+55 (41) 99743-8306 contato@jornalri.com.br

Um Fósforo Pode Queimar Uma Floresta

Um fósforo pode queimar uma floresta é um ditado bem comum na Turquia, referindo principalmente a facilidade de destruição e a dificuldade de construção. Neste artigo, procurarei tocar as faces da monstruosa destruição do grande incêndio – Recep Tayyip Erdoğan – na Turquia.

Governadores, chefes da Polícia, banqueiros, acadêmicos, imãs e outros profissionais têm sido perseguidos na Turquia, após o fracassado Golpe de Estado de 15 de julho de 2016, acusados de terem ligações a Fethullah Gülen.

Os seguidores diziam que Erdoğan “reunia todos os atributos de Deus”, “tocar nele era como se fosse tocar no profeta”, “ele era o esperado salvador da umma[1] e califa”. Ele parecia onipresente, no Judiciário, no Legislativo, nas Forças Armadas. Os grandes retratos daquele homem enfeitavam as praças, as manchetes de todos os jornais e a primeira notícia de todas as TVs. Tinha um exército de imã(s)[2] usando a religião, um exército de troll que utilizava a nova mídia, um exército de seguidores cegos, ultranacionalistas, religiosos radicais. Essa personalidade pública conquistou o povo em um nível que poucos políticos alcançaram na Turquia. Nele acreditavam que o curso da história poderia estar vinculado ao destino de um homem.

Tirando os kemalistas, quase todos os setores da sociedade turca (curdos, alevitas, crentes moderados, conservadores) e a comunidade internacional (árabes, UE, EUA) depositavam esperanças nele. Esperavam que de sua energia e determinação trouxesse uma esperança para o mundo muçulmano que enfrenta grandes problemas no mundo atual.

A Primavera Árabe foi o marcante início do novo Erdoğan, que caiu no velho sonho de refazer o Império Otomano e tornar-se califa. Erdoğan viu-se como o salvador do mundo islâmico que havia perdido a autoconfiança e tinha vergonha do presente e saudade das épocas gloriosas da civilização islâmica. Essa foi a imagem que ele cultivou na Turquia e no mundo islâmico. Primeiro, o político turco empurrou Bashar al-Assad para tornar-se um ditador e, como se não bastasse, deu todo o apoio abertamente, aos terroristas que lutavam contra al-Assad. O Egito, logo rompeu a relação bilateral. Somente o excluído, Qatar, procurou por Erdoğan.

O presidente turco tirou total vantagem do golpe fracassado ocorrido em 15 de julho de 2016, e passou a governar o seu país sob as normas de Estado de emergência, se sobrepondo ao Parlamento e suspendeu a carta de declaração de Direitos Humanos. A sua grande chance havia chegado. Segundo o próprio Erdoğan, o dia 15 de julho foi um “presente de Deus”. O acusado se tornou o acusador. Formadores de opinião, jornalistas, professores, juízes, donas de casa, mães, bebês recém-nascidos[3], eram acusados por Erdoğan de serem terroristas, que queriam “derrubar o governo democraticamente eleito”.

Assim como Hitler, Erdoğan espera construir grandes santuários, em memória aos 240 que faleceram no dia 15 de julho de 2016. E seus nomes foram cerimoniosamente lidos com muita honra. Como o diretor e estrela do show, Erdoğan prestou solenemente os seus respeitos aos mortos nas dezenas de comícios de propaganda. Quem sabe, chegará um dia, e declarará que: “O 15 de julho de 2016 foi o dia mais feliz da sua vida”. Mas ele disse uma frase muito interessante. “Nós salvamos a vida de 50 milhões na Turquia”. Pelo que verificamos, a população da Turquia hoje é de quase 80 milhões. Ninguém entendeu para onde foram 30 milhões. Será que ele prepara um terreno para usar mais um palito de fósforo?

Hoje, muitos analistas turcos dizem que poderiam ser evitadas essas mortes. Mas não foram, pois as mortes serviram para legitimá-lo. As vidas das pessoas nada eram para o dirigente da Turquia. Ele queria romper a história criada por Mustafa Kemal Atatürk. Erdoğan diz que os “governos vão e vêm, mas a nação fica”, mas, quem está no poder há 15 anos é ele. De acordo com a sua vontade a Constituição turca foi alterada no mês de abril, o que garantiu a Erdoğan perpetuar-se no poder até 2029. Tudo indica que a administração turca atual está determinada a destruir a democracia se valendo, para isto, dos meios democráticos. Graças a Erdoğan, a Turquia e os supostos valores islâmicos que ele defende estão sendo incendiados a cada dia mais e mais.

——————–

Imagem:

Governadores, chefes da Polícia, banqueiros, acadêmicos, imãs e outros profissionais têm sido perseguidos na Turquia, após o fracassado Golpe de Estado de 15 de julho de 2016, acusados de terem ligações a Fethullah Gülen.

(Fonte):

https://stockholmcf.org/numbers-of-public-bank-employees-academics-and-more-persecuted-in-turkey-over-alleged-gulen-links/#prettyPhoto/0/

——————–

Fontes consultadas:

[1] Ver:

Umma: Os seguidores do Islã.

[2] Ver:

Imã: Funcionário público carregado no setor da Religião.

[3] Ver:

Hoje, mais de 500 bebês e crianças estão acompanhando suas mães na prisão.