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A Preocupação do Papa Francisco Relativamente à Onda de Nacionalismos na Europa

De acordo com declarações prestadas pelo Secretário de Estado do Vaticano, o  cardeal Pietro Parolin, o papa Francisco está preocupado com “o retorno dos nacionalismos” e as “pressões desagregadoras” que, atualmente, assolam a Europa. Para a Santa Sé, “o resultado do referendo britânico do ano passado e as pressões desagregadoras que o continente atravessa levaram o papa a considerar a urgência de favorecer uma reflexão ainda mais ampla e cuidadosa sobre toda a Europa e sobre a direção que ela – inclusive além das fronteiras da União Europeia – está seguindo”.

Papa Francisco.

Falando na Conferência “(Re)Pensando a Europa: Uma Contribuição Cristã Para o Futuro do Projeto Europeu”, organizada pela Santa Sé e pela Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia, entre 27 e 29 de outubro, o sumo pontífice propôs, no dia 28, o diálogo. Para Francisco, “os gritos das reivindicações substituem a voz do diálogo. Desde vários lugares tem-se a sensação de que o bem comum já não é o objetivo primário a perseguir esse desinteresse percebem-no muitos cidadãos”. Tal como o papa sublinhou, naquela ocasião, “encontram assim terreno fértil em muitos países as formações extremistas e populistas que fazem o protesto no coração da sua mensagem política, sem oferecer um projeto político como alternativa construtiva”. Segundo afirmou o papa Francisco, “o diálogo foi substituído por uma contraposição estéril, que pode também por em perigo a convivência civil, ou por uma hegemonia do poder político que enjaule e impeça uma verdadeira vida democrática. Num caso destroem-se pontes e no outro constroem-se muros. E hoje a Europa conhece ambos”.

O papa Francisco nunca referiu o movimento separatista catalão ou, sequer, o voto britânico para deixar a União Europeia, mas referiu, com insistência, a solidariedade e o sacrifício partilhado. “Trabalhar por uma comunidade inclusiva significa edificar um espaço de solidariedade. Ser comunidade implica, de fato, que nos apoiemos mutuamente e, por tanto, que não podem ser alguns que levem os pesos e realizem sacrifícios extraordinários, enquanto outros continuam a ser o líder defendendo posições privilegiadas. Uma União Europeia que, ao afrontar a sua crise, não redescubra o sentido de ser uma comunidade única que se segura e se ajuda – e não um conjunto de pequenos grupos de interesse – perderia não somente um dos desafios mais importantes da sua história, mas também uma das maiores oportunidades para o seu futuro”.

Atualmente, referiu o vigário de Cristo, “toda a Europa, desde o Atlântico até os Urais, desde o Polo Norte até o Mar Mediterrâneo, não pode perder a oportunidade de ser, ante tudo, um lugar de diálogo, sincero e construtivo ao mesmo tempo, em que todos os protagonistas têm a mesma dignidade. Estamos chamados a construir uma Europa em que possamos encontrarrnos e confrontarnos a todos os níveis, assim como era num certo sentido na antiga ágora. Ela era, de fato, a praça da pólis”. Se a Europa, que para Emmanuel Lévinas, o filósofo da alteridade, era “la Bible et les grecs”[1], atualmente ela é, em boa medida, um espaço geográfico e um conjunto de mentalidades à deriva. Outrora, lembrou o papa, o Velho Mundo era “não somente um espaço de intercâmbio econômico, mas também um coração nevrálgico da política. Sede em que se elaboravam as leis para o bem-estar de todos; lugar até onde se assomava o templo, de tal modo que à dimensão horizontal da vida quotidiana não lhe faltava nunca o alento transcendente que olha além do efêmero, do passageiro, do provisório”.

Não tem esperança quem não tem memória: a traditio é a base da revolutio. Só sabendo quem fomos poderemos saber quem iremos ser. Isto é válido para cada um de nós. Isto é fundamental para a família a que pertencemos, como o é para o país que nos viu nascer. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para caminhar o que falta. Podemos, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica, mas não podemos negá-la, uma vez que ela é transmitida de geração para geração. Contudo, desde a década de 1960, considerou o papa, “está a ter lugar um conflito geracional sem precedentes. Ao entregar às novas gerações os ideais que fizeram grande a Europa, pode dizer-se hiperbolicamente que se preferiu a traição à tradição. À rejeição do que chegava dos pais, seguiu-se, no tempo, uma dramática esterilidade. Não somente porque em Europa sem têm poucos filhos – nosso Inverno demográfico –, e demasiados são os que foram privados do direito a nascer, mas também porque nos fomos encontrado incapazes de entregar aos jovens os instrumentos materiais e culturais para afrontar o futuro. A Europa vive uma espécie de déficit de memória. Voltar a ser comunidade solidária significa redescobrir o valor do próprio passado, para enriquecer o próprio presente e entregar à posteridade um futuro de esperança”.

Mais recentemente, em 13 de novembro, a agência de notícias InfoVaticana deu a conhecer uma petição aos bispos catalães. O documento, que pede aos prelados que “falem menos de política e mais de Cristo”, solicita que os leitores assinem “para pedir aos bispos da Catalunha que se abstenham de apoiar posições independentistas fomentando a divisão entre espanhóis, esquecendo que se lhes encomendou serem pastores de todos os fiéis”. Por outro lado,  assinala a petição, “Xavier Novell, bispo de Solsona, afirmou que a sua posição se baseia na Doutrina Social da Igreja, contradizendo assim o papa Francisco, que opinou exatamente o contrário em relação ao conflito catalão. A semana passada o mesmo bispo aderiu à greve geral, encerrando o Museu Diocesano e a própria Cúria”.

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Imagem:

Papa Francisco.

(Fonte):

http://static.euronews.com/articles/361477/684x384_361477.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Cf. EMMANUEL LÉVINAS, “La Bible et les Grecs”, in À L’heure des Nations, Paris, Les Éditions de Minuit, 1988, pp. 155-157.

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