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O Reconhecimento Unilateral de Jerusalém como Capital de Israel pelos EUA

Em 6 de dezembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, reconheceu Jerusalém como a capital do Estado de Israel. Na sequência, ele solicitou ao Departamento de Estado o início do processo de transferência da embaixada norte-americana de Tel Aviv para Jerusalém. A comunidade internacional e a ONU apelaram para que tal reconhecimento não fosse feito, mas foram ignorados pelo dignatário, que afirmou ser a sua declaração acerca de Jerusalém “a coisa certa a fazer”.

Jerusalém.

A atitude de Donald Trump contribuiu para elevar as tensões entre israelenses e palestinos e, também, entre Israel e o mundo árabe e muçulmano. Mais uma vez, no conflito israelo-palestino, verifica-se unilateralmente a interferência externa numa questão interna, sem levar em consideração as consequências envolvendo as populações locais. Embora a notícia tenha sido muito bem recebida pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, muitos israelenses veem com apreensão a decisão norte-americana ante o possível aumento das hostilidades no Oriente Médio. Para Daniel Seidemann, ex-assessor do antigo primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, nos anos de 1999 a 2001, a atitude do Governo norte-americano, “claramente, é uma decisão desestabilizadora”. Segundo ele, “israelenses, palestinos e norte-americanos vão estar menos seguros”. Prova disso foi a imediata reação do Hamas que convocou uma nova intifada denominada “o dia da raiva”. É preciso levar em consideração que, para um povo com pouca ou quase nenhuma esperança de paz no futuro, a violência surge como uma opção de vida para quem já não tem mais nada a perder.

O conflito entre Israel e a Palestina está próximo de completar setenta anos, a contar a partir da criação do Estado de Israel, em 1948. A duração deste conflito tem contribuído para ampliar a rejeição entre as duas partes envolvidas e, ainda, para adicionar mais reivindicações de ambos os lados, as quais ultrapassam a disputa territorial e recaem no direito histórico. Trata-se de dois povos, com identidades definidas, que lutam pelo direito de permanência na terra que consideram de seus antepassados. Neste contexto, qualquer resolução não pode ser unilateral, parcial ou estrangeira. O gesto de Donald Trump, de fato, comprometeu a diplomacia norte-americana e favoreceu a retomada da violência entre israelenses e palestinos. A medida unilateral levada a cabo pelo presidente dos EUA tem provocado críticas por parte de líderes árabes e europeus que temem pelo fim do frágil processo de paz entre Israel e a Palestina. Neste momento é difícil avaliar, com precisão, os efeitos causados pela atitude de Donald Trump, mas já não é segredo a existência de um esquema ideológico-religioso que contribuiu para a execução da ação.

Conforme foi noticiado pelo jornal Ha’aretz, a base de apoio de Donald Trump é formada por evangélicos e ele “está por trás da agenda evangélica”. De acordo com a análise publicada pelo referido jornal, a atual política norte-americana visa atender estes protestantes não somente nas questões domésticas, tais como “se opor ao aborto, nomear juízes conservadores”, de entre outras mas, também, no que se refere a “questões da política externa”, como é o caso de Jerusalém. Por mais que possa causar estranheza o interesse desses evangélicos por Jerusalém, a relevância disso tudo reside numa explicação bíblica. Geralmente, estes religiosos estão ligados ao sionismo cristão, ou bíblico, de modo que a simpatia pelo Estado de Israel e os judeus não é algo desinteressado. O sionismo cristão é um movimento internacional favorável ao retorno do povo judeu a Israel porque, segundo a Bíblia, este regresso faz parte do cumprimento de uma profecia. Para estes crentes prevalece a ideia de que a reunião dos judeus em Israel é o prenúncio da segunda vinda de Jesus à Terra.  Para que o Armagedão seja concretizado, na visão destes evangélicos fundamentalistas, é necessário recuperar o controle judaico-cristão sobre o Monte do Templo. A partir desse princípio acreditam que Donald Trump, enquanto instrumento divino, está realizando a vontade de Deus. No entanto, de acordo com analistas, há outras questões que influenciaram a decisão de Donald Trump. Para o russo Piotr Akopov, a intenção do presidente dos EUA, ao reconhecer unilateralmente Jerusalém como capital de Israel, foi uma atitude racional que tem por objetivo ganhar o “terreno perdido” para o líder de outra potência mundial, Vladimir Putin. No entanto, para o embaixador da Palestina no Brasil, a intenção de Trump ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel destinou-se a desviar a atenção dos problemas internos deflagrando uma crise internacional e assim tirar o foco da Casa Branca.

