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A Liberdade para Simone de Beauvoir

No início do livro Por Uma Moral da Ambiguidade, Simone de Beauvoir declara que a ambivalência é uma tragédia que só afeta aos homens, pois enquanto os animais e as plantas apenas passam por isso, o homem a pensa.

Simone de Beauvoir.

O homem “lançado ao mundo” é um ser que precisa escolher. Ele não pode fugir a isso. Enquanto todas as coisas que cercam o homem (plantas e animais) passam pela existência sem a necessidade de escolhas, ao homem, isso lhe é exigido. E essa exigência é imanente a sua situação existencial. E essa necessidade de escolher entre o sim ou o não se configura como a tragédia humana já que o que caracteriza o homem é a sua liberdade. E a liberdade é um exercício ambíguo.

A liberdade defendida por Simone de Beauvoir é a mesma defendida por Jean-Paul Sartre, para quem “A liberdade não é um ser: ela é o ser do homem, isto é, o seu nada de ser. A liberdade é constitutiva da consciência (…) e eu estou condenado a ser livre. Isso significa que (…) não somos livres de deixar de ser livres. Uma vez lançado à vida, o homem é responsável por tudo o que faz do projeto fundamental, isto é, da sua vida. E ninguém tem desculpas: se falimos, falimos porque escolhemos a falência[1].     

É na própria liberdade que o homem encontra as bases de suas condutas.  Ocorre que, para o homem encontrar as bases da sua conduta de modo que sua atitude seja autêntica, é necessário tornar-se livre dentro do mundo, cujos valores que incidem no homem são pré-estabelecidos. À medida que o homem vai tomando consciência de sua situação no mundo, depara-se com um mundo formatado com valores pré-estabelecidos. O exercício da liberdade plena sempre foi impossibilitado e/ou dificultado pela moral da unidade no meio da multiplicidade.

A escolha da liberdade nesse mundo que tenta se fazer uno é tarefa a ser superada pelo existencialista, pois a ambiguidade é imanente à condição do homem. Não se pode furtar a duplicidade com a qual a vida se apresenta aos homens. Toda ação humana exige o exercício da ambiguidade que se faz presente na política, na amizade, nos relacionamentos sociais e afetivos, nos embates, no trabalho, enfim, a condição humana ambígua pode ser entendida como a impossibilidade de fugir das escolhas.

Do ponto de vista da filósofa, a vida só pode ser pensada a partir da ambiguidade que lhe é intrínseca. Para que se possa exercer a liberdade existencial de modo comprometido é necessário ao homem, emancipar-se dos rótulos e do aculturamento pelo qual todos passam. A tradição majoritária da metafísica e da ciência com sua tendência absolutista de valores propendem os homens nas suas escolhas. Toda a estrutura política, jurídica, universitária, toda questão de gênero, de raça, enfim, todas as questões entre sim e não, a melhor solução, o justo e o injusto são ambiguidades com propensão cultural que não interessam à Simone de Beauvoir. E nesse sentido, é necessário deixar claro que a crítica existencialista recai nas consequências de deixar as próprias escolhas ao arbítrio de outro que já escolheu por você através das classificações rotulantes.

A mal entendida frase “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, nos remete à ideia de que a classificação das pessoas em masculino e feminino possibilita subclassificá-los em “fortes e fracas” “espertos e burras”. Não se trata de uma simplória análise física, mas sim da imbricada estrutura política por traz das classificações ambíguas e suas infindáveis possibilidades de subclassificações das pessoas. E este mesmo raciocínio pode ser aplicado às questões de raça (amarelos, brancos, índios, negros), posição social e econômica (rico e pobre, europeu, latino americano, indiano, africano), seja para exaltar ou diminuir pessoas conforme o lugar que ocupam num mundo predeterminado.

A moral da ambiguidade busca o comprometimento do homem e só dele mesmo na sua escolha. E fazer escolhas é entender que não há respostas prontas e definitivas. Que a moral da metafísica ou as certezas da ciência não devem funcionar na liberdade existencial que é, em última análise, a opção da escolha do homem como ser responsável por tudo que faz do seu projeto fundamental.

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Imagem:

Simone de Beauvoir.

(Fonte):

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica, 14.ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

Outras fontes:

BEAUVOIR, Simone de. Por Uma Moral da Ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1947.

BEAUVOIR, Simone de. A Cerimônia do Adeus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

BEAUVOIR, Simone de. Memórias de Uma Moça Bem Comportada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1958.

HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

REALLE, Giovanni & ANTISSERI, Dario. História da Filosofia: Do Humanismo a Kant: vol. II. 3.ª ed. São Paulo: Paulus, 1990.

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