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A Mensagem de Ano Novo do Papa Francisco

O Dia Mundial da Paz foi criado pelo beato Paulo VI em 1967, por meio de uma mensagem divulgada no dia 8 de dezembro daquele ano. Para aquele sumo pontífice a proposta não tinha um cariz confessional, mas sim ecumênico: “A proposta de dedicar à Paz o primeiro dia do novo ano não tem a pretensão de ser qualificada como exclusivamente nossa, religiosa ou católica. Antes, seria para desejar que ela encontrasse a adesão de todos os verdadeiros amigos da Paz”.

Cartão postal divulgado pelo papa Francisco durante a quadra de Natal de 2017.

Francisco, que desde o início de seu pontificado tem referido o fato de estarmos vivendo a III Guerra Mundial em fragmentos, num gesto inusitado, decidiu divulgar, em finais de 2017, a reprodução de uma fotografia feita em 1945, pelo fotógrafo norte-americano Joseph Roger O’Donnell. A imagem, obtida em Nagasaki após o lançamento da bomba atômica pelos Estados Unidos, mostra uma criança carregando seu irmão morto, às costas, esperando a sua vez no crematório. No verso do cartão postal o papa gravou a frase “… o fruto da guerra”, tendo assinado o documento.

Segundo dados recentes da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), estima-se que, no mundo, existam cerca de 65,6 milhões de pessoas vítimas de deslocamentos forçados. Tendo presente a dimensão desta tragédia, o vigário de Cristo indicou, como tema da mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2018, o seguinte: “Migrantes e Refugiados: Homens e Mulheres em Busca de Paz”. A mensagem do sumo pontífice está subdividida em seis tópicos: Votos de paz; Por que há tantos refugiados e migrantes?; Com olhar contemplativo; Quatro pedras miliares para a ação; Uma proposta para dois Pactos internacionais; Em prol da nossa casa comum. Naquela ocasião, citando a mensagem de São João Paulo II para o Dia Mundial da Paz do ano 2000, o sumo pontífice sublinhou que o número crescente de refugiados está entre os efeitos de “uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, ‘limpezas étnicas’”.

Se, atualmente, a nível mundial, muitos dos programas de intervenção junto dos refugiados obedecem a modelos pré-estabelecidos daquilo que deve ser valioso e digno de estima por parte dos recém-chegados aos países de acolhimento, o papa Francisco defende um modelo de aproximação diferente a ser adotado por aqueles que acolhem os refugiados. A proposta pontifícia, denominada de olhar contemplativo, defende o acolhimento como medida fundamental para compreender a circunstância[1] daqueles que chegam, em situação precária, às mais diversas localidades. Para Francisco, “este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem”. Por outro lado, destacou o papa, também será necessário que os responsáveis pelo acolhimento não ignorem “a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos”. A recomendação do sucessor de Pedro foi, neste contexto, holística: “Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar a outros problemas já existentes em grande número, bem como recursos que são sempre limitados”.

O papa reiterou, no primeiro dia de 2018, os apelos por ele feitos a favor da dignificação da pessoa humana que devem ser, para o ser humano de hoje, a expressão de uma Humanidade perene. Se assim é, o próprio Vaticano assume, atualmente, o dever de, por intermédio de palavras e de obras, valorizar a abertura à História a quantos se encontram excluídos dela. Neste sentido, é do seio da própria Igreja Católica que surge um clamor que ultrapassa tempos e rasga fronteiras. Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora, defendeu, no já distante ano de 1776: “Não basta que o homem deixe de obrar mal. Deve o seu procedimento ser positivamente louvável[2] em relação àqueles que menos são, menos podem e menos têm.

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Imagem:

Cartão postal divulgado pelo papa Francisco durante a quadra de Natal de 2017.

(Fonte):

Sala de Imprensa da Santa Sé.

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

“Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela não me salvo eu. Benefac loco illi quo natus est [Bendiz o lugar em que nasceste], lemos na Bíblia. E na escola platônica se nos dá como empresa de toda a cultura, esta: ‘salvar as aparências’, os fenômenos. Quer dizer, procurar o sentido daquilo que nos rodeia.”, JOSÉ ORTEGA Y GASSET, Meditaciones del Quijote, I [1914], in Obras Completas, Madrid, Alianza Editorial, 1983, vol. I, pág. 322 [Tradução da nossa responsabilidade] .

[2] Ver:

 UM RELIGIOSO DA ORDEM TERCEIRA [FREI MANUEL DO CENÁCULO], Memórias Históricas do Ministério do Púlpito, Lisboa, Na Régia Oficina Tipográfica, 1776, pág. 261.

O papa Francisco assumiu implicitamente o pensamento do prelado eborense durante a 1.ª Audiência Geral de 2018, ao afirmar: “Sentimo-nos muitas vezes bons porque – dizemos – ‘não fiz mal a ninguém’. Na realidade, não é suficiente não praticar o mal contra o próximo, mas é necessário escolher fazer o bem aproveitando as ocasiões para dar bom testemunho de que somos discípulos de Jesus. É bom frisar que confessamos tanto a Deus como aos irmãos, que somos pecadores: isto ajuda-nos a compreender a dimensão do pecado que, enquanto nos separa de Deus, também nos divide dos nossos irmãos, e vice-versa. O pecado corta: corta a relação com Deus e com os irmãos, corta a relação na família, na sociedade e na comunidade: o pecado corta sempre, separa, divide”.

 

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