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Evolução da Arte da Guerra – Das Gerações da Guerra Moderna aos Conflitos Assimétricos

Parte 5 – A Quarta Geração da Guerra Moderna

Este artigo, dividido em seis partes, pretende mostrar, por meio da história militar, a evolução da arte da guerra a partir do século XVII. Serão apresentadas as quatro gerações da guerra moderna, suas características distintas e avanços que fizeram elevar à próxima geração, bem como os expoentes e fatos marcantes de cada fase. Apresentará, também, as modalidades atuais da guerra moderna, notadamente a Guerra Assimétrica e suas componentes, tais como a “Guerra Híbrida” e suas nuances. Por fim, abordará as implicações para o futuro dos combates.

A seguir, a quinta parte.

Monumento Makamelchahid, erigido na Argel, em memória dos mortos na Guerra de Independência da Argélia.

5. AS GERAÇÕES DA GUERRA MODERNA

 Os fatores que definem as Gerações da Guerra moderna são a combinação do uso de novas tecnologias (armamentos, meios de transportes, equipamentos e logísticas) e o seu emprego tático. A nova tecnologia pode alterar a tática