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A Crise Diplomática do Catar

O Catar é um país economicamente próspero, localizado no Golfo da Arábia, ou Golfo Pérsico, com uma área de, aproximadamente, 11.437 km2 e 2,7 milhões de habitantes, dos quais 90% são estrangeiros. Neste momento, o Governo catariano está a enfrentar uma séria crise diplomática que envolve a Arábia Saudita, o Egito, o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos, o Iêmen, o Governo oficial da Líbia e as Ilhas Maldivas, países que impuseram um bloqueio terrestre, aéreo e marítimo, que ameaça esta monarquia de isolamento. O episódio despontou na sequência da visita de Donald Trump, presidente dos EUA, à Arábia Saudita, entre os dias 20 e 21 de maio de 2017. Neste encontro foram tratados diversos assuntos, tais como as questões de defesa e de segurança, a venda de armas e, também, o compromisso dos países árabes e islâmicos em combater o terrorismo. Na ocasião, Trump limitou-se a criticar as atividades do Irã, do Hamas e do Hezbollah, escusando-se a fazer comentários sobre os wahabistas, que são uma das vertentes mais rígidas e mais conservadoras do islamismo, seguida pela Arábia Saudita.

Embarcações tradicionais (dhows) navegam na Baía Ocidental de Doha, capital do Catar.

Em 5 de junho, a petromonarquia saudita e os seus aliados romperam as relações diplomáticas com o Catar sob a alegação de que o país oferece abrigo e financia o terrorismo. O estopim para a crise foi a publicação de uma matéria jornalística, no site da estatal Qatar News Agency, em 24 de maio, na qual o emir Tamim bin Hamad al-Thani havia declarado que “não há razão para a hostilidade dos árabes ao Irã” e, ainda, demonstrava apoio à Irmandade Muçulmana, ressaltando as boas relações com Israel. No entanto, o Governo do Catar nega tais acusações e afirma que o site da Qatar News Agency foi alvo de hackers. Segundo o jornal The Guardian, o FBI confirmou que o site foi hackeado por russos, mas não acredita que a ação tenha sido executada sob as ordens do Governo de Moscou, o qual contesta qualquer tentativa de ligação com o ocorrido. Apesar de Doha rebater os possíveis apoios a grupos jihadistas, as circunstâncias atuais são preocupantes na medida em que as consequências do bloqueio econômico, encabeçado pelos sauditas, podem comprometer a saúde da economia catariana, dependente do petróleo e da importação de, aproximadamente, 90% dos alimentos que o país consome.

Ante o risco do desabastecimento de produtos alimentares, o Catar recorreu ao Irã, inimigo declarado da Arábia Saudita. Os iranianos já enviaram quatro aviões cargueiros de alimentos e pretendem fornecer, diariamente, cem toneladas de vegetais e de frutas. A Turquia também já entrou nas negociações oferecendo os seus serviços a Doha. Porém, as medidas tomadas até o momento não serviram para dissipar os riscos, a longo prazo, de aquele país ter de enfrentar problemas que afetarão a sua própria estrutura de Estado pujante, pois as empresas nacionais e estrangeiras estão expostas às consequências do bloqueio imposto pelos vizinhos árabes. No dia em que a Arábia Saudita anunciou as medidas adotadas contra o Catar, a Bolsa local recuou  8% e o preço do petróleo teve um aumento de 1.5%. Neste momento, as empresas mais afetadas são aquelas relacionadas com o futebol e a Companhia Aérea do Catar (Qatar Airways). Sobre esta última recaem as maiores preocupações, uma vez que as rotas da Qatar Airways tiveram que ser alteradas, os percursos e o tempo de voo ficaram mais longos e mais duradouros, o que elevou os preços das passagens aéreas, situação que está deixando de ser apelativa para os viajantes. Somado a esta problemática, cabe salientar que, se o Egito e outros aliados retirarem os seus cidadãos residentes naquela monarquia do Golfo Pérsico, este fato acarretará a falta de mão-de-obra em vários setores da economia, inclusive em áreas cruciais como a medicina e, também, a construção civil.

Ante a conjuntura atual do Catar, segundo analistas, há três cenários prováveis em caso de o diálogo mediado pelo Kuwait não surtir efeito positivo. Os elementos convergem, em princípio, para a alteração do mapa das importações de alimentos, o que já está acontecendo, mas isto traz outras implicações que interferem na região já bastante conturbada. Isto é, a aproximação do Catar aos países hostis à Arábia Saudita, tal como o Irã que há tempos tenta afastar os EUA e penetrar no Golfo Pérsico. Os iranianos já alcançaram uma certa vitória frente aos seus rivais e estão empenhados em atender as demandas das importações solicitadas pelo Catar. O terceiro panorama é o mais temido, ou seja, o perigo de mais um enfrentamento armado na região. Esta hipótese está condicionada à defesa e ao apoio do Catar à Irmandade Muçulmana e ao Hamas, por exemplo. Se este prognóstico se confirmar é provável que aumente a pressão sobre o Catar por meio de mais sanções, as quais servirão de motivação para algum grupo jihadista praticar um atentado na Arábia Saudita ou em algum país aliado. Neste caso, o Catar seria responsabilizado pelo ato, o que desencadearia um conflito armado, provocando o desiquilíbrio do Oriente Médio.

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Imagem:

Embarcações tradicionais (dhows) navegam na Baía Ocidental de Doha, capital do Catar.

(Fonte):

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This Post Has 2 Comments
  1. Prezada Marli
    Boa noite !
    Cumprimento-a pelo artigo elaborado, como sempre, com grande qualidade e muita pesquisa.
    Um grande abraço
    Prof. Rogério Koscianski

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