um o pão substantivamente diverso para o Espírito. O projeto de uma Civilização Lusíada, norteada pelo Amor, não é novo. Ele teve intérpretes de primeiro plano. Lembremos alguns. O exercício merece bem a pena, embora, hoje mesmo, um velho muito antigo, residente no nosso Restelo mental, diga aos novos Nautas:

                                                                                  A que novos desastres determinas
                                                                                  De levar estes Reinos e esta gente?
                                                                                  Que perigos, que mortes lhe destinas
                                                                                   Debaixo dalgum nome preminente?
                                                                                   Que promessas de reinos e de minas
                                                                                   De ouro, que lhe farás tão fàcilmente?
                                                                                   Que famas lhe prometerás? que histórias?
                                                                                   Que triunfos? que palmas? que vitórias? (CAMÕES, 2000: IV, 97).

 

Santo António de Lisboa enfatiza o papel do amor gémeo nos seus Sermões, tanto os Dominicais, quanto os Festivos. O franciscano, pregador in universum, não se cansa de falar no amor a Deus e ao Próximo, sentimento total e retributivo que consiste na paga do Amor dispensado aos homens na Criação e na Redenção. Tal Amor é, a um tempo, atitude de doação caritativa entre semelhantes: “Amor, no étimo latino, significa ligar dois entre si. O amor, na verdade, começa por dois: o amor de Deus e o do próximo. O amor só nos bons costuma existir. Amar significa ligar dois” (SANTO ANTÓNIO DE LISBOA, 1987: 20). Prosseguindo, o Santo escreve, agora no plano dialógico: Deus, “no princípio antes de existires, deu-te a ti, no segundo momento, sendo tu mau, deu-se a ti, para que fosses bom, e quando se te deu, restituiu-te a ti. Dado, portanto, e restituído, deves-te duas vezes e deves-te todo” (SANTO ANTÓNIO DE LISBOA, 1987: 22).

A doação, atitude extravagante em épocas repletas de hybris e de mundo, como foi a de Santo António e é a nossa, colhem uma advertência que é, ela própria, trans-temporal: “Aquele que não é infundido pela graça da caridade, olha como estranho o seu próximo, ainda que o tenha gerado para Deus” (SANTO ANTÓNIO DE LISBOA, 1987: 55).

Amor prenhe de modernidade é o Amor antoniano, esse que nos propõe o trânsito de Jericó até à Jerusalém Celeste, abrindo perspectivas – ainda hoje – novíssimas, nos campos da Ética e da Antropologia, para um Povo que, de há muito, do mundo fez a sua casa.

Aproximemo-nos, agora, de D. Duarte. O rei-filósofo faz no a, b, c da lealdade, o Leal Conselheiro, a teorização desse pacto intangível com os do seu reino, pacto esse destinado a preparar intelectualmente a epopeia da Expansão. O travejamento teórico da obra maior do monarca da Ínclita Geração assenta na lealdade, no entendimento e na experiência.

A partir da fidelidade estruturante que manifesta a seu Pai, D. Duarte defende que, para Portugal continuar a ser Portugal depois desse momento telúrico que foi a tomada de Ceuta, teriam os portugueses que ter presentes os três regimentos subjacentes à prática da lealdade: a da sua pessoa; a da casa e do Reino; a da cidade ou de qualquer julgado (D. DUARTE, 1998: 373).

Dado que o entendimento é a “nossa virtude mui principal” (D. DUARTE, 1998: 8), para vivermos bem e virtuosamente, nós que temos a obrigação de alcançar a felicidade, na dignidade, necessitamos do concurso da razão: é ela que permite à vontade escolher bem. Estamos, deste modo, ante o “boo entendimento” (D. DUARTE, 1998: 39), que D. Duarte identifica com o siso, a  prudência e a discrição.

Por maiores que sejam as mudanças, de teor político e social, sofridas pelo País, é possível que cada um viva sempre virtuosamente, se para tanto se esforçar e trabalhar, contando com “a graça do Senhor Deus” (D. DUARTE, 1998: 350). Neste sentido, cada um de nós tem que aprofundar o conhecimento que tem, do mundo e da vida, no sentido de evitar os erros, seguindo o exemplo dos discretos e sisudos.

Diacronicamente distanciado de Roma, D. Duarte retoma princípios de governação que nenhum tempo poderá ignorar, sob pena de naufrágio estrutural. Referia-se o rei à gravitas, à simplicitas, à auctoritas que têm que estar presentes na vida de qualquer Estado. D. Duarte ousou criar, por intermédio das suas reflexões morais e políticas, uma plataforma coerente que visava ousar, tendo o passado como base crítica da novidade que irrompia num mundo que já não era medieval, mas que ainda não era o do Renascimento, não hesitando, contudo, em aventurar-se rumo ao ignoto.

