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Saudação a Um Anti-Patriota

Mesmo a findar o ano, António Guerreiro (A.G.) brindou-nos, nas páginas do jornal Público, com um Manifesto Anti-Patriótico (“O Patriotismo dos Outros”, 27.12.2017) que não podemos deixar de saudar pela sua coragem, por mais que dele discordemos por inteiro. Com efeito, o patriotismo, como o próprio A.G. bem assinala, tornou-se uma espécie de “vaca sagrada” da cidadania contemporânea politicamente correcta, que leva a que (quase) ninguém ouse hoje afirmar-se como anti-patriota (apenas, quanto muito, como anti-nacionalista, seguindo a mesma cartilha politicamente correcta).

Morte de Miguel de Vasconcelos (1 de dezembro de 1640).

Esse patriotismo da cidadania contemporânea politicamente correcta é, porém, um patriotismo de tal modo esvaziado que se tornou (quase) por inteiro inócuo. Ele é compatível com (quase) tudo, mesmo com posições objectivamente anti-patrióticas. Essa é, de resto, a lógica hegemónica do nosso discurso político-mediático: fazer, por exemplo, eloquentes proclamações de amor à língua portuguesa e depois aceitar (quando não se incentivam) práticas que, objectivamente, subalternizam a nossa língua. Contra a hipocrisia generalizada, é pois clarificador ver alguém afirmar-se contra o próprio princípio do patriotismo.

Saudando essa sua posição, gostaríamos, porém, de fazer uma objecção mais específica e de assumir a nossa própria posição, por inteiro contrário à de A.G., como veremos. Quanto à objecção mais específica: alega A.G., citando Reinhart Koselleck, que o patriotismo “nasceu no início do século XVIII como uma figura-guia do Iluminismo político e que no século XIX, na época do Romantismo, se tornou um princípio organizador da acção política”. Essa é, meu ver, uma visão demasiado estrita (para não dizer estreita) do patriotismo, apesar de reconhecermos que, no contexto europeu, foi na chamada “modernidade” que o patriotismo deu um salto qualitativo, desde logo por via da consagração das línguas nacionais, em parte pela fragmentação do latim medieval, no que diz respeito às línguas latinas.

Numa visão mais ampla e não estrita e estreitamente eurocêntrica, consideramos, ao invés, que o patriotismo é tão velho quanto a humanidade, melhor dito, quanto a história da humanização da humanidade. Com efeito, à medida que os seres humanos começaram a desenvolver uma linguagem e uma cultura, ou seja, à medida que transcenderam a sua condição meramente natural, eles foram-se agregando por via disso, formando assim comunidades histórico-linguístico-culturais. Eis a verdadeira génese do patriotismo, já presente, por exemplo, nas tribos africanas, cuja distinção não tem a ver apenas com factores étnicos, mas também, e nalguns casos sobretudo, com factores linguístico-culturais.

Chegados aqui, esclarecemos finalmente a nossa posição: defendemos um patriotismo lusófono e, cumulativamente, uma via trans-nacionalista (quer para Portugal, quer para os restantes países lusófonos). Por isso, defendemos o reforço gradual dos laços entre os países e regiões do espaço de língua portuguesa – no plano cultural, desde logo, mas também nos planos social, económico e político. Sem que isso implique, no caso de Portugal, a saída da União Europeia. Mas sem ilusões: o mil vezes anunciado patriotismo europeu, única base sólida para uma real união política, jamais existirá. No caso português, o único patriotismo trans-nacional que existe, ainda que de forma incipiente, é o patriotismo lusófono. E por isso nele devemos apostar. Supomos que A.G. despreze por inteiro esta posição, mas nós, pelas razões aduzidas, não podemos deixar de saudar a sua.

Agenda MIL: 20 de Janeiro, 15h30, na Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa, em Lisboa: Lançamento do Volume VIII das “Obras Completas de António Telmo” e de “António Telmo, Literatura e Iniciação”, de Risoleta C. Pinto Pedro – apresentar-se-á ainda o número 20 da revista NOVA ÁGUIA, onde foi publicado um escrito inédito de António Telmo. 22-24 de Janeiro, no Porto: Colóquio “A Obra e o Pensamento de António Braz Teixeira” – ver programa: coloquiobrazteixeira.blogspot.pt

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Imagem:

Morte de Miguel de Vasconcelos (1 de dezembro de 1640).

(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_de_Vasconcelos#/media/File:Antonio_Fernandez_-_Restaura%C3%A7%C3%A3o_de_Portugal_e_Morte_de_Miguel_Vasconcelos.jpg