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A Importância do Gás Natural do Catar para os Emirados Árabes Unidos

No dia 5 de junho de 2017 os Governos dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Arábia Saudita – membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) –, Egito, Iêmen, Maldivas e da Líbia (Governo oriental, com capital em Tobruk), cortaram laços diplomáticos com o Catar. Outros países da região, que também são membros do CCG, como Omã e o Kuwait, mantiveram relações com Doha.

Ilustração da estrutura de operações da Dolphin Energy no Catar e nos Emirados Árabes Unidos.

Dentre os países que cortaram relações diplomáticas com o Catar, chama a atenção o caso dos EAU, que é o terceiro maior consumidor de energia primária de todo o Oriente Médio, superado apenas pelo Irã e a Arábia Saudita, nesta ordem (vale ressaltar que Oriente Médio consome mais energia do que a América do Sul e Central juntas segundo os dados mais recentes da British Petroleum). Somado a isto, o país é também o maior importador regional do gás natural catari, cujo fornecimento se dá por meio do gasoduto Dolphin, administrado pela emiradense Dolphin Energy. Em 2016, o gás natural correspondeu a 68% do total de energia primária consumida pelos EAU.

O gráfico abaixo ilustra a relação produção, consumo e importação do Catar de gás natural desde 2007, ano em que o sistema Dolphin entrou em operação, e demonstra a importância do produto catari para complementar o consumo emiradense.

Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2008-2017 [adaptado].

Os EAU possuem a sétima maior reserva de gás natural do mundo, porém grande parte do que é produzido, além de ter utilidade para a geração de energia e para dessalinização, é usada para reinjeção em campos petrolíferos para maximizar a produção bruta de óleo cru. Daí a importância do Catar como fornecedor do recurso.

O processo de abastecimento para os EAU ocorre basicamente a partir das seguintes etapas: extração do campo catari offshore North Dome (compartilhado com o South Pars localizado em águas territoriais iranianas); processamento e compressão na planta de Ras Laffan, no Norte do Catar, uma das maiores do mundo na execução desse tipo de função; exportação submarina por cerca de 364 quilômetros de gasoduto até as instalações receptoras e complexos de dessalinização em Taweelah, em Abu Dhabi; e a distribuição por gasodutos terrestres como o Taweelah-Fujairah que, conforme o próprio nome da estrutura, transmite gás natural para o emirado de Fujairah, onde fica localizada uma das maiores plantas de dessalinização e de geração de energia do mundo.

Desde a instalação da crise no início do mês de junho, Doha e a Qatar Petroleum (QP) têm informado que apesar das atitudes diplomáticas negativas de Abu Dhabi, bem como da proibição de navios que suspendem ou têm como destino o Catar de usarem os terminais portuários emiradenses, o país não cortará o fluxo de gás para o vizinho árabe. Sobre esta situação, Saad Sherida al-Kaabi (CEO da QP), em entrevista à rede al-Jazeera, afirmou que “o cerco que temos hoje é um caso de força maior e poderíamos fechar o gasoduto para os EAU […]. Porém, se cortarmos o gás, isso trará grandes danos aos EAU e aos habitantes dos EAU, que são considerados irmãos… então decidimos não cortar o gás agora”.

Em 2016, a venda do referido hidrocarboneto para os EAU representou aproximadamente 14% do total de exportações de gás natural do Catar, incluindo aqui o gás natural liquefeito (GNL). Neste sentido, apesar de o país vizinho ser um parceiro interessante para o mercado catari, é possível inferir que a decisão de Doha, de até o momento não retalhar os EAU, diga respeito à importância de se manter com a reputação de fornecedor confiável mesmo em situações adversas, passando dessa forma uma boa imagem internacional para os maiores parceiros consumidores do seu produto, a exemplo do Japão, da Coreia do Sul e, também, da Índia.

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Imagem:

Ilustração da estrutura de operações da Dolphin Energy no Catar e nos Emirados Árabes Unidos.

(Fonte):

http://www.dolphinenergy.com/en/14/operations/uae-operations

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Fontes consultadas:

BP Statistical Review of World Energy 2017. Disponível em: http://www.bp.com/content/dam/bp/en/corporate/pdf/energy-economics/statistical-review-2017/bp-statistical-review-of-world-energy-2017-full-report.pdf Acessado no dia 7 de julho de 2017.

DIPAOLA, Anthony. The U.A.E. Needs Qatar’s Gas to Keep Dubai’s Lights On. Bloomberg, 7 de junho de 2017. Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2017-06-07/u-a-e-gulps-qatari-gas-to-keep-dubai-s-lights-on-despite-spat Acessado no dia 6 de julho de 2017.

FINN, Tom & EL GAMAL, Rania. Qatar Has no Plan to Shut Dolphin Gas Pipeline to UAE Despite Rift: Sources. Reuters, Doha – Dubai, 6 de junho de 2017. Disponível em:

https://www.reuters.com/article/us-gulf-qatar-gas-idUSKBN18X1WA Acessado no dia 6 de julho de 2017.

Qatar Will Not Shut Gas Pipeline to UAE: QP CEO. al-Jazeera, 18 de junho de 2017. Disponível em: http://www.aljazeera.com/news/2017/06/qatar-shut-gas-pipeline-uae-qp-ceo-170618171841461.html Acessado no dia 6 de julho de 2017.

UAE-Qatar Gas Pipeline Remains Open Due to Energy Needs – Report. Gulf Business, 8 de junho de 2017. Disponível em: http://gulfbusiness.com/uae-qatar-gas-pipeline-remains-open-due-energy-needs-report/ Acessado no dia 7 de julho de 2017.

UAE in Dire Need of Qatar Gas to Keep Dubai Lit Up – Report. Press TV, 9 de junho de 2017. Disponível em: http://www.presstv.ir/Detail/2017/06/09/524751/UAE-natural-gas-Qatar-skyscrapers-power-Dubai-blackout-diplomatic-row Acessado no dia 8 de julho de 2017.