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A Participação Internacional na Intentona Comunista de 1935

A intentona, ou revolta, ou insurreição, comunista de 1935 foi um levante armado, ocorrido em novembro de 1935, contra o Governo de Getúlio Vargas e perpetrado pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), sob orientação do Komintern[1] da URSS. Foi desencadeado de forma traiçoeira em Natal, seguido de Recife e do Rio de Janeiro, dentro de quartéis do Exército.

Monumento aos Soldados Mortos na Intentona Comunista de 1935, Urca, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Pelo menos quatro países participaram ativamente das ações que envolveram a Intentona: Brasil, União Soviética, Inglaterra e Uruguai. De forma secundária, ainda tivemos as participações individuais de alemães e argentinos.

As origens do levante remetem à diretriz russa de expansão do comunismo, da Internacional Comunista, instituída em 1919 e a consequente fundação do PCB em 1922.  As ações diretas começaram com a conversão de Luís Carlos Prestes ao comunismo, após sua ida para a URSS em 1931. Foi aceito no Partido em 1934. No Brasil, a Aliança Nacional Libertadora (ANL) ficou responsável por capitalizar a figura de Prestes, a partir desse mesmo ano. Foi criado um secretariado Latino-Americano em Montevidéu, no Uruguai, com a finalidade de repassar orientações e apoio financeiro, que vinha diretamente de Moscou[2].

Em março de 1934 desembarcam no Brasil os primeiros agentes do Komintern. Em abril de 1935, Prestes chega clandestinamente em Santa Catarina, acompanhado da agente de espionagem militar Olga Benário[3], que era a responsável pela segurança de Prestes na viagem, bem como para manter o disfarce em viagem, sob os nomes falsos de Antônio e Maria Vilar, um casal português.

Desde a chegada ao Brasil, o Governo Vargas sabia dos passos de Prestes por intermédio do agente do Serviço Secreto Britânico (MI6) Johnny de Graaf. Ele era alemão de origem, estava infiltrado no Komintern sob o nome de Franz Gruber, e tinha a função de treinamento militar e sabotagem aos integrantes do movimento cooptados no meio civil e o operariado no Brasil. Repassava as informações aos ingleses e recebia ordens diretas de Londres sobre quais informações ele repassaria aos agentes de segurança no Brasil e aos integrantes de um grupo especial da DESPS (Delegacia Especial de Segurança Pública e Social), a polícia comandada diretamente por Filinto Muller[4]. O Governo inglês também repassava informações diretamente ao Governo do Brasil. Vargas sabia da preparação do levante e o deixou prosseguir, visando utilizá-lo para mudanças políticas no futuro.

A ANL empreendeu poderosa campanha em prol do comunismo, culminando por divulgar um manifesto de Prestes, em 5 de julho, que termina da seguinte forma: “abaixo o governo odioso de Vargas! Abaixo o fascismo! Por um governo popular revolucionário! Todo poder à ANL!.

Como represália do Governo, em 13 de julho a ANL é fechada, sua sede é invadida e os documentos são apreendidos. Sem acesso ao poder de forma legal, se aceleram os procedimentos para o levante armado. Vargas implementou a Lei de Segurança Nacional, preparada desde 1934.

Vargas, amparado pelas informações recebidas dos ingleses, estudou as perspectivas do levante, sabia que este não teria chance de sucesso e analisou o que seria positivo para o seu Governo. Um levante armado fracassado era tudo que ele queria para apertar mais ainda a lei de Segurança Nacional e, desse modo, mudar a Constituição de 1934, que não permitia sua reeleição nas eleições marcadas para 1938.

Marcado para ser desencadeado em 27 de novembro, o levante estourou em Natal, no quartel do 21.º Batalhão de Caçadores (21.º BC) em 23 de novembro, quatro dias antes do previsto. Os revoltosos dominaram o quartel, distribuíram armamentos a civis, atacaram pontos chaves da cidade e o quartel da PM, onde existia uma resistência de 19 horas até à rendição das forças legais. É instalado um comitê popular revolucionário, o primeiro e único Governo comunista no Brasil. Ao longo dos quatro dias, houve saques, depredações, invasão de casas, estupros e assassinatos. A reação veio de tropas do 20.º BC de Alagoas e da PM da Paraíba. O saldo foi de mais de 20 revolucionários e dois legalistas mortos.

Em Pernambuco, o levante foi deflagrado em 24 de novembro, em Olinda, com o ataque à cadeia pública, chegando em Recife no Quartel General da 7.ª Região Militar e no 29.º Batalhão de Caçadores (29.º BC). As principais autoridades estavam fora do Estado: o governador, o comandante da Região Militar e o comandante da PM. A resistência foi efetuada pela PM e pela Guarda Civil. Após a chegada das tropas do Exército de Maceió e João Pessoa, o quartel do 29.º BC foi bombardeado. Os revoltosos fugiram para o interior do Estado, criando uma escalada de violências. No bombardeio o saldo de mortos foi em torno de 100 revoltosos. Na fuga para o interior, mais de uma centena de mortos entre a população e revoltosos. Cinco militares e policiais legalistas pereceram.

Na então capital federal, o Rio de Janeiro, o movimento foi desencadeado na madrugada do dia 27 de novembro, no 3.º Regimento de Infantaria (3.º RI) na Praia Vermelha e na Escola de Aviação Militar e no 1.º Regimento de Aviação (1.º RAv), no Campo dos Afonsos. No 3.º RI, a reação interna durou a noite toda em um núcleo legalista no Pavilhão de Comando. A reação externa foi do Batalhão de Guardas e do 1.º Grupo de Obuses, obtendo a rendição dos revoltosos às  13H00. Os líderes revoltosos, capitães Agildo Barata[5], Álvaro Francisco de Sousa e José Leite Brasil perpetraram atos de covardia ao assassinarem companheiros desarmados. Ainda, chamou a atenção a atitude de zombaria dos revoltosos na hora em que se renderam e saíram do prédio em ruínas do 3.º RI.

