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O Papa Francisco e a Reforma Luterana

Campeão de popularidade no mundo inteiro desde que foi eleito papa, em 13 de março de 2013, na sequência da abdicação de Bento XVI, em 28 de fevereiro daquele ano, o papa Francisco – o argentino Jorge Mario Bergoglio – tem vindo a acumular críticas no seio da Igreja Católica, sobretudo por parte dos fiéis conservadores. Entre as temáticas que têm causado atrito entre os católicos e o sucessor de Pedro são de destacar as seguintes: o conteúdo da carta encíclica Laudato Si’ – considerado uma “maneira comunista de fazer as coisas: controlando a Humanidade através de… governos apoiados pela Polícia ou pelo poder militar” –, e da exortação apostólica Amoris Lætitia, (A Alegria do Amor, em português) – cujo conteúdo, segundo os cardeais Walter Brandmüller, Joachim Meisner, Carlo Caffarra e Raymond Leo Burke[1], bispos, sacerdotes, além de mais de dezessete mil católicos de todo o mundo, tem aspetos heréticos, fato que, mais recentemente, dezenas de intelectuais católicos (laicos e sacerdotes)[2] corroboraram, denunciando sete erros teológicos graves no oitavo capítulo daquela obra. A par dos “desvios” acabados de indicar, os conservadores, tanto na Cúria como nas comunidades de leigos, têm vindo a criticar, com vigor, a aproximação excessiva do papa aos protestantes, nomeadamente, aos luteranos. Numa entrevista concedida na Colômbia a Antonio Spadaro S.J. e publicada na revista jesuíta La Civiltà Cattolica, em 28 de setembro, o papa afirmou: “Escuto muitos comentários – respeitáveis, porque são ditos por filhos de Deus, mas errados – sobre a Exortação apostólica pós-sinodal. Para entender Amoris Lætitia é preciso lê-la do princípio ao fim. Começar no primeiro capítulo, continuando para o segundo… e assim por diante… refletindo sempre. E ler o que foi dito no Sínodo, também.

Em segundo lugar: alguns argumentam que a moral que sustenta está na ase de Amoris Lætitia não é uma moral católica ou, pelo menos, que não é uma moral segura. Sobre isto quero reafirmar com clareza que a moral de Amoris Lætitia é tomista, a do grande Tomás”.

Estátua de Martinho Lutero no Vaticano (2016).

Várias têm sido as declarações públicas e os gestos de aproximação do papa Francisco à Igreja Luterana, ao longo dos últimos anos. Ao visitar uma igreja luterana em Roma, no dia 15 de Novembro de 2015, ele declarou: “Houve momentos terríveis entre nós. Basta pensar nas perseguições – nós, que temos o mesmo batismo. Pensem em todas as pessoas que foram queimadas vivas”. Ao finalizar o improviso, o sumo pontífice acrescentou: “Nós temos de pedir perdão uns aos outros por isso, pelo escândalo da divisão”. Indo mais longe, na manhã de 19 de janeiro de 2016, Francisco recebeu em audiência, no Vaticano, uma delegação da Igreja Luterana da Finlândia, presidida por Irja Askola, a bispa de Helsínquia, que viajou por ocasião da festa de Santo Henrique, acompanhada por representantes das minorias ortodoxa e católica, os bispos Ambrosius e Teemu Sippo, respectivamente. Depois da audiência com o papa, a delegação acima mencionada oficiou em Roma, com a presença de grupos de fiéis finlandeses, uma missa católica ecumênica com a comunhão também dada aos luteranos. Um dia mais tarde, durante a audiência geral da quarta-feira, Francisco teve a oportunidade de refletir com os presentes: “No centro da catedral luterana de Riga existe uma pia baptismal que remonta ao século XII, à época em que a Letónia foi evangelizada por são Mainardo. Aquela pia constitui o sinal eloquente de uma origem de fé reconhecida por todos os cristãos da Letónia: católicos, luteranos e ortodoxos. Esta origem é o nosso Baptismo comum. O Concílio Vaticano II afirma que ‘o Baptismo, pois, constitui o vínculo sacramental da unidade que une todos os que foram regenerados por ele’ (Unitatis redintegratio22). Por outro lado, segundo “a primeira Carta de São Pedro é dirigida à primeira geração de cristãos, para os tornar conscientes do dom recebido mediante o Baptismo e das exigências que ele comporta. […] Todos nós cristãos, mediante a graça do Baptismo, recebemos a misericórdia de Deus e fomos inseridos no seu povo. Todos nós, católicos, ortodoxos e protestantes, formamos um sacerdócio real e uma nação santa. Isto significa que temos uma missão comum, que consiste em transmitir aos outros a misericórdia recebida, a começar pelos mais pobres e abandonados”.

