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A Rebelião das Massas, Quase Um Século Depois (I)

Tendo tido a sua primeira de muitas edições em 1930, a obra A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, mantém uma actualidade renovada no século XXI, em particular com o advento das redes sociais, que tanto têm redefinido, para o bem para o mal – a nosso ver, mais para o mal do que para o bem – a forma como habitamos o mundo e como convivemos uns com os outros.

José Ortega y Gasset (1883 – 1955).

Para o atestar, iremos aqui transcrever algumas das suas passagens mais significativas (a partir da seguinte edição: A Rebelião das Massas, trad. Artur Guerra, Lisboa, Relógio d’Água, 1989), em particular as referentes ao “tipo humano” que Ortega considerou ser aquele que no seu tempo passou a ser “o dominante”, “o homem-massa”, qual “homem hermético, que não está verdadeiramente aberto a nenhuma instância superior” (p. 27), esse “homem médio que hoje se vai apoderando de tudo” (p. 35): “Este homem-massa é o homem previamente esvaziado da sua própria história [que, como nos diz noutra passagem, é, tão-só, “a realidade do homem” (p. 20)], sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas ‘internacionais’. Mais do que um homem, é apenas uma carapaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um ‘dentro’, de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí que esteja sempre na disponibilidade de fingir ser qualquer coisa. Só tem apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações (….), como não sente que existe sobre o Planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais” (p. 16); “Diante de uma só pessoa podemos saber se ela é massa ou não. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo – como bem ou como mal – por razões especiais, mas que se sente ‘como toda a gente’ e, no entanto, não fica angustiado, sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos outros” (p. 42); “O que é característico deste momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito à vulgaridade e impõe-no onde quer que seja (…). A massa arrasa tudo o que é diferente, egrégio, individual, qualificado e selecto” (p. 45); “O homem-massa é o homem cuja vida carece de projecto e anda à deriva. Por isso não constrói nada (…). É este tipo de homem que no nosso tempo decide” (p. 67).

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Imagem:

José Ortega y Gasset (1883 – 1955).

(Fonte):

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  1. Eu li a A Rebelião das Massas; e dentre as muitas coisas intrigantes da obra de Ortega Y Gasset, a que mais me tocou foi esta: “Do mesmo modo, sem mais reflexão, [costumamos] maldizer a escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor”.
    Os próprios africanos negros, ao vencerem as guerras tribais, passaram a vender para os europeus os negros escravizados que antes estavam condenados ao genocídio.

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