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Síntese Histórica do Terrorismo Moderno – Estamos Vivendo Uma Nova Onda?

A multipolaridade e globalização do mundo atual tornaram a probabilidade de futuras guerras totais, envolvendo nações inteiras, quase nulas. Por outro lado, conflitos localizados, regionais, mas que podem extrapolar fronteiras internacionais e que envolvem forças estatais ou policiais estão disseminados em várias partes do mundo. Os motivos são diversos, desde questões étnicas, religiosas e até criminosas.

Homenagem às vitimas, após o sequestro em Beslan, Rússia, 2004. Total de 334 mortos, sendo 186 crianças.

Atualmente vemos um recrudescimento dos atos terroristas extremistas religiosos, após um período de calmaria, onde se sobressaiu o terror político. Os atos praticados, principalmente, pelo Estado Islâmico acendem novamente a questão: a que ponto chegará?

O terrorismo pode ser entendido como o uso da violência tal qual arma política, quer com o objetivo revolucionário ou de repressão, visando gerar sentimentos de pavor e atemorizar os adversários (Bandeira, 2009). No entanto, a definição não é simples nem consensual.

A primeira vez que a palavra “terrorismo” foi empregada, remonta aos relatos da Revolução Francesa quando a definição foi incluída no Dicionário da Real Academia Francesa em 1798, mas tinha conotação positiva, pois representava uma ação do estado contra os “criminosos” antagonistas ao governo que foram guilhotinados (Simioni, 2008: 27).

Quanto à natureza, o terrorismo pode ser “seletivo”, quando são escolhidos alvos específicos, procurando evitar atingir inocentes, para não atrair opinião pública contrária, ou “indiscriminado”, com o propósito de atingir o maior número de vítimas possíveis.

O Terrorismo, em sua concepção atual, tem origem no final do século XIX e foi classificado por David Rapoport (2004) em quatro fases, denominadas “ondas”. Sua tese afirma que essas ondas são temporais e sistemáticas. Cada “onda” tem seu modus operandi distinto, assim como suas motivações e seus objetivos. Interessante ressaltar que a motivação não passa de uma onda para outra e tem a duração média de uma geração.

A Primeira Onda do Terrorismo Moderno

A Primeira Onda se desenvolveu aproximadamente dos anos 1870 até o pós Primeira Guerra Mundial, por volta de 1920. É marcado pelo Anarquismo, surgido na Rússia, espalhando-se para a Europa Ocidental, América e Ásia. A Revolução Industrial promoveu condições de trabalho desfavoráveis, criando um ambiente propício para manifestações radicais. Conforme Woloszyn (2010: 20), o terrorismo anarquista foi marcado pelo assassinato de figuras políticas e das classes ricas que simbolizavam a manutenção dessa opressão econômica, tais como o presidente Carnot, da França, em 1894, da rainha Elisabeth, da Áustria, em 1896, do primeiro-ministro da Espanha, Antonio Canova, em 1897, do rei Humberto I da Itália, em 1900 e do presidente dos Estados Unidos da América, McKinley, em 1901. No entanto, nessa onda, ainda existiam certos valores a serem observados. Ainda eram reconhecidos que inocentes e pessoas não envolvidas no conflito deveriam ser preservadas.

A Segunda Onda do Terrorismo Moderno

A Segunda Onda se desenvolveu aproximadamente de 1922 até 1960. É marcada pelo período anti-colonial. Os grupos usavam o terrorismo objetivando a independência de antigas colônias, como exemplo, Argélia, Chipre e Irlanda, bem como várias possessões na África. Caracterizou-se pela ação contra os efetivos policiais e militares das forças colonizadoras.

Essa onda foi acentuada pelo fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, onde vários territórios coloniais ficaram com a expectativa de autodeterminação (Whittaker, 2005: 22). Como a independência não ocorreu, grupos nacionalistas emergiram e passaram a utilizar ações de terror para conseguirem seus objetivos de emancipação. Nesse período, associou-se a ideia dos “combatentes da liberdade”, como consequência da legitimidade política da causa, angariando a simpatia da comunidade internacional. Os alvos ainda eram bem definidos e direcionados aos membros dos governos colonizadores. No entanto, gradativamente, os ataques passaram a serem indiscriminados e com maior incidência de mortes de inocentes.

Nessa onda podemos citar, principalmente, o IRA (Exército Republicano Irlandês) na Irlanda, o ETA (Euskadi Ta Askatasuna ou Liberdade para Terra Basca) na Espanha e a OLP (Organização para Libertação da Palestina) (Simioni, 2008: 32).

 A Terceira Onda do Terrorismo Moderno

A Terceira Onda, que se estende de 1960 até 1979, pode ser entendida como a onda da “Guerra Fria” ou “Terrorismo de Esquerda”, motivada pelo mundo bipolar e pela luta do capitalismo com o comunismo. Foi alavancada com o crescimento dos grupos radicais de tendência política esquerdista. As formas de ação mais usadas nesse período foram os sequestros com exigências de pagamento de resgates, para financiar as atividades dos grupos; compras de equipamentos diversos e armamentos ou visando à libertação de companheiros presos, bem como atentados a bomba.

Os grupos mais atuantes do período foram a Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Faktion), mais conhecido como Baader-Meinhof na Alemanha, as Brigadas Vermelhas na Itália, o Sendero Luminoso no Peru e as FARC na Colômbia, entre outros (Duarte, 2014: 41-44).

Foi a onda que predominou no Brasil durante o Governo Militar (1964 – 1985), mais precisamente entre os anos de 1966 até 1973. Considerado o primeiro ato de terrorismo no Brasil, o atentado a bomba no aeroporto de Guararapes, em Recife, em 1966, deixou um saldo de 02 mortos e 14 feridos (Augusto, 2002: 182-183).

