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A Rebelião das Massas, Quase Um Século Depois (II)

Eis, para Ortega, como nos diz logo a abrir a primeira parte da obra, “o mais importante facto na vida pública na hora presente” (p. 39): “A multidão, de repente, tornou-se visível, instalou-se nos primeiros lugares da plateia da sociedade. Dantes, se existia, passava despercebida, ocupava o fundo do cenário social; agora passou para a boca de cena, é ela a personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro./ O conceito de multidão é quantitativo e visual. Traduzamo-lo, sem o alterarmos, à terminologia sociológica. Encontramos então a ideia de massa social. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois factores: minorias e massas. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas” (p. 41).

José Ortega y Gasset (1883 – 1955).

Sendo que, logo de seguida, nos faz esta ressalva importante: “Não se entenda, pois, por massas só, nem principalmente, ‘as massas operárias’. Massas é o ‘homem médio”. Deste modo se converte o que era meramente quantidade – a multidão – numa determinação qualitativa: é a qualidade comum, é o mostrengo social, é o homem na medida em que não se diferencia de outros homens, mas que repete em si um tipo genérico”. Acrescentando ainda, umas páginas mais à frente: “A divisão da sociedade em massas e minorias excelente não é, portanto, uma divisão em classes sociais, mas em classes de homens, e não pode coincidir com a hierarquização em classes superiores e inferiores (…), no seio de cada classe social, há rigorosamente massa e minoria autêntica” (p. 43). E conclui, desconstruindo assim, à partida, qualquer eventual acusação de classismo social: “não é raro encontrar hoje entre os operários, que antes podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos ‘massa”, almas egregiamente disciplinadas”.

Para Ortega, como faz questão de frisar a abrir o segundo capítulo da obra, essa “rebelião das massas” constitui “uma novidade absoluta na história da nossa civilização” (p. 45), sendo que a grande razão disso foi “a deserção das minorias dirigentes” – para Ortega, é esse o “reverso da rebelião das massas” (p. 65). Ora, ainda segundo Ortega, e desconstruindo aqui uma ideia feita (e sobretudo falsa) sobre o seu próprio pensamento, essa deserção não foi uma mera “circunstância”, pois que, como expressamente defende: “É falso, pois, dizer que na vida ‘decidem as circunstâncias’. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema sempre novo ante o qual nos temos que decidir. Mas é o nosso carácter que decide” (p. 66).

Para o CONGRESSO INTERNACIONAL “PRESENÇA DE ORTEGA Y GASSET EM PORTUGAL E NO BRASIL” (7-9 de Novembro de 2017, no Instituto Cervantes, em Lisboa).

Ver Programa: http://iflb.webnode.com/

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Imagem:

José Ortega y Gasset (1883 – 1955).

(Fonte):

http://www.spainisculture.com/export/sites/cultura/multimedia/galerias/autores/ortega_gasset_b_efespfive399832-135071.jpg_1306973099.jpg

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