No dia 13 de outubro de 2016, o papa discursou aos participantes na peregrinação dos luteranos provenientes da região alemã da Saxónia-Anhalt. Naquela oportunidade, Francisco sublinhou: “Hoje, luteranos e católicos, estamos a caminhar pela senda que leva do conflito à comunhão. Já percorremos juntos um importante pedaço de caminho. Ao longo do percurso tivemos sentimentos contrastantes: dor pela divisão que ainda existe entre nós, mas também alegria pela fraternidade já reencontrada. A vossa presença tão numerosa e entusiasta é um sinal evidente desta fraternidade, e enche-nos da esperança que a compreensão recíproca possa continuar a crescer”. Em 14 de outubro, um dia após as comemorações dos 99 anos das Aparições de Fátima e do milagre do Sol, na Sala Paulo VI, no Vaticano, foi apresentada aos fiéis uma estátua de Martinho Lutero. Segundo o jornalista, escritor e âncora televisivo Antonio Socci, “o significado simbólico daquela entrada com toda pompa da estátua de Lutero no Vaticano (onde o seu retrato estava ao lado do de Bergoglio) provocou um verdadeiro escândalo”.

O papa Francisco realizou, entre 31 de outubro e 1 de novembro  de 2016, uma viagem apostólica à Suécia, por ocasião da comemoração comum luterano-católica da Reforma. O pastor Heiner Bludau, decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália e pastor da Comunidade Evangélica Luterana de Turim declarou, aos microfones da Rádio Vaticano, que “as Igrejas luteranas sempre celebraram os centenários da Reforma. No passado, estas manifestações eram realizadas ‘contra’ a Igreja Católica, ou assumiam um caráter nacional. Em 2017, porém, pela primeira vez abriu-se a possibilidade de celebrar este aniversário em um clima de diálogo”. Tal como referiu o monsenhor Franco Buzzi, prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão, “a grande novidade deste centenário é que se trata do primeiro a ser celebrado em uma época ecumênica”.

Desejando criar o entendimento entre católicos e luteranos, que cessou logo em 31 de Outubro de 1517, com a publicação das 95 Teses, de Martinho Lutero, sobre o poder e a eficácia das indulgências católicas, o papa Francisco assinalou durante a oração ecumênica na Catedral de Lund, Sul da Suécia, que é preciso reconhecer com “honestidade […] que a nossa divisão nos afastava do desenho original de povo de Deus’. ‘E ela foi historicamente perpetuada por homens de poder deste mundo, muito mais do que pela vontade do povo fiel’”.

Hoje em dia, estamos ante a possibilidade de se estabelecer um caminho comum “que se foi configurando ao longo dos últimos cinquenta anos no diálogo ecuménico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica”, que se viu plasmado na Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 31 de outubro de 1999, pelo bispo Dr. Christian Krause, da Federação Luterana Mundial, e pelo cardeal Edward Idris Cassidy, da Igreja Católica. Naquele documento, as duas Igrejas passaram a professar a mesma doutrina sobre a justificação da fé, embora com desdobramentos diferentes. Tal como o sumo pontífice referiu na homilia proferida em Lund, no dia 31 de outubro, é ponto assente, para a Igreja Católica, a existência da “possibilidade de reparar um momento crucial da nossa história, superando controvérsias e mal-entendidos que impediram frequentemente de nos compreendermos uns aos outros”. Mais tarde, na Declaração Conjunta assinada, em Lund, no âmbito da comemoração católico-luterana da Reforma, lemos a intenção de se construir um caminho comum, diferente do passado marcado por massacres, guerras e ódios que se estenderam pelos últimos quinhentos anos[3]. Se, por um lado, o passado não pode ser modificado, o “que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados”. Atualmente, quer para os católicos, quer para os luteranos, há a intenção de rejeitar a dor e o sofrimento “implementados em nome da religião. Hoje, escutamos o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito. Reconhecemos que fomos libertos pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama sem cessar”. O compromisso de ambas confissões religiosas em prol de um testemunho comum foi expresso desta maneira: “Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecuménicos, que desejamos levar por diante inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico”.

