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Os Protestos de Jovens Iranianos Contra o Regime dos Aiatolás

Na última quinta-feira do ano de 2017 registrou-se, no Irã, o início dos maiores protestos populares desde 2009. Em claro desafio ao Governo, os cidadãos iranianos saíram às ruas para expressarem os descontentamentos contra a alta dos preços de produtos alimentares e a corrupção. Porém, as reivindicações evoluíram para palavras de ordem exigindo a saída do presidente Hassan Rohani e o fim do regime dos aiatolás, a morte do líder supremo e o retorno da monarquia.

Manifestações contra o Governo em várias cidades iranianas, em 31 de dezembro de 2017.

As dificuldades econômicas dos iranianos têm se acentuado ao longo dos anos e a perspectiva de melhorias após o levantamento das sanções internacionais impostas à República Islâmica, em decorrência do programa nuclear, não surtiu efeito no cotidiano da população. De acordo com informações, aquilo que serviu de estopim para o início das manifestações foi a alta de 40% no preço dos ovos e das aves. O Governo justificou este aumento devido ao temor de uma possível gripe aviária. No entanto, os dados indicam que a questão vai mais além da explicação dada pelas autoridades persas. De acordo com uma análise divulgada pela BBC é crescente o descontentamento entre os iranianos que, nos últimos dez anos, ficaram 15% mais pobres e o índice da inflação atingiu 10% ao ano. Isto apesar de o país ter registrado, desde 2015, avanço econômico, mas que não tem refletido no cotidiano das pessoas. A insatisfação que parece tomar conta de uma parcela significativa da sociedade é a marca dos eventos do final de 2017 e início de 2018. Segundo consta, não se sabe se há alguma liderança por trás dos protestos, ou não, pois os antigos oposicionistas ou foram silenciados, ou estão no exílio. Neste primeiro momento, os manifestantes são nomeadamente homens jovens.

É desconhecido o desfecho dessas contestações iniciadas pelos jovens mas, a médio e a longo prazo, elas poderão surtir efeitos e abalar as estruturas do Governo. As listas de demandas por parte dos descontentes têm sido atualizadas desde que os protestos começaram na cidade de Mashhad, a segunda mais populosa do país, e na medida em que se espalhou pelos grandes centros urbanos, inclusive nos redutos do regime. Neste período de tempo e em diferentes cidades em que têm ocorrido os protestos é possível verificar que tem se mantido a unidade na pauta de reivindicações. Isto demonstra uma certa coesão de objetivos por parte dos manifestantes, o que, de certo modo não é tranquilizador para o regime. Embora tenham ocorrido manifestações pró-Governo, estas não foram suficientemente fortes para aniquilar as primeiras que conscientemente têm tocado em pontos fundamentais que vão desde a política doméstica à política externa. O envolvimento do Irã em vários conflitos, principalmente, na Síria e no Iêmen, e o suposto apoio a grupos insurgentes, como o Hezbollah e o Hamas, implica em custos altíssimos e desvio de prioridades sendo, provavelmente, um dos motivos de que, apesar do país ter tido crescimento econômico positivo, a população está sendo confrontada com o empobrecimento progressivo, e muitos já perceberam isto. Em Mashhad, a palavra de ordem foi a seguinte: “Nem Gaza, nem Líbano, minha vida pelo Irã”.

No tocante aos acontecimentos recentes, o Governo iraniano tem responsabilizado uma presumida força antirrevolucionária e Governos estrangeiros por insuflar os protestos. Para o presidente Hassan Ruhani, o Irã é uma nação livre e o povo tem o direito de protestar, pois acredita “que o Governo e o país pertencem ao povo e as pessoas devem expressar exatamente o que querem”. Entretanto, a repressão não tardou a acontecer. A Guarda Revolucionária Islâmica, a responsável pela defesa da República Islâmica, já alertou que, em caso de continuidade dos protestos, responderá com “punho de ferro”. Até o segundo dia de 2018, já havia o registro de quatorze mortos. Logo após a confirmação de que duas pessoas haviam entrado em óbito, as autoridades iranianas atribuíram as mortes em consequência da atuação de grupos radicais sunitas e de Serviços de Inteligência estrangeiros. Na sequência dos acontecimentos, um porta-voz  do Governo afirmou “que desconhece a causa exata dessas mortes, mas alegou que na cidade muitos guardam rifles de caça em suas casas”. A falta de liberdade de imprensa, no Irã, tem afetado a apuração dos fatos pelos profissionais da imprensa, de modo que acabam dependendo, inclusive, das redes sociais para obter informações. Os aplicativos Telegram e o Instragram já deixaram de funcionar nos dispositivos móveis e, conforme a explicação do Governo, esta não será uma medida aplicada permanentemente, mas temporária a fim de assegurar a paz. Neste contexto, o aumento da vigilância e de maior cerceamento da liberdade somadas às insatisfações de várias naturezas na população, poderá inflamar ainda mais os ânimos, principalmente, na juventude que desconhece na prática o significado de ser livre. Recentemente, 230 jovens foram presos porque consumiram bebidas alcóolicas. A transgressão que eles cometeram, aos olhos do regime foi digna de condenações que variam entre prisões, pagamento de multas e chicotadas. A falta de autonomia e a negação ao direito de decidir pela própria vida não conseguiram neutralizar a totalidade da sociedade iraniana, o que oferece preocupação e o risco de retrocessos nos objetivos de um regime com pretensões hegemônicas no Oriente Médio. Consequentemente, há tendência de elevação da violência.

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Imagem:

Manifestações contra o Governo em várias cidades iranianas, em 31 de dezembro de 2017.

(Fonte):

https://conteudo.imguol.com.br/c/noticias/c2/2017/12/31/31dez2017—protestos-no-ira-1514737057139_615x300.jpg

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