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Tom Catena, Prêmio Aurora 2017

O Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade foi criado em nome dos sobreviventes do Genocídio Armênio[1] e em gratidão aos seus salvadores, sendo concedido anualmente a partir de 2016, em Yerevan, capital da Armênia. A honraria é outorgada a uma personalidade cujas ações tenham tido um impacte excepcional na preservação da vida humana e no avanço das causas humanitárias. A instituição que estabeleceu a homenagem, 100 Lives, estipulou que o contemplado fosse agraciado com USD $ 100.000, tendo a oportunidade de nomear organizações que inspiraram o seu trabalho para receberem a soma de USD $ 1.000.000[2]. O Prêmio deve sua inspiração a Aurora, deusa romana do amanhecer, e a Aurora Mardiganian[3], personalidade que testemunhou as atrocidades do Genocídio Armênio, tendo procurado sensibilizar o mundo para os crimes cometidos entre 1915 e 1923 e, também, para os milhares de histórias não contadas, de coragem e de sobrevivência, durante os eventos dramáticos dos últimos cem anos.

Tom Catena, a personalidade agraciada com o Prêmio Aurora, em 2017.

Em 2017, a segunda edição do Prêmio Aurora contou com o concurso de 558 trabalhadores humanitários, oriundos de 66 países de todo o mundo. O Comitê de Seleção teve que decidir entre um dos cinco finalistas: Tom Catena, diretor e cirurgião do Mother of Mercy Catholic Hospital [em português: Hospital Católico Mãe da Misericórdia] e o único médico presente nas Montanhas Nuba, no Sudão; Fartuun Adan e Ilwad Elman, mãe e filha que, desde 2007, ajudam a reconstruir a Somália; Jamila Afghani, promotora da paz e da estabilidade no Afeganistão; Muhammad Darwish, fornecedor de cuidados médicos críticos em Madaya, onde tem chamado a atenção internacional para o drama da cidade síria sitiada; Dr. Denis Mukwege, fundador do Hospital Panzi e cirurgião ginecológico, que dedicou a vida a proteger as mulheres da República Democrática do Congo vítimas da violência sexual às mãos de militantes. O vencedor do Prêmio Aurora, em 2017, foi Tom Catena, um dos finalistas do galardão, em 2016. No dia 28 de maio, em cerimônia realizada no Complexo de Esportes e Concertos Karen Demirchyan, em Yerevan, o Dr. Catena recebeu a distinção que lhe foi conferida.

Independente do Egito desde 1956, o Sudão foi o maior país africano até 2011, altura em que, após a realização de um referendo, se registrou a separação relativamente ao Sudão do Sul. A história do país tem sido marcada por conflitos étnico-raciais, duas Guerras Civis, entre 1955-1972 e entre 1983-2005, e, também, por contendas internas em curso: aquela que tem lugar no Sul e a da região de Darfur. A ONG Transparência Internacional classificou, em 2016, o Sudão como o 6.º país mais corrupto do mundo[4].

No Sul do país, nas Montanhas Nuba, situadas no Estado do Kordofan do Sul, naquele que é, provavelmente, um dos conflitos mais esquecidos do planeta, estão se verificando crimes de lesa-humanidade talvez mais graves do que no Darfur. De acordo com denúncias da Agenzia Fides, “a guerra na região atingiu 1,2 milhões de civis. Destes, 300.000 foram obrigados a fugir e a produção agrícola caiu ao ponto de atender apenas 25% das necessidades da população”. Em Nuba, a situação é de tal modo grave que os “trabalhadores humanitários ocidentais foram obrigados a fugir e há relatos de que tropas governamentais e milícias árabes apoiadas pelo governo estão caçando e matando sistematicamente integrantes do grupo étnico Nuba, de cor negra”. É naquele território pleno de dificuldades e, até, hostil à presença estrangeira, que Tom Catena escolheu exercer sua atividade profissional.

Thomas – ou Tom – Catena nasceu em Amsterdam, Estado de Nova Iorque, há 53 anos. Ele obteve a graduação em Engenharia Mecânica, pela Brown University. Após a conclusão dos estudos, decidiu que a carreira médica lhe propiciaria a oportunidade de trabalhar como missionário. Tom frequentou a Escola de Medicina da Duke University, instituição onde concluiu a licenciatura em 1992. Seis anos mais tarde, o Dr. Catena trabalhou na Guiana durante um mês e, depois, em Honduras, em outra missão médica com a duração de um mês e meio. Tendo completado a residência médica em 1999, Tom Catena optou por dedicar-se ao voluntariado. Deste modo, ele trabalhou no Catholic Medical Mission Board, no Hospital Mutoma, situado na região rural do Quênia, por dois anos. Em seguida, exerceu a profissão no St. Mary’s Hospital, em Nairobi, ao longo de seis anos.

Desde 2008 ele serve, como missionário católico, no Mother of Mercy Catholic Hospital, nas Montanhas Nuba. Naquele Hospital, gerido pelos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, e dotado de 435 leitos, o Dr. Catena é o único médico que atende uma população com mais de meio milhão de pessoas, desafiando a ordem do presidente sudanês Omar Hassan al-Bashir, que proíbe as organizações internacionais de prestarem ajuda humanitária naquele território.