Apelando à unidade como prioridade, para católicos e luteranos, na Malmö Arena, o papa Francisco, depois de ouvir o testemunho do bispo Héctor Fabio Henao Gaviria, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral Social – Cáritas Colombiana, afirmou: “É uma boa notícia saber que os cristãos se unem para dar vida a processos comunitários e sociais de interesse comum. Peço-vos uma oração especial por aquela terra maravilhosa para que, com a colaboração de todos, se possa chegar finalmente à paz, tão desejada e necessária para uma digna convivência humana”. Se referindo ao testemunho proferido por Marguerite Barankitse, em Malmö, o Papa qualificou da seguinte maneira o trabalho daquela ativista pela paz, levado a cabo na Maison Shalom e no Hospital REMA: “Aquilo que tu consideras como uma missão, foi uma semente, uma semente que produziu frutos abundantes, e hoje, graças a esta semente, milhares de crianças podem estudar, crescer e recuperar a saúde. Apostaste no futuro! Obrigado. E agradeço-te pelo facto de agora, mesmo no exílio, continuares a comunicar uma mensagem de paz”. Reforçando seu apreço em relação à obra da vencedora, em 2016, do Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade, Francisco acrescentou: “Disseste que, todos os que te conhecem, pensam que aquilo que fazes é uma loucura. Sim, é a loucura do amor a Deus e ao próximo! Quem dera que esta loucura pudesse propagar-se, iluminada pela fé e a confiança na Providência!”.

Apesar das críticas dos católicos tradicionalistas à aproximação aos luteranos, promovida pelo papa Francisco[4], o certo é que, para o vigário de Cristo, de acordo com o vaticanista Edward Pentin, a posição adotada em relação aos seguidores de Martinho Lutero “é um reflexo de como o papa enxerga as demais religiões. É como se não existisse um chamado à conversão e que todas têm o seu caminho a Deus”. Para o sucessor de Pedro é ponto assente que “a nossa fé comum em Jesus Cristo e o nosso Batismo exigem de nós uma conversão diária, graças à qual repelimos as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação”. Defendendo que as intenções de Lutero não foram erradas[5], Francisco demonstrou, publicamente, querer deixar de lado as controvérsias doutrinais abrindo, assim, o caminho da unidade entre católicos e luteranos, que deverá ser construído a partir da diversidade. Na verdade, os sinais de aproximação, que agora se tornaram evidentes aos olhos do público, podem conduzir-nos, tal como afirmou o bispo Dr. Munib A. Younan, presidente da Federação Luterana Mundial, “a uma reconciliação pacífica, em vez de contribuir, como habitualmente, para mais conflitos no nosso já conturbado mundo”.

