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Evolução da Arte da Guerra – Das Gerações da Guerra Moderna aos Conflitos Assimétricos

Parte 6 – A transição para a Quinta Geração da Guerra Moderna

Este artigo, dividido em seis partes, pretende mostrar, por meio da história militar, a evolução da arte da guerra a partir do século XVII. Serão apresentadas as quatro gerações da guerra moderna, suas características distintas e avanços que fizeram elevar à próxima geração, bem como os expoentes e fatos marcantes de cada fase. Apresentarão, também, as modalidades atuais da guerra moderna, notadamente a Guerra Assimétrica e suas componentes, tais como a “Guerra Híbrida” e suas nuances. Por fim, abordará as implicações para o futuro dos combates.

A seguir, a sexta parte.

Homenagem às vítimas do atentado de La Rambla, Barcelona, 2017.

  6. AS GERAÇÕES DA GUERRA MODERNA

 Os fatores que definem as Gerações da Guerra moderna são a combinação do uso de novas tecnologias (armamentos, meios de transportes, equipamentos e logísticas) e o seu emprego tático. A nova tecnologia pode alterar a tática bem como as necessidades táticas podem impulsionar novas tecnologias. Quando a tática é alterada e, ao mesmo tempo, são usadas novas tecnologias, temos uma nova geração da guerra.

6.1  A transição para a Guerra de Quinta Geração (5GW) 

Como sempre, as velhas gerações de guerra continuam a existir, mesmo enquanto novas formas evoluem. Hoje, podemos encontrar árduas batalhas de atrito com potência de fogo do tipo 2GW em partes da África ao mesmo tempo em que os primeiros sinais da 5GW emergem. Isto não deveria ser uma surpresa ― países que carecem de sistemas políticos, sociais e econômicos para sustentar novas formas de guerra continuarão a se utilizar das velhas formas (HAMMES, 2007: 23).

Desde o término da Segunda Guerra Mundial, existiram poucos confrontos de guerra regular, como A Guerra da Coréia; os conflitos árabe-israelenses em 1956, 1967 e 1973; a Guerra das Malvinas; a Guerra Irã – Iraque e a Guerra do Golfo. No entanto, o número de conflitos assimétricos está aumentando gradativamente, caracterizados pelo emprego intensivo de forças irregulares (PINHEIRO, 2007: 18).

O nível de organização dos grupos que empregam a guerra assimétrica, tanto em letalidade bem como espectro de atuação tem aumentado consideravelmente, deste modo a 4GW está evoluindo ou já podemos considerar a existência da 5GW?

O uso cada vez maior de companhias militares privadas para serem empregadas na guerra tem sido observado nos últimos vinte anos. Países resolvem o impasse do emprego militar contratando tais empresas para evitar represálias, críticas ou constrangimento internacional, ficando isentos da responsabilidade em caso de ações mal sucedidas. É a nova versão da Companhia das Índias Ocidentais ou das tropas mercenárias de antes de Westphalia, por exemplo.

No outro lado, os grupos independentes protagonistas da guerra assimétrica têm investido na utilização moderna dos meios de comunicação, não só apenas para divulgação da causa, mas principalmente para obterem meios econômicos e para o recrutamento de pessoal. Esse fator fica evidente na problemática atual conhecida como “Combatentes Estrangeiros”[1], onde estão aumentando o número de jovens recrutados em países diferentes ao local original dos grupos independentes.

A internet tem corroborado para este fenômeno ao aproximar as pessoas, que estão se tornando leais a uma “causa” e deixando de lado a lealdade a seu país. A causa é maior que a nação.

Outro aspecto é o tecnológico. A biotecnologia cada vez mais tem a capacidade de prover pequenos grupos de armas com poder de letalidade extremo, algo que há algumas décadas só era possível para as grandes potências mundiais. Alguns autores consideram os ataques com Antraz, nos EUA em 2001[2] como os primeiros ataques de 5GW.

Armas de destruição em massa nucleares era monopólio das grandes nações, por motivo do alto custo para produção, desenvolvimento e da própria infraestrutura operacional. A biotecnologia acabou com esse monopólio. Pequenos grupos têm acesso a potenciais armas por baixíssimo custo e sem necessidade de estruturas de manutenção.

Em 2001, um experimento chamado Dark Winter fez a simulação de uma epidemia de varíola em três cidades norte-americanas. Em treze dias ela teria atingido mais outros 14 países e matado mais de um milhão de pessoas[3]. Ou seja, qualquer grupo terrorista consegue criar uma epidemia em qualquer local do globo atualmente e disseminá-la por meio de vetores humanos que precisam somente viajar para os locais que são os objetivos.

Destarte, a 5GW é caracterizada pelo aumento considerável do poder de entidades pequenas, mas marcadas pela lealdade cega à sua causa, que extrapolam qualquer fronteira internacional e desafiam o poder das grandes nações. É calcada primordialmente na explosão tecnológica da era da informação, nos meios de comunicação em massa para o recrutamento de pessoal e disseminação de ideologias e na biotecnologia.

