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O Irã na Mira do Estado Islâmico

Em 7 de junho, pela primeira vez, o Irã foi alvo da violência perpetrada pelo Estado Islâmico, o seu principal rival na Guerra na Síria e no Iraque. Os dois ataques fizeram 12 vítimas mortais e 42 pessoas feridas. Desde o início de 1980, quando os opositores da República Islâmica, na tentativa de derrubar o Regime Revolucionário nascente, mataram lideranças importantes e simpatizantes da nova ordem política iraniana, o país não tinha sido vítima de atentados terroristas. Isto não pressupõe que, ao longo do tempo, não tenha sofrido ameaças. Segundo informações, nos últimos dois anos, as Forças de Segurança Iranianas conseguiram frustrar mais de cem tentativas de ataques contra a República Islâmica. O atentado simultâneo, ocorrido recentemente, atingiu o coração do Irã, ao agredir dois dos marcos históricos e simbólicos do país: o Mausoléu do Aiatolá Khomeini e o Parlamento, o que, para os dirigentes daquele país, é considerado um ultraje. Os locais escolhidos pelo Estado Islâmico revelam o pragmatismo do grupo, na medida em que a seleção dos espaços para a execução da ação foi premeditada e alicerçada pela hostilidade existente entre Teerã e os insurgentes islâmicos sunitas.

Mausoléu do Aiatolá Khomeini, Teerã.

A agressão do Estado Islâmico contra o Irã, de certo modo, já era algo previsto. Há motivos concretos, como a repulsa que ambos os lados nutrem um pelo outro. Este é o ponto nevrálgico que aquece os ânimos entre os dois adversários impulsionados pela rivalidade xiita e sunita, estando isto na base do problema. Uma circunstância que chama a atenção é o incômodo iraniano causado pelo fato de Abu Bakr al-Baghdadi ter tentado criar o seu Califado às portas do Irã, o que piora o cenário. O sentimento de ódio que o Estado Islâmico tem pelo Irã é em igual proporção, ou até maior, se comparado com a sanha que grupo radical mantém em relação ao Ocidente. Deste modo, as  análises apontam para um provável enfrentamento entre o Irã e o Estado islâmico que também é considerado essencial e inevitável. Os ataques aconteceram na sequência da visita do presidente dos EUA, Donald Trump, à Arábia Saudita, o que intensificou as divergências entre os sauditas e os iranianos sendo que estes últimos acusaram a petromonarquia saudita e os norte-americanos de estarem por trás do duplo atentado. Em comunicado, a Guarda Revolucionária do Irã fez a seguinte afirmação: “Este ataque terrorista aconteceu apenas uma semana após o encontro entre o presidente dos EUA [Donald Trump] e os líderes sauditas que apoiam terroristas. O fato de que o Daesh reivindicou a responsabilidade prova que eles estavam envolvidos no ataque brutal”.

Os antagonismos entre o Irã, a Arábia Saudita e os EUA estão em ascensão. A oposição entre estes países agravou-se mais a partir do momento em que o reino saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Egito e o Bahrein suspenderam as relações com o Catar sob a alegação de que este país está apoiando o terrorismo. O Catar nega tais acusações, porém, após as sanções, Doha passou a negociar com o Irã e a Turquia, o fornecimento de água e de alimentos. As autoridades iranianas já enviaram para o Catar quatro aviões de carga e planejam fornecer, diariamente, cerca de cem toneladas de frutas e vegetais. Neste sentido, a atitude da Arábia Saudita e seus aliados abriu espaço para a penetração iraniana no Golfo Pérsico, o que corresponde a uma oportunidade importante para a República Islâmica expandir a sua área de influência, há muito tempo planejada. No entanto, esta conquista externa ocorrida logo após os ataques do Estado Islâmico, não apaga as ameaças externas e as dificuldades internas que o Irã tem que enfrentar cotidianamente. A presença de minorias étnicas e religiosas em suas fronteiras, tais como os curdos, os árabes e os balúchis, que sempre foram discriminados e esquecidos por Teerã, pode representar, hoje, uma intimidação ante o processo de exclusão que vêm sofrendo. Somado a isto, cabe referir a recente eleição presidencial iraniana, cujas desconfianças recaem sobre a possível manipulação das listas de candidatos. Neste contexto, torna-se urgente, para o Irã, trabalhar no sentido de aprimorar a defesa e a segurança do país, na medida em que os riscos de atentados não partem apenas do exterior, mas também, como resultado da sua política doméstica que, a partir de agora, terá que resolver os problemas internos, impedindo a penetração de inimigos, o que não foi possível com o Estado Islâmico, que tem intensificado as campanhas de propaganda em persa para atrair a minoria sunita iraniana.

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Imagem:

Mausoléu do Aiatolá Khomeini, Teerã.

(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mausoleum_of_Ruhollah_Khomeini#/media/File:Khomeini_Mausoleum.JPG