No dia 31 de março de 2017, na Sala Clementina, no Vaticano, ante os participantes no Simpósio Internacional promovido pelo Pontifício Comitê das Ciências Históricas, com o tema “Lutero 500 Anos Depois. Uma Releitura da Reforma Luterana em seu Contexto Histórico Eclesial”, o papa assinalou: “Falar de Lutero, católicos e protestantes juntos, por iniciativa de um organismo da Santa Sé: deveras verificamos concretamente os frutos da ação do Espírito Santo, que ultrapassa qualquer barreira e transforma os conflitos em oportunidades de crescimento na comunhão. Do conflito à comunhão é precisamente o título do documento da Comissão Luterana-Católica Romana em vista da comemoração comum do quinto centenário do início da Reforma de Lutero”. Francisco aproveitou aquela oportunidade para acrescentar: “Aprofundamentos sérios sobre a figura de Lutero e a sua crítica contra a Igreja do seu tempo e o papado contribuem sem dúvida para superar aquele clima de desconfiança recíproca e de rivalidades que por demasiado tempo no passado caraterizou as relações entre católicos e protestantes. O estudo atento e rigoroso, livre de preconceitos e polémicas ideológicas, permite que as Igrejas, hoje em diálogo, possam discernir e assumir o que de positivo e legítimo houve na Reforma, e de se distanciar dos erros, exageros e falências, reconhecendo os pecados que tinham levado à divisão”. Tendo presente o futuro comum para as confissões religiosas cristãs, que se abre para todas a partir de um entendimento do passado, simultaneamente tolerante e inclusivo, o vigário de Cristo apelou: “Hoje, como cristãos, somos todos chamados a libertar-nos dos preconceitos em relação à fé que os outros professam com uma ênfase e uma linguagem diferente, e a conceder-nos reciprocamente o perdão pelas culpas cometidas pelos nossos pais e a invocar juntos de Deus o dom da reconciliação e da unidade. Enquanto acompanho com a oração o vosso precioso trabalho de pesquisa histórica, invoco sobre todos vós a bênção de Deus omnipotente e misericordioso”.

Para o papa Francisco, a postura de Martinho Lutero no tema da fé é digna de elogio. De acordo com o sumo pontífice, “a experiência espiritual de Lutero nos desafia e nos lembra que não podemos fazer nada sem Deus”. O líder protestante sempre formulava a pergunta: “como posso ter um Deus misericordioso?”, que é “a questão do justo relacionamento com Deus que é a questão decisiva da vida”, afirmou. Acerca da Reforma, o papa reconhece que ela “contribuiu para dar maior centralidade às Sagradas Escrituras na vida da Igreja”. Atualmente, 50 anos após o estabelecimento do diálogo entre católicos e luteranos, segundo Francisco, “não podemos nos resignar à divisão e ao afastamento que a separação causou entre nós. Temos a ocasião de reparar um momento crucial de nossa história, superando as polêmicas e mal-entendidos que impediram o entendimento entre nós”.

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Imagem:            

Estátua de Martinho Lutero no Vaticano (2016).

(Fonte):

http://www.rainhamaria.com.br/z1img/19_10_2016__19_49_2058225501bfb7b1d6d3d93af8cbc045a7db999_640x480.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

A carta foi originalmente divulgada pelo vaticanista Sandro Magister, em seu sítio web:

A Sua Santidade Padre Francisco e com conhecimento de Sua Eminência Cardeal Gerhard L. Müller

Santo Padre,

No seguimento da publicação da Vossa Exortação Apostólica ‘Amoris Laetitia’, teólogos e estudiosos propuseram interpretações não só divergentes, mas também contrastantes, sobretudo no que respeita ao Capítulo VIII. Além do mais, os meios de comunicação têm vindo a pôr em realce esta disputa, provocando incerteza, confusão e desorientação entre muitos dos fiéis.

Por isso, chegaram-nos, a nós que nos subscrevemos, como também a muitos Bispos e Presbíteros, numerosos pedidos da parte de féis pertencentes a diversas condições sociais, a respeito da correta interpretação a dar ao Capítulo VIII da Exortação.

Assim, movidos em consciência pela nossa responsabilidade pastoral, e desejando praticar sempre melhor aquela mesma sinoladidade a que Vossa Santidade nos exorta, permitimo-nos, com profundo respeito, vir pedir-Vos, Santo Padre, que, como Mestre Supremo da Fé, chamado pelo Ressuscitado a confirmar os irmãos na fé, dirimais as incertezas e crieis clareza, dando benevolamente resposta aos ‘Dubia’ que nos consentimos juntar à presente carta.

Possa Vossa Santidade abençoar-nos, deixando-Vos a nossa promessa de uma constante presença na nossa oração.

Card. Walter Brandmüller

Card. Raymond L. Burke

Card. Carlo Caffarra

Card. Joachim Meisner

Roma, 19 de Setembro de 2016”.