Um ponto relevante no terrorismo brasileiro é a publicação de 1969, Mini Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella, que se tornou livro de cabeceira dos grupos terroristas nacionais, como a ALN (Aliança Libertadora Nacional) e o VAR-Palmares; e internacionais, como os já citados IRA e ETA e o Baader-Meinhof, sendo um guia para diversas ações de terror que mataram milhares de pessoas ao redor do mundo, a maioria inocentes. O livro incentiva e mostra como planejar e executar sequestros, atentados, justiçamentos e assassinatos.

Outra característica dessa onda foi o treinamento de guerrilheiros de diversas nacionalidades, inclusive brasileiros, em campos de treinamento, principalmente em Cuba, China e Argélia.

A Quarta Onda do Terrorismo Moderno

A Quarta onda se inicia em 1979, coincidindo com o chamado “regime dos aiatolás” no Irã, onde se iniciou o fundamentalismo islâmico. Essa onda tem caráter religioso e extremista com larga utilização de artefatos explosivos, que podem ser carros-bomba ou homens-bomba, tendo aumentado a participação de mártires. Os mártires morrem pela causa acreditando nas recompensas futuras pelo seu ato em defesa de sua crença e de seus valores. Quanto à natureza, usam largamente o terrorismo indiscriminado.

A religião é utilizada para justificar atos violentos. A visão de mundo islâmica ortodoxa prevê a discriminação religiosa entre os crentes e os descrentes. O fundamentalismo é extremamente rígido no que concerne a diferenciar os crentes e os “outros”.

O terrorismo atual apresenta ataques com maior letalidade, sem comprometimento com a ética e a moral. Tem como característica a aleatoriedade de alvos, o emprego da violência indiscriminada em larga escala, bem como a mudança na organização terrorista, para a estrutura de células descentralizadas e independentes e que não interagem horizontalmente.

Preferem alvos civis pela vulnerabilidade, pois apresentam um menor risco para as ações.

As organizações terroristas preeminentes desta onda são o Hezbollah (Partido de Deus – Líbano), o Hamas (Movimento da Resistência Islâmica – Palestina), a Jihad Islâmica Palestina e a al-Qaeda (A Base – Afeganistão) e mais recente o Estado Islâmico (Iraque).

O Surgimento da  Quinta Onda no Terrorismo Atual

As ondas do terrorismo foram se extinguindo de maneira gradativa. O terrorismo anárquico não existe mais sepultando toda a primeira onda. As lutas pela libertação colonial já atingiram seus objetivos e dessa forma a segunda onda deixou de ter finalidade. Existem ainda poucos resquícios da terceira onda, em virtude do fim da Guerra Fria e pela consequente extinção da bipolaridade mundial. As ideologias políticas foram sendo suplantadas pelo poder econômico. No entanto, a quarta onda apresenta um crescente, em termos de potencial de letalidade e radicalização. Partindo da premissa de que a religião sempre esteve intimamente ligada às guerras ao longo da história humana, este fato é preocupante. O advento da radicalização e o incremento de novas formas de terrorismo, baratas e de grande letalidade, como o ciberterrorismo e o bioterrorismo podem nos conduzir a Quinta Onda, que seria a potencialização da Quarta Onda.

As forças de segurança devem atentar para que possam combater de maneira satisfatória. Qualquer ação executada por uma nação contra essas forças adversas é pesadamente apurada pela opinião pública, estando a instituição gerenciadora ao sabor dos ventos que ora podem ser a favor, ora contra, dependendo do resultado atingido na operação.

Ao que tudo indica, a nova multipolarização religiosa leva a um caminho sem volta, onde o destino será definido apenas a custa de novos banhos de sangue. Quando o inimigo não tem rosto, as ações conduzem a corpos sem identidade.

As contramedidas antiterror são de extrema complexidade e envolvem planejamento aliado a uma rede de informações, coordenados por gerenciamento de alto nível e com interligações imediatas de todos os setores. A previsão é de que os próximos dez anos serão cruciais neste embate e os índices de violência estarão entre os maiores de todos os tempos. Infelizmente.

Os povos que pesquisam e pontuam seu passado obtém melhores decisões para o futuro. As tecnologias mudam e avançam em velocidades vertiginosas, mas a essência para a solução dos problemas continua a mesma.

As ondas do terrorismo moderno apresentam características, modus operandi e objetivos distintos entre cada uma. As forças de segurança que souberem interpretar essas características conseguem criar melhores mecanismos para as respostas a estas ações. Terrorismo é um tipo de guerra que exige uma nova e constantemente mutável interpretação para o papel e para o emprego das forças de segurança pública do Estado.

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Imagem:

Homenagem às vitimas, após o sequestro em Beslan, Rússia, 2004. Total de 334 mortos, sendo 186 crianças.

(Fonte):

https://03varvara.files.wordpress.com/2012/09/00-in-honour-of-beslan-jfkpaint-2008.jpg

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 REFERÊNCIAS

AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2002.

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano. São Paulo: Civilização Brasileira, 2009.

DUARTE, João Paulo. Terrorismo, Caos, Controle e Segurança. São Paulo: Desatino, 2014.

RAPOPORT, David C. The Four Waves of Modern Terrorism. Washington: Georgetown University Press, 2004.

SIMIONI, Alexandre Arthur Cavalcanti. O Terrorismo Contemporâneo: Consequências para a Segurança e Defesa do Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ. 2008.

WHITTAKER, David J. Terrorismo, um Retrato. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2005.

WOLOSZYN, André Luis. Terrorismo Global. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2010.

 

This Post Has One Comment
  1. Li o artigo ” Sintese histórica do terrorismo moderno – estamos vivendo uma nova onda. ”
    Achei bem explicativo, muito bem escrito.

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