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O Que é a Filosofia?

“Quando eu ainda era uma ingênua e inocente rapariga”[1] acreditava que, ao fazer filosofia, descobriria os mistérios do pequeno universo que me cercava. Por acreditar que ela me ensinaria a verdade, eu teria domínio sobre a vida e a morte, sobre a saúde e a doença, sobre a tristeza e a alegria, sobre o amor e o ódio e seria plena.

O Pensador, de Auguste Rodin.

Entretanto, quanto mais eu entrava em contato com a filosofia mais me distanciava de mim mesma. Mais eu percebia que não se tratava de uma auto-ajuda e sim de um desvelamento, lento gradual e doloroso do meu ser. As minhas expectativas tanto quanto as angústias de vida e de morte, amor e ódio, alegria e tristeza, etc…, permaneciam inalteradas e as minhas pseudo-verdades eram pouco a pouco destruídas, de tal sorte, que quase não restou nada.

Assim, declaro que não sei o que é a filosofia e nem tenho pretensão em defini-la, eis que tal pergunta vem sendo questionada através dos séculos, por mentes muito mais brilhantes e aptas a tal tarefa e, ainda assim, tal empenho não parece ter tido muito êxito, já que a questão permanece em aberto.

Ela não é ciência, não é biologia, não é medicina, não é história, não é arte, não é seita, não é religião, não é direito, não é política, não é psicologia, não é jornalismo, não é sociologia, não é passível de enquadramento. A filosofia é a filosofia.

Equidistante da realidade humana, ela permanece impassível, inalterada, imparcial a qualquer exigência ou atitude prática da vida. A filosofia se basta a ela mesma, ensimesmada em sua abstração. Pensa o pensamento humano.  Pensa as relações humanas. Pensa o próprio pensar.

E, por pensar o pensar o humano, arrisco dizer que, se tivesse que delimitar um objeto de estudo para a filosofia, este objeto poderia ser o homem no sentido lato. Mas, pensar o homem no sentido lato é pensar o que o define como tal; é pensar a imbricada relação que este homem tem com a realidade que se apresenta a ele.

Entretanto, a consciência que individualiza cada homem impossibilita sua generalização e a realidade que se apresenta ao homem se apresenta sempre de modo muito mais rico do que qualquer pensamento que este homem possa ter. Desta maneira, o objeto de estudo que eu houvera delimitado para definir a filosofia se ampliaria novamente, seja pela individualidade que é imanente a cada homem, seja pela indefinição dos acontecimentos humanos, e fugiria ao entendimento científico novamente.

Assim, por não ser entendida e nem “enquadrável” como uma ciência, na maioria das vezes ela se apresenta informe. Quando sua materialização se faz necessária, penso nos Homens que a pensaram: dos “Pré-Socráticos a Derrida”; penso no Pensador de Rodin; penso muito mais em uma história da filosofia do que na própria definição de filosofia.

Por vezes, eu e minha pretensão, acreditamos que a filosofia é dispensável nesse mundo mesquinho e pobre, que exige constantemente uma atitude pratica dos homens. Por vezes, eu e minha pretensão, julgamos e condenamos a filosofia pela arrogância dos seus discursos e, nesse momento, ela se personifica a mim na figura horrenda da personagem “Filosofia” do Boécio, que se apresenta a ele como uma mulher com características sobre-humanas, de estatura indiscernível e que, às vezes parece alcançar com sua cabeça o vértice do céu. Seus olhos em flamas ressaltam sua clarividência e dela emana uma força não equiparável a nada. É aquela que detém a verdade e que precisa conduzir seus discípulos ao caminho da perfeição. Caminho este que se revela a alguns poucos esclarecidos e escolhidos por ela.

Quando ela se personifica nesta imagem do Boécio eu passo a odiá-la com toda força, por se manter inerte e prepotente frente às minhas inquietações; por ser seletiva e se revelar apenas a alguns poucos escolhidos, os quais são os únicos que podem entendê-la e tornam-se a boca da filosofia, os aptos a revelar as suas verdades.

Por outras vezes, eu e minha submissão, nos acalmamos ao lado da Filosofia e entendemos que não tem jeito mesmo. Aceito, submissa, o fato de que ela não se revelará a mim e que a vida é o que é. Concluo que, se a verdade está na filosofia, ela e a vida mantêm um pacto de silêncio, que ao que me parece não será quebrado jamais.  Percebo que as inquietações que tenho acerca da vida, da realidade e do homem permanecerão invisíveis aos meus olhos mortais. E, neste momento, eu e minha inquietação, eu e minha submissão recorremos à literatura que se mostra mais carinhosa para comigo[2].

O fato é que, apesar da filosofia não se mostrar do modo como eu queria nas minhas ilusões de menina, sou grata a essa filosofia por não ter se revelado totalmente, pois à medida que ela se revelou, também se revelou em mim o melhor e o pior do meu ser.

Após alguns anos em contato com “essa tal filosofia”[3] percebo que “a maturidade me permite olhar com menos ilusões”[4] para ela. Não desejo mais a excessiva coerência da lógica; não desejo mais compreender o mundo e as relações humanas. Preciso do abandono do meu ser, que exige a fantasia, e isso a filosofia não pode me dar. Preciso de um tempo da minha vida para olhar pela janela descompromissada de toda realidade, e isso a filosofia não pode me dar.

Concluo, por fim, que não sei se com os anos ela se tornou menor, portanto, menos importante para mim ou, se com os anos eu me tornei maior e, portanto, mais importante para mim. O fato é que não posso negar a minha gratidão a essa filosofia que na sua imponente sapiência e na sua impassível altivez se faz forte, plena e misteriosa e que sem a qual eu sempre seria menor, talvez até mais feliz, porque mais sonhadora,  mas sempre menor do que sou hoje.

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Imagem:

 O Pensador, de Auguste Rodin.

(Fonte):

https://pixabay.com/pt/o-pensador-rodin-paris-escultura-692959/

Fontes consultadas:

[1] Ver:

 Lya Luft. Pensar é Transgredir, 9.ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004.

[2] Ver:

Aqui faço alusão ao Vermelho e o Negro, de Stendhal, no qual o escritor conta-nos a história do caçador que dá um tiro na floresta e, ao atirar, o impacto da arma em seu ombro o faz dar um passo em falso e o caçador sem querer pisa em um formigueiro. Nesse momento, a vida organizada das formigas é destruída. O alimento acumulado para o inverno, e a morte de centenas de formigas se apresenta a elas como indecifrável. Diz Stendhal que nem mesmo a mais filosofa de todas as formigas poderia entender aquele corpo estranho que estraçalhou com a vida e o habitat delas, a não ser que houvesse uma formiga com órgãos extremamente grandes para poder olhar de cima.

[3] Ver:

Martin Heidegger.

[4] Ver:

Lya Luft. Pensar é Transgredir, 9.ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004.