Os “Dubia” [do latim “Dúvidas”] apresentados pelos cardeais ao papa são os seguintes:

1. Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em ‘Amoris Lætitia’ (nn. 300-305), se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive ‘more uxorio’ (de modo marital) com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por ‘Familiaris Consortio’, n. 84, e, entretanto, confirmadas por ‘Reconciliatio et Pænitentia’, n. 34, e por ‘Sacramentum Caritatis’, n. 29. Pode a expressão ‘em certos casos’ da nota 351 (n. 305) da exortação ‘Amoris Lætitia’ ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver ‘more uxorio’?

2. Continua a ser válido, após a Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Amoris Lætitia’ (cf. n. 304), o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer exceção, que proíbem atos intrinsecamente maus?

3. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 301) pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objetiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000)?

4.  Após as afirmações de ‘Amoris Lætitia’ (n. 302) acerca das ‘circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral’, ainda se deve ter como válido o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 81, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, segundo a qual ‘as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção’?

5. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 303) ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 56, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e enfatiza que a consciência jamais está autorizada a legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem ações intrinsecamente más em virtude do seu objeto?

[2] Ver:

AAVV, Correctio Filialis De Haeresibus Propagatis, s. l., 16 de julho de 2017, 28 pp.

Disponível online:

https://infovaticana.com/wp-content/uploads/2017/09/correccion-filial.pdf

[3] Ver:

A excomunhão de Martinho Lutero pelo papa Leão X, em 3 de janeiro de 1521 foi, talvez, “o clímax do conflito entre duas visões da religião cristã que acabaria numa das mais importantes cisões do Cristianismo”.

Pároco da Igreja de Wittenberg, Sul de Berlim, desde 1514, o sacerdote e teólogo Martinho Lutero verificou que muitos fiéis preferiam comprar cartas de indulgência a confessar-se com ele. Na altura, “essas indulgências são vendidas nas feiras livres, e, negociando com o pecado, a Igreja arrecada o capital de que precisa urgentemente. Conta-se que o monge dominicano Johann Tetzel anunciava: ‘Quando o dinheiro cair na caixinha, o Céu estará recebendo a sua alminha’”.

Lutero, crítico da venda de indulgências, pela Igreja Católica, e defensor da confissão, tal como da confiança na Graça divina, enviou, em Outubro de 1517, as “95 teses a seus superiores eclesiásticos. Conta a lenda que Lutero pregou as teses com estrondosos golpes de martelo na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. O documento é logo impresso e distribuído entre a gente de Leipzig, Nurembergue e da Basileia”.

[4] Ver:

O blog Rorate Cæli, veículo de divulgação das teses dos católicos tradicionalistas, referiu a propósito da aproximação entre católicos e luteranos: “O movimento da Reforma e Martinho Lutero são exaltados repetidas vezes, enquanto que a Contrarreforma, os Papas e os Santos do século XVI são ignorados em total silêncio”. Por outro lado, assinala o blog, “a ênfase esmagadora neste material recai sobre aquilo que supostamente une os católicos e luteranos, enquanto que as doutrinas que nos ‘dividem’ – doutrinas pelas quais inumeráveis mártires católicos e confessores sofreram, deram o seu sangue, combateram e morreram – são omitidas e abandonadas”.

[5] Ver:

Na conferência de imprensa concedida pelo santo padre durante o voo de regresso da Armênia, no dia 26 de junho de 2016, ele declarou: “Creio que as intenções de Martinho Lutero não fossem erradas: era um reformador. Talvez alguns métodos não fossem justos, mas naquele tempo, se lermos por exemplo a história do Pastor (um luterano alemão que, ao ver a realidade daquele tempo, se converteu e fez católico), vemos que a Igreja não era propriamente um modelo a imitar: havia corrupção na Igreja, havia mundanidade, havia apego ao dinheiro e ao poder. E por isso ele protestou. Sendo inteligente, deu um passo em frente justificando por que motivo fazia isso. E hoje luteranos e católicos, com todos os protestantes, estamos de acordo sobre a doutrina da justificação: sobre este ponto tão importante, ele não errara. Elaborou um ‘remédio’ para a Igreja, depois este remédio consolidou-se num estado de coisas, numa disciplina, num modo de crer, num modo de fazer, num modo litúrgico”.

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