Muito em voga na atualidade, o termo conceitual “Ameaça Híbrida”, esteve restrito aos meios militares até 2014. Após a intervenção da Rússia na Ucrânia, a expressão se popularizou e se modificou para “Guerra Híbrida”, sendo consagrado pela mídia. É um conceito bastante antigo, usado desde os primeiros combates na antiguidade e foi “redescoberto” com o avanço tecnológico da última década. A expressão foi utilizada pela primeira vez, em 1948, pelo cientista político e historiador George F. Kennan[4], mas isso será tema aprofundado em artigos futuros.

 7. CONCLUSÃO

A 1GW utilizou-se da massa humana como fator principal, a 2GW se apropriou da capacidade industrial para construir armas; a 3GW vislumbrou a tecnologia mecânica na produção de armas mecanizadas e motorizadas. Chegando à 4GW, são usadas todas as variantes anteriores para se chegar à era da informatização e eletrônica em sua plenitude. A 4GW nivelou ainda mais os Estados com os grupos insurgentes, bem como eliminou qualquer fronteira política e social, a tornando cada vez mais difícil de ser controlada e combatida.

É impossível frear ou deter a evolução das guerras, mas as forças armadas devem se adaptar para combater nesse novo contexto, desconfortável para os militares.

Desde Westphalia, a guerra irregular sempre esteve em segundo plano para os soldados profissionais. O ápice sempre foi o caráter nacionalista de Estado contra Estado. Lutar contra uma insurreição, guerrilhas ou revoltas sempre foi considerado secundário para os estadistas e militares. No entanto, em meados do século XX, houve um incremento de importância para os conflitos irregulares, tornando a 4GW muito mais pesada nesta balança contra as guerras convencionais das gerações anteriores. Uma guerra total, aos moldes de Clauzewitz, de 2.ª ou 3.ª geração é praticamente inconcebível entre nações nos dias atuais. Não haveria apoio geral da opinião pública interna de cada contendor, bem como o desgaste econômico poderia fazer ruir todo um sistema nacional.

Deste modo os conflitos de 4GW em sua vertente histórica, a guerra irregular, e na vertente atual, guerra assimétrica, vêm assumindo o novo monopólio da guerra, principalmente no século XXI, e estamos, concomitantemente, acompanhando a consolidação da 5GW. Como já citado, as características de uma geração não eliminam e podem estar presentes em outra. A 4GW está convivendo com a 5GW. É uma evolução desta e pode ser interpretada como uma classificação para facilitar o entendimento da Guerra Assimétrica no pós-11 de setembro.

As características dos novos tempos estão presentes no entendimento de que os conflitos não são mais resolvidos somente no campo do poder militar. A 5GW assume a forma de principal tipo de combate na atualidade e deve ter aceitação pelos exércitos da importância de saber se preparar, adestrar e combater nessa modalidade, com predominância em operações convencionais limitadas.

Para tanto as lideranças mundiais, tanto militares quanto políticas têm que entender que o sucesso está atrelado a novas percepções da dimensão do combate: cooperação internacional; interligação de diversos organismos; saber lidar com a influência da mídia e organismos humanitários; adaptação do Direito Humanitário Internacional e readequação dos exércitos a esse novo combate, sem esquecer a função tradicional de dissuasão.

Deste modo, a História Militar cumpre seu papel de mostrar a evolução da arte da guerra, da gênese das gerações da guerra moderna aos conflitos assimétricos, podendo contribuir de forma preponderante para a definição de uma doutrina no momento mundial atual de conflitos assimétricos nas 4GW e sua atual vertente, a 5GW. O caminho delineado pela História Militar pode estar indicando a trilha do sucesso contra o terrorismo e, consequentemente, impulsionando a paz mundial. Aprender com os ensinamentos do passado é uma forma de acertar o futuro.

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Imagem:

 Homenagem às vítimas do atentado de La Rambla, Barcelona, 2017.

(Fonte):

Arquivo pessoal de Cristiano Rocha Affonso da Costa. Foto tirada pelo autor no dia seguinte ao atentado.

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Fenômeno conhecido originalmente como “Foreign Fighters”, no qual muitas pessoas são recrutadas por grupos terroristas, em outros países, após aderirem à causa.

[2] Ver:

Cartas enviadas pelo correio contaminaram 22 pessoas, causando 5 mortes.

[3] Ver:

Para mais informações ver o trabalho de Mark Mientka, “Dark Winter Teaches Bio Lessons”. Disponível em:

www.usmedicine.com

Acesso em 30 de novembro de 2017.

[4] Ver:

Foi o inspirador da Doutrina Truman e da política externa dos EUA, ao final da década de 1940 e o início da Guerra Fria.

Outras fontes consultadas

 HAMMES, Thomas X. A Guerra da Quarta Geração Evolui, A Quinta Emerge. Military review. Fort Leavenworth, edição brasileira, Setembro – Outubro, 2007.

PINHEIRO. Álvaro de Souza. O Conflito de 4.ª Geração e a Evolução da Guerra Irregular. Artigo Científico. PADECEME. Rio de Janeiro, n.º 16, 3.º quadrimestre, 2007.

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