Peguemos no Atlas Universal, de Diogo Homem. O original está, hoje, na Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo. Jóia da cartografia europeia de inícios do século XVI, ele é uma leitura atentíssima desse mundo que, inexoravelmente, já não estava no centro do Universo. A obra de “Diegus Homê Cosmographus Lusitanus” é a cúspide do grande segredo Português, já em finais do século XV: os portulanos e as cartas de marear. Dizem, lá para os lados onde vivo, que foram estes segredos magníficos, de matriz Templária e de usum reservatum, que fizeram com que Cristóvão Colombo tivesse viajado até à vila de Alcáçovas para roubar os mapas que o levariam até às Índias Ocidentais.

José Pereira de Sampaio, literariamente conhecido por intermédio do seu pseudónimo, Sampaio Bruno, é claro ao propor como abóbada para a sua teoria messiânico-humanista, a era dos Cavaleiros do Amor. Na sua metafísica da Redenção, Bruno aponta-nos o caminho necessário, a via para consumar o porvir: “Dissipe-se a nuvem que encobre o heroe. O heroe não é um principe predestinado. Não é mesmo um povo. É o homem” (BRUNO, 1904: 378). O especulativo portuense prossegue: “A fé será theorema; e o imperio não virá da conquista. Não desanimemos porque não nos illudamos” (BRUNO, 1904: 378); mesmo que, ainda hoje não consigamos desvelar o sentido último d’O Encoberto, um dia, “em todo o mundo, a Paz será” (BRUNO, 1904: 381).

Civilização de Iniciados é, pois, a dos Cavaleiros do Amor, que terá como tarefa o instaurar da Revolução. Segundo Bruno, aquela está concebida como “todo o esforço contra a guerra, a escravatura, a tirania, a exploração do homem pelo homem; a Revolução é toda a doutrina e todo o acto que encaminha para a paz; que dê aos homens a liberdade, a igualdade, a fraternidade” (BRUNO, 1960: 53). Assim, “por curtos momentos sublimes, os mudos (pelo terror político e religioso) readquirirão no recinto sagrado a fala, os cegos (pelo fanatismo e pela superstição) verão a luz (da verdade política e religiosa). Eles constituirão uma irmandade, por degraus sucessivos ascendendo na posse da lenta plenitude da Razão, suavemente obedecendo, suavemente mandando, usufruidores duma liberdade que coexiste com a obediência, crescente segundo avançam os graus de iniciação e consoante cada vez mais cada qual progride na aquisição perfeita dos escondidos mistérios” (BRUNO, 1960: 118).

Não tenhamos medo das palavras, que elas já não levam ninguém para a fogueira. A Civilização do Amor é aquela que, no entender do Padre António Vieira, tem Saudades do Futuro, ou seja, é um Império, o Quinto, que é simultaneamente temporal e espiritual (cf. VIEIRA, 1992: 363-366). É, pois, com os olhos postos na Esperança, muito mais do que na Lembrança, que os portugueses têm o dever de prospectivar o que querem ser enquanto portugueses.

E é, digamo-lo também, inspirados por Mestre Agostinho da Silva, uma Esperança bolinante, aquela que tem que mover o o povo português. É essa Esperança, tecida contra a própria desesperança, nessa maré contrária em que “o vento vem e dá/ e vem a sorte e tira” (BARROSO, 1996) que eles têm que erguer a voz para fazerem ouvir os “cantos de oxalá/ lutando com a mentira” (BARROSO, 1996). Ao falarmos na Civilização do Amor falamos na Civilização do Bem, do Belo e do Verdadeiro. Esta é, verdadeiramente, a Civilização da Raza Cósmica, aquela que, segundo José Vasconcelos, é a raça final, a civilização unicamente possível a partir da mestiçagem gerada no encontro havido entre a casa grande e a senzala.

Apesar de Gilberto Freyre ter alvitrado, com a “teoria do luso-tropicalismo” (cf. FREYREa, s. d.; FREYREb, s. d.), a vocação regionalista e universalista dos portugueses e seus descendentes, bem como a sua tendência para a mestiçagem, que tomou forma no Brasil, a proposta de uma síntese entre a “hispanidad” e a “lusitanidade”, concretizada a partir da Argentina e do Brasil foi levada a cabo pelo mexicano José Vasconcelos, na obra La Raza Cósmica.

Tendo por base reflexiva a verificação da mestiçagem realizada em todo o Centro e Sul do continente americano, o filósofo de Oaxaca propõe-nos “la raza definitiva, la raza síntesis o raza integral, hecha con el genio y con la sangre de todos los pueblos y, por lo mismo, más capaz de verdadera fraternidad y de visión realmente universal” (VASCONCELOS, 1976: 30) que, para lá  das raças já conhecidas, teria a capacidade de aplicar “la ley de los tres estados: el material, el intelectual y el estético” (VASCONCELOS, 1976: 52-53). Seria por seu intermédio que se chegaria, “a la creación de una raza hecha con el tesoro de todas las anteriores, la raza final, la raza cósmica” (VASCONCELOS, 1976: 53).

