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Repensar o Iberismo no Século XXI (II)

Com a derrocada do Império, Portugal apostou, como se sabe, na integração europeia – tendo ingressado, a par de Espanha, na então CEE: Comunidade Económica Europeia em 1986. Com essa integração comum, que entretanto se foi aprofundando, o horizonte iberista foi deixando, cada vez mais, de fazer sentido. Tanto quanto nos recordamos, José Saramago foi o último intelectual português a manifestar essa paixão, sendo que, no seu caso, a motivação terá sido especialmente (e excessivamente) pessoal: casou com uma cidadã espanhola; foi viver para Espanha; com alguma ironia, diríamos que a União Ibérica seria a forma de Saramago resolver o seu drama pessoal.

Teixeira de Pascoaes e Miguel de Unamuno (Caricatura de Álvaro Cebreiro).

Se, no final do século XX, o federalismo ibérico pareceu tornar-se um cenário completamente ultrapassado, ele pode agora ressurgir, já em pleno século XXI, com a cada vez mais evidente desagregação do Estado Espanhol. Durante muitos anos, a grande fissura foi o País Basco – mas a questão do terrorismo deslegitimou, nos planos nacional e internacional, a causa. A fissura catalã, que agora emerge de forma aparentemente irreversível, parece ser uma ameaça bem maior ao Estado Espanhol. Sendo que, se a Catalunha se tornar independente, o País Basco sê-lo-á também, agora que a questão do terrorismo foi eliminada de vez. E a série não terminará decerto aí – mesmo pondo de parte por agora o caso da Galiza, um caso especialmente singular, pela sua ligação histórica a Portugal e, por extensão, a todo o restante espaço lusófono.

Face a este cenário de eminente desagregação do Estado Espanhol, cabe perguntar, desde logo, se ele é desejável para Portugal, ainda que a pergunta seja em grande parte ociosa. Mesmo que concluíssemos que o ideal para Portugal seria que o Estado Espanhol se mantivesse uno, não temos o direito de sacrificar o povo catalão e os demais povos ibéricos que aspirem à auto-determinação aos nossos interesses nacionais. Isso não seria, de todo, ético, tal como, por exemplo, não era de todo ética a posição daqueles que consideravam que a União Soviética deveria ter-se mantido apenas porque isso seria benéfico para a Europa Ocidental – nos planos social e político. Mesmo que isso fosse verdade, que direito tínhamos nós de sacrificar os vários povos da antiga União Soviética aos nossos interesses domésticos? Nenhum, a nosso ver.

Regressando à Ibéria e retomando esse cenário de desagregação do Estado Espanhol, acrescentamos apenas que ele não seria, previsivelmente, um fim em si mesmo. Recuperando essa lógica pendular da história a que já aludimos, previsivelmente o que aconteceria, no limite-limiar desse cenário, seria uma re-ligação das várias partes ibéricas, necessariamente agora em bases diferentes, já sem a hegemonia político-cultural de Castela. A este respeito, não podemos deixar de convocar Agostinho da Silva, dado que, em vários textos seus, ele prefigurou, em grande parte, esse cenário. A uma escala, de resto, não já estritamente ibérica. Tendo prefigurando igualmente, num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”, ele não deixou de equacionar igualmente uma (re-) aproximação, à escala global, desse bloco geo-cultural e linguístico lusófono com o bloco geo-cultural e linguístico de matriz castelhana.

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Imagem:

Teixeira de Pascoaes e Miguel de Unamuno (Caricatura de Álvaro Cebreiro).

Fonte:

Arquivo pessoal de J. M. de Barros Dias.

 

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