Na Escola de Aviação Militar, a reação foi comandada pelo coronel Eduardo Gomes que, mesmo ferido, junto a alguns militares leais, resistiu aos ataques durante a madrugada. Recebeu o apoio de tropas do Regimento Andrade Neves e do Grupamento Escola de Artilharia. Também ocorreram assassinatos contra militares desarmados ou iludidos, pois achavam que estavam em presença de companheiros, cometidos pelos líderes revoltosos capitão Agliberto de Azevedo e tenente Ivan Ramos Ribeiro.

No Rio de Janeiro o saldo de mortos foi de 28 legalistas. O Governo Vargas não divulgou o número de revoltosos mortos. Como consequência, em dezembro de 1935, a Câmara arrocha a lei de Segurança Nacional, sob o pretexto da ameaça armada. Vargas, muito bem informado sobre o andamento do levante, graças à integração com o Serviço Secreto Britânico, concorreu para que esse fosse deflagrado e, dessa forma, pôde manipular as ações políticas futuras ao seu proveito. Culminou, assim, com a implantação do Estado Novo em 1937.

Prestes e Olga Benário foram presos em 1936. Prestes cumpriu pena até 1945. Olga foi deportada para a Alemanha nazista, onde morreu em abril de 1942, no campo de concentração de Bernburg[6]. A filha do casal, Anita Leocádia, nascida na prisão, foi entregue à avó paterna.

As ações covardes dos revoltosos e as mortes de militares por pessoas que, até o dia anterior, eram companheiros de caserna, arraigaram o repúdio ao comunismo no Exército. Favoreceu a coesão da classe militar, dividida desde o movimento tenentista da década de 1920. Foi uma pequena revolta, que recebeu a alcunha de intentona (intento louco), mas com consequências gigantescas. Envolveu vários países e foi o primeiro choque, no Brasil, das ideologias que seriam protagonistas principais na Guerra Fria.

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Imagem:

 Monumento aos Soldados Mortos na Intentona Comunista de 1935, Urca, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

(Fonte):

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Intentona_Comunista#/media/File:Monumento_intentona_comunista_1935.jpg

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Fontes consultadas:

 [1] Ver:

O Komintern (ou Comintern do alemão Kommunistische Internationale) foi o comitê executivo da Internacional Comunista, fundada por Lênin em 1919. Ele tinha a finalidade de disseminar o Movimento Comunista Internacional pelo mundo. Buscava a liderança de Partidos de massa. Foi dissolvido em 1943.

[2] Ver:

Os documentos do Komintern, liberados para consulta a partir de 1991 em Moscou, apontam o envio de 27.341,00 Dólares para o Brasil, em 1935. Após a Intentona, o governo Uruguaio rompe relações com a URSS.

[3] Ver:

Olga Benário, alemã de nascimento, era agente secreta militar russa, tendo se formado na Academia de Moscou. Era casada com o russo B. P. Nikitin quando partiu para o Brasil em missão de acompanhamento de Prestes, tornando-se sua amante. Foi deportada para a Alemanha nazista, onde esteve presa no campo de concentração de Ravensbruck e morreu em 1942, no campo de concentração de Bernburg. Seu nome estava na lista de traidores para o grande expurgo promovido por Stálin. Se ela fosse deportada para a Rússia, provavelmente seria presa e teria sido executada em 1938.

[4] Ver:

Filinto Muller (1900-1973) foi o chefe da Polícia Política do Governo Vargas de 1933 a 1942.

[5] Ver:

O capitão Agildo Barata, conhecido por seu posicionamento comunista, estava servido no Rio Grande do Sul, onde foi punido com prisão disciplinar. Foi transferido, para cumprir sua prisão, exatamente para o 3.º RI. Esse fato denota o interesse de Vargas em que a insurreição fosse realmente deflagrada.

[6] Ver:

O nome de Olga Benário, bem como quase a totalidade dos integrantes do Komintern, estava na lista de traidores para o grande expurgo promovido por Stálin. Se ela fosse deportada para a Rússia, provavelmente seria presa e executada em 1938. A criação da lenda em torno de seu nome foi impulsionada pelo Governo comunista da antiga Alemanha Oriental.

Referências bibliográficas

AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Rio de Janeiro: Bibliex, 2002.

CARVALHO, Ferdinando de. Lembrai-vos de 35!. Rio de Janeiro: Bibliex, 1981.

CONCEIÇÃO FILHO, José Borges. Levante Comunista de 1935 e as Representações sobre Luiz Gonzaga de Souza. Monografia. Natal: UFRN, 2012.

FAUSTO, Boris. História da Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand, 2008.

FILHO, Murilo Melo. Testemunho Político. São Paulo: Elevação, 1999.

McCANN, Frank. Soldados da Pátria – História do Exército Brasileiro 1889-1937. Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Bibliex, 2009.

PAULA, Luis Carneiro de (Org). História Militar Brasileira. Florianópolis: Unisul, 2011.

ROSE, R. S. & SCOTT, Gordon. Johnny, A Vida do Espião que Delatou a Rebelião Comunista de 1935. Rio de Janeiro: Record, 2010.

SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio à Castelo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

WAACK, William. Camaradas: Nos Arquivos de Moscou – A História Secreta da Revolução Brasileira de 1935. São Paulo: Companhia das Letras / Bibliex, 1993.