4. Onde é Portugal?

Sendo no canto mais ocidental da Europa, Portugal é em todos os locais onde os portugueses deixaram marcas, perenes, da sua passagem. Universalista na sua vocação, Portugal foi, e continuará a ser, pela dinâmica espiritual que conseguir imprimir aos seus projetos vitais. Não pensemos que foi por um qualquer feitiço histórico que Portugal elegeu ao plano de herói nacional um Poeta. Não foi. Quis honrar, em Luís de Camões, a gesta Lusíada e, a um tempo, a dimensão onírica que cada Português, viajante, aventureiro e troca-tintas, transporta consigo, esteja ele onde estiver, viva ele onde viver. Saibam os governantes dar àquele povo um ideal utópico suficientemente credível e ele voará, nas asas do sonho, rumo às Índias Espirituais do encantamento! Saibam explicar, a quantos vivem a portugalidade, as potencialidades genesíacas de que os portugueses são portadores, que aquele povo será, na Europa e no mundo, a feição única de um império humanista sem imperador!

Convém, no entanto, ter presente que “nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação. Contudo, se exceptuarmos talvez a Macedónia e Roma, poucas vezes um povo partindo de tão pouco alcançou […] um direito tão claro a ser tido por ‘grande’” (LOURENÇO, 1988: 19).

Portugal é onde, verdadeiramente, reside uma comunidade de portugueses. Se o filósofo da alteridade, Emmanuel Lévinas, definiu a Europa como sendo “la Bible et les Grecs” (cf. LÉVINAS, 1988: 155-157), nós podemos afirmar, sem receio a sermos tidos por prestidigitadores de vontades terceiras, como sendo a Pátria lusitana a língua portuguesa. A intencionalidade é pessoana: ouçamos, então, para enfatizar, o que um dos heterónimos do autor da Mensagem assevera: “Minha patria é a lingua portuguesa” (PESSOA, 1982: 17).

5. Conclusões

Suum quique tribuere tem que ser a divisa desta Portugalidade renascente. “Dar a cada um o seu” é um grito de Amor; é, também, uma súplica cristã. Impõe-se, atualmente, como exigência moral: que aqueles que tudo possuem dêem algo aos que mendigam a sobrevivência. s daquele poeta falecido no esquecimento dos notáveis, em Lisboa, num dia de Novembro de 1935:

 

                                                                                 Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
                                                                                 Deus quiz que a terra fosse toda uma,
                                                                                 Que o mar unisse, já não separasse.
                                                                                 Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
                                                                                 E a orla branca foi de ilha em continente,
                                                                                 Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
                                                                                 E viu-se a terra inteira, de repente,
                                                                                 Surgir, redonda, do azul profundo (PESSOA, 1934: 51).

 

Os versos de Fernando Pessoa, acabados de pôr em evidência, devem ser a chave para o entendimento da Esfera Armilar que cobre os caixões de quantos, por Portugal, deram a vida. O Infante Santo e o soldado do Corpo Expedicionário Português tombaram para que os vivos, hoje, estejam prontos a entregar o testemunho do que são às novíssimas gerações. Mas é preciso fazer mais. A generosidade urge. É preciso ser-se interiormente grande. Há que viver com a austera gravidade dos Romanos da República. O desafio de Portugal consiste em ser, a um tempo, irrepetível e universalista.

Termino, fazendo minhas as palavras lapidares de Teixeira de Pascoaes:

 

                                                                                       É preciso rezar, cantar e trabalhar;
                                                                                       Ter esta força de alma e de certeza
                                                                                       Que esculpe em bronze de harmonia
                                                                                       A nossa espiritual fisionomia
                                                                                       E nos leva a encarar, sem, medo, a negra Morte!
                                                                                       Sim: é preciso crer. Acreditai!
                                                                                       O peso bruto, a inércia dominai!
                                                                                       Erguei, cantando e orando, a voz!
                                                                                       Vencei a triste Sorte,
                                                                                       Invisível espectro, além de nós… (PASCOAES, s. d.: 214-215).
BIBLIOGRAFIA

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BARROSO, Pedro. “Cantos d’Oxalá”, in Cantos d’Oxalá. S. l.: Edição CDTOP, 1996.

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 Fontes consultadas:

 [1] Ver:

 “Issachor é um jumento musculoso,
Que se deita sobre as colinas.
Saboreou o encanto do repouso,
E as delícias do pasto;
Entregou os ombros ao Jugo,
E tornou-se tributário.”, Gn., 49-15.
Vide, sobre as consequências da identificação da tribo de Issachor com Portugal, DIASa, 2002:  278-279.

[2] Ver:

Fazemos uso deste conceito a partir do entendimento que dele faz Santo Anselmo, apropriando-o para o plano da reflexão política: “Nós realmente acreditamos que tu és – alguma coisa [aliquid] maior do que a qual nada se pode pensar –.” (S. ANSELMO, 1991: 137).

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Publicado no Boletim do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, Curitiba, Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, n.º LXVI, 2013, págs. 87-104.

 

 

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