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A Visita do Papa Francisco ao Chile e ao Peru

O papa Francisco realizou, entre 15 e 22 de janeiro, sua viagem ao Chile e ao Peru, a primeira viagem apostólica fora de Itália durante o presente ano e a 22.ª internacional de seu pontificado. Durante seis dias, o vigário de Cristo, com 81 anos de idade e um único pulmão, deslocou-se ao longo de mais de 35 mil quilômetros. Enquanto alguns o receberam apreciando seu carisma, muitos outros o receberam com um espírito de raiva intensa em relação à Igreja Católica.

Duplo logotipo da Viagem Apostólica ao Chile e ao Peru.

A visita ao Chile e ao Peru esteve entre as mais desafiadoras que o papa levou a cabo. Fiel ao seu carisma, Francisco visitou seis cidades e participou em inúmeros eventos, tendo ido até pessoas que nunca esperaram encontrar o campeão mundial da fé: mulheres presas, no Chile, povos indígenas com queixas relativamente à posse da terra no sul chileno e na floresta amazônica, vítimas de escândalos sexuais, em ambos os países, envolvendo sacerdotes. A bordo do avião que o conduziu ao Chile, no dia 15 de janeiro, o sumo pontífice, respondendo a um jornalista da agência noticiosa italiana ANSA que inquiriu se ele tem medo do início de um conflito, declarou: “Realmente tenho medo de uma guerra nuclear, estamos no limite”. Ao defender o desarmamento nuclear, à escala mundial, Francisco partilhou, com os jornalistas que o acompanhavam naquele voo, o cartão postal difundido durante a quadra de Natal de 2017, ou seja, a reprodução de uma fotografia feita em Nagasaki após o lançamento da bomba atômica pelos Estados Unidos, em 1945, que mostra uma criança carregando seu irmão morto, às costas, enquanto esperava a sua vez no crematório. Para o papa, “somente falta um percalço para que se inicie a guerra, pelo que a situação corre o risco de se precipitar”.

No Chile, com as autoridades políticas, disse o papa, “encorajei o caminho da democracia chilena como espaço de encontro solidário e capaz de incluir as diversidades”, indicando como método “o caminho da escuta”, em particular “dos pobres, dos jovens, dos idosos e dos imigrantes”, assim como “a escuta da terra”. Contudo, o ponto crítico da presença do líder da Igreja Católica neste país teve a ver com a defesa de Juan Barros, o bispo de Osorno, um discípulo que encobriu Fernando Karadima[1], o ex-sacerdote da Igreja de El Bosque acusado de atos pedófilos durante as décadas de 1980 e 1990. De acordo com Carlos E. Cué, jornalista do El País, indignado com a polêmica que arruinou midiaticamente a viagem, Francisco retorquiu, em Iquique: “No dia que me trouxerem uma prova contra o bispo Barros, então eu falarei. Não há uma única prova contra ele. É tudo calúnia. Está claro?”. Juan Carlos Cruz, uma das alegadas vítimas dos abusos sexuais, comentou de imediato: “Como se alguém pudesse ter tirado um selfie ou uma foto, enquanto Karadima abusava de mim e de outros com Juan Barros parado ao lado, vendo tudo”, clamou diante da exigência de provas. “Essas pessoas de cima estão loucas e @pontifex fala de reparação às vítimas. Continuamos na mesma e seu perdão continua sendo vazio”. Por outro lado, José Andrés Murillo que, juntamente com Juan Carlos Cruz criou uma Fundação de apoio às crianças, opinou indignado: “Isso já se tornou pessoal… Francisco, perceba que nossa luta é contra o abuso… Bento, precisamos de você agora”. O cardeal Sean O’Malley, de Boston, encarregado pelo papa de liderar a comissão antipedofilia, foi bastante duro com ele. “É compreensível”, disse num comunicado publicado no sábado, que os comentários de Francisco, feitos no Chile, “sejam uma fonte de grande dor para os sobreviventes de abusos sexuais por parte do clero ou qualquer outro perpetrador”. Na conferência de imprensa coletiva durante o voo de regresso de Lima a Roma, o papa justificou as declarações feitas a respeito do bispo Juan Barros[2].

Na manhã do dia 21, antes da celebração da missa na catedral de Lima, o papa se reuniu com as freiras contemplativas do Santuário das Nazarenas, no centro da cidade. Naquela ocasião, de improviso, Francisco aludiu ao grupo insurgente Sendero Luminoso ao perguntar e responder: “Sabem o que é uma freira fofoqueira? Terrorista. Pior que Ayacucho anos atrás. Porque a fofoca é como uma bomba […], como o demônio. Atira a bomba, destrói tudo e vai embora tranquila. Freiras terroristas, não. Sem fofocas”, declarou. Desenvolvendo sua linha de pensamento, o sucessor de Pedro acrescentou: “Já sabem que o melhor remédio para não fofocar é morder a língua. A enfermeira vai ter trabalho, porque a língua de vocês vai inflamar, porém não vão atirar a bomba. E lembrem-se dos terroristas de Ayacucho quando quiserem fazer uma fofoca”.