Catena trabalha dia e noite, aliviando as doenças, os ferimentos de guerra e as situações que derivam da fome. Pelos riscos e sacrifícios pessoais, o médico norte-americano aufere um salário mensal de USD $ 350 – cerca de R$ 1.000 – sem direito a qualquer plano de saúde e aposentadoria. Catena é inspirado, segundo suas próprias palavras, por sua fé católica: “Eu tenho tido benefícios desde o dia em que nasci”, afirmou. “Uma família amorosa. Uma grande educação. Então, eu vejo isso como uma obrigação, como cristão e como ser humano, para ajudar”. Por outro lado, para o Dr. Catena, o labor missionário que ele leva a cabo tem, como alicerce, a seguinte motivação: “a minha fé que me move. Sempre fui muito inspirado por São Francisco de Assis. Queria viver uma vida simples, dedicada a ajudar”.

Tom Catena realiza, anualmente, cerca de 1.000 cirurgias. As pessoas que trabalham com ele dizem que, durante meses e, talvez anos, ele não se ausentou de suas funções por um único dia. Entre aqueles a quem disponibiliza sua ciência e sua arte, Catena é muitíssimo respeitado. O tenente–coronel Aburass Albino Kuku, integrante da força militar rebelde, em Nuba, afirmou: “O povo das Montanhas Nuba jamais esquecerá o seu nome. […]. O povo reza para que ele nunca morra”. Por seu lado, Hussein Nalukuri Cuppi, um preeminente líder da comunidade muçulmana, foi mais longe, ao declarar: “Ele é Jesus Cristo […]. Jesus curava os doentes, fazia com que os cegos enxergassem e ajudava os coxos a andar – e é isto que o Dr. Tom faz cada dia”. De acordo com Ryan Boyette, um cidadão norte-americano que vive no Sudão desde 2003, Tom “é inestimável. Toda a gente olha para ele como a única pessoa que pode salvar suas vidas”.

A missão de Tom Catena, no extremo Sul do Sudão, constitui, simultaneamente, o alívio possível para aquelas populações esquecidas pela comunidade internacional e  um sinal de esperança para quantos, neste planeta, sentem o desespero por viverem em um mundo com valores à deriva. Por outro lado, ele dignifica, em seu cotidiano, aqueles que sentem, na pele, o descaso de políticos, levado às mais tristes consequências. Na verdade, segundo suas próprias palavras, para o Dr. Catena, “são coisas simples que me fazem resistir, como um velho que te diz: ‘doutor, por favor, não nos abandone’. Aí você recobra lentamente os sentidos e percebe que é a única esperança para essas pessoas que foram traumatizadas, derrubadas, oprimidas por séculos”.

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Imagem:

Tom Catena, a personalidade agraciada com o Prêmio Aurora, em 2017.

(Fonte):

https://auroraprize.com/en/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Levado a cabo pelo Governo do Império Otomano, formado pelos Jovens Turcos, o Massacre Armênio, que teve início em 24 de abril de 1915, prolongou-se até 1923, tendo causado entre 800.000 e 1.500.000 mortos.

[2] Ver:

 As instituições beneficiadas com o Prêmio Aurora, por Tom Catena, foram:

African Mission Healthcare Foundation [Fundação da Missão Africana para os Cuidados de Saúde] (AMHF), EUA; Catholic Medical Mission Board [Conselho da Missão Médica Católica] (CMMB), EUA; Aktion Canchanabury, Alemanha.

Cf. REDAÇÃO, “Tom Catena – 2017 Aurora Prize Laureate”, Yerevan, Armenpress – Armenian Press Agency, 28 de maio de 2017.

Disponível online:

https://armenpress.am/eng/news/892653/tom-catena-%E2%80%93-2017-aurora-prize-laureate.html

 [3] Ver:

Aurora Mardiganian (Çemişgezek, Mamuret-ül Aziz, Império Otomano, 12 de janeiro de 1901 – Los Angeles, Califórnia, EUA, 6 de fevereiro de 1994).

Ela pertencia a uma próspera família armênia que vivia em Çemişgezek, norte de Harput, na Turquia Otomana. Aurora Mardiganian testemunhou o assassinato de membros de sua família, tendo sido forçada a fugir ao longo de mais de 2.200 Km: foi raptada e vendida no mercado de escravos da Anatólia.

Mardiganian fugiu para Tbilisi (Geórgia) e, mais tarde, para São Petersburgo (Império da Rússia), de onde viajou para Oslo (Noruega). Finalmente, com a ajuda do Near East Relief, viajou para Nova Iorque (EUA).

Em 1918, Aurora Mardiganian publicou o livro Ravished Armenia. The Story of Aurora Mardiganian, The Christian Girl, Who Survived The Great Massacres (Armênia Violentada. A História de Aurora Mardiganian, a Menina Cristã, que Sobreviveu aos Grandes Massacres). O livro foi utilizado como base para o argumento de um filme, Auction of Souls (Leilão das Almas), que foi produzido em 1919, no qual Mardiganian se representava a ela própria.

[4] Ver:

REDAÇÃO, “Corruption is Threatening Economic Growth For All – Results: Table and Rankings”, Transparency International, Berlim, 2016.

Disponível online:

https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2016