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A Visão de José Marinho do Cristianismo (II)

Não porque não existam algumas efectivas afinidades – a começar nessa prefigurada “religião de Espírito”, enquanto religião sequente à “religião do Pai” e à “religião do Filho”, enquanto “religião que nos chama para a verdade oculta”. No entanto, José Marinho teve uma excessiva ambivalência de sentimentos relativamente ao cristianismo para que, sem mais, o pudéssemos inscrever na linhagem cristã – por mais que heterodoxa – de Joaquim de Flora.

Teoria do Ser e da Verdade, de José Marinho.

[Se é que foi mesmo “heterodoxa” – como escreveu Manuel J. Gandra a este respeito, na sua obra Joaquim de Fiore, Joaquimismo e Esperança Sebástica: “Joaquim de Fiore (c. 1130-1202) não foi o criador de um corpo doutrinário, traduzindo as reflexões sobre o sentido da história universal e interpretando-a em função do Fim dos Tempos, simplesmente porque essa é, sempre foi, uma preocupação universal. O cristianismo assimilara-a do judaísmo por intermédio do Apocalipse de S. João, mesclando-a, em casos específicos, com contributos pagãos que ora seria fastidioso discriminar”].

Tal ambivalência de sentimentos relativamente ao cristianismo foi, aliás, uma constante ao longo de toda a sua vida, facto que o próprio Marinho reconheceu, designadamente neste seu testemunho, em que a religião cristã aparece, ao mesmo tempo, valorizada e desvalorizada: “Se, por outro lado, na ordem do conhecimento, eu lutei contra a ameaça que o espírito cristão representa para a filosofia, na ordem do existir autêntico, pelo contrário, desde a primeira juventude, e de uma vez por todas, o cristianismo representou para mim o ímpeto e o exemplo ao qual o homem não pode e não poderá jamais furtar-se”.

Tal ambivalência de sentimentos relativamente ao cristianismo não abalou, contudo, o posicionamento religioso de José Marinho, posicionamento esse que em múltiplas passagens da sua obra assumiu, designadamente em duas passagens particularmente eloquentes: “Assim dizendo me exprimo como homem religioso. E isso me leva na sequência a dizer que não nasci filósofo. Pois vim à filosofia por íntima necessidade, e não sem alheia ajuda. Nasci homem religioso (…).”; “Se nós definirmos religião como o viver ligado ao absoluto, seja efectivamente seja intencionalmente, devo dizer que esta situação espiritual foi permanente em mim. Abandonei a prática do cristianismo, nunca o sentido central dele. Comecei a filosofar não porque me faltasse a fé, mas porque se me pôs a urgência de esclarecê-la”.

Agenda MIL: 10 de Fevereiro, em Montargil, inauguração do “Auditório Manuel Ferreira Patrício”.

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 Imagem:

Teoria do Ser e da Verdade, de José Marinho.

(Fonte):

Arquivo NOVA ÁGUIA.

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