As várias hipóteses que, supostamente, estão por trás da decisão de Donald Trump sobre Jerusalém, mesmo que, no momento, não seja possível determinar qual ou quais delas influenciaram a decisão do presidente norte-americano é certo que foi colocado mais um obstáculo para a paz entre israelenses e palestinos. Os EUA, que até há pouco tempo foram uma presença constante nas mesas de negociações, hoje isto poderá ficar comprometido uma vez que, ao analisarmos o problema recentemente criado pela maior potência mundial, verificamos que as circunstâncias revelam que, pelo menos no presente, para os palestinos, os EUA não são um interveniente imparcial ou válido. O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, já se recusou a se reunir com o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, que estará em viagem pelo Oriente Médio entre 17 e 19 de dezembro. A reprovação dos EUA não está limitada à Palestina, mas ela foi efetuada por diversos governantes e população de países árabes e muçulmanos como, por exemplo, o Líbano, o Egito, o Iêmen, o Irã e a Turquia, de entre outros. No dia 10 de dezembro, o presidente iraniano, Hassan Rohani, fez a seguinte advertência: os “EUA e o regime sionista cometeram o seu erro mais histórico (…) mas com a ajuda de Deus, Jerusalém se converterá no túmulo do regime israelense”. A indignação, presente não somente entre os palestinos, eleva os riscos de uma escada de violência e maior instabilidade na região.

Apesar dos atos violentos que se deram na sequência do pronunciamento de Donald Trump, em Israel há certa descrença quanto uma possível intifada. Numa análise publicada no jornal Ha’aretz, em 11 de dezembro, sublinham-se três razões capazes de neutralizar a revolta palestina. A primeira refere-se ao fato de a população palestina estar divida em três comunidades compostas pela Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Para além da divisão geográfica, os analistas consideram que cada uma dessas comunidades possui agendas diferentes, não havendo interesses comuns. A segunda razão está relacionada com as lideranças locais – o Hamas, na Faixa de Gaza, e a ANP na Cisjordânia. Uma nova intifada não é vista como algo positivo para o Hamas nem para a ANP, pois poderá comprometê-los e, assim, correrem o risco de perder o poder. De acordo com informações, o Hamas pediu uma intifada somente nas áreas que não estão sob o seu controle, ou seja, na Cisjordânia e em Jerusalém. Porém, os especialistas advertem que uma intifada na Cisjordânia significará o fim da ANP. O terceiro aspecto apontado é o “cansaço da guerra palestina“. O registro da perda de centenas de vidas humanas, somado ao fato de metade das famílias residentes na Cisjordânia serem dependentes de emprego em Israel e a falta de perspectivas de resolução do conflito pela via diplomática impede que os palestinos se envolvam numa nova intifada, na medida em que o preço será muito alto. De entre todos estes fatores é importante levarmos em consideração que, apesar de haver várias hipóteses que podem impedir uma nova intifada, fica clara a existência de mais um obstáculo e o aumento da falta de esperança na resolução do conflito. Enquanto isto, palestinos e israelenses vivem na incerteza do futuro pacífico enquanto que os EUA ampliaram as possibilidades de atentados dentro do seu próprio território.

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Imagem:

Jerusalém.

(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/73/Jerusalem_Dome_of_the_rock_BW_3.JPG