Na conferência de imprensa realizada no voo de regresso a Roma, o papa proferiu palavras duras contra a corrupção, que atinge muitos países, incluindo os da América Latina. “A corrupção é como as areias movediças donde procuras sair: dás um passo e afundas-te mais, sempre mais até te engolir. É um pântano… Isto sim, é a destruição da pessoa humana”, afirmou Francisco. Após ter referido a existência do fenômeno na Europa, ele centrou sua análise na América Latina, onde “existem muitos focos de corrupção. Agora é de moda falar de Odebrecht, por exemplo. Mas isto é um fenómeno que aparece. A origem da corrupção, qual é? Eu diria que é o pecado original que te leva a isso”. Ao apresentar a diferença existente entre o “pecador” e o “corrupto” o papa reiterou que “todos somos pecadores. Mas eu sei que todos nós – aqueles que estamos aqui; eu faço a minha parte e penso que também vós a façais –, quando nos encontramos offside (fora de jogo) num pecado sério: ‘Isto é mal, aqui comportei-me mal com um amigo, ou roubei, fiz ‘não sei o quê’, ou droguei-me’, então paro e procuro não voltar a fazê-lo. Bem, há o perdão de Deus sobre tudo isso”. Em relação ao corrupto, por exemplo, “um empresário, que paga apenas metade aos seus operários, é um corrupto; e uma dona de casa que está habituada – e julga isso a coisa mais normal possível – a explorar as mulheres da limpeza quer no salário quer na maneira de as tratar, é uma corrupta, porque já o considera normal”.

Evocando o lema da viagem no que diz respeito ao Peru – “Unidos pela esperança” – Francisco lembrou, a respeito de sua permanência naquele país, que “emblematicamente o encontro com os povos da Amazônia peruana, que deu também início ao itinerário do Sínodo Panamazônico convocado para outubro de 2019, assim como testemunharam os momentos vividos com a população de Puerto Maldonado e com as crianças da Casa de acolhida ‘O Pequeno Príncipe’. Juntos dissemos ‘não’ à colonização econômica e ideológica”.

Na Audiência Geral do dia 24 de janeiro, realizada na Praça de São Pedro, o papa fez o balanço de sua viagem à América Latina: “Pude encontrar o povo de Deus em caminho naquelas terras e encorajar o desenvolvimento social destes países”. Contudo, se no centro das polêmicas da mais recente visita pontifícia está a espontaneidade de Francisco, sublinhamos que ele deveria alterar esta componente de seu magistério passando, doravante, mais ao exercício da ação do que à mera prática da denúncia e do perdão.

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Imagem:

Duplo logotipo da Viagem Apostólica ao Chile e ao Peru.

(Fonte):

https://zenit.org/wp-content/uploads/2017/11/pope-trip-1.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Em 2011, Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago, informou que o Vaticano rejeitara o apelo de Fernando Karadima ante a decisão tomada em 18 de fevereiro daquele ano, que o considerou culpado do abuso de menores e de abuso de autoridade.

Naquela oportunidade, Ezzati indicou a confirmação da vida de oração prescrita a Fernando Karadima, tendo reiterado o nulo contato daquele pároco com a Pia União.

REDAÇÃO, “Vaticano Rechaza Apelación de Fernando Karadima y Mantiene la Condena en su Contra”, La Tercera, Santiago, 6 de junho de 2011.

Disponível online:

http://www2.latercera.com/noticia/vaticano-rechaza-apelacion-de-fernando-karadima-y-mantiene-la-condena-en-su-contra/

[2] Ver:

“Devo pedir desculpa, porque a palavra ‘prova’ feriu, feriu muitos abusados. ‘Então tenho eu de ir procurar a prova disto, ou de fazer aquilo…?’. Não. É uma palavra de tradução do princípio legal e… feriu. Peço-lhes desculpa por tê-los ferido, sem me dar conta; mas feri sem querer. E isso pesa-me imenso, porque eu recebo-os. No Chile, recebi dois; estes, de domínio público, mas houve mais, recebidos às escondidas.”, PAPA FRANCISCO, “Conferência de Imprensa Durante o Voo de Regresso de Lima a Roma”, Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 21 de janeiro de 2018.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2018/january/documents/papa-francesco_20180121_peru-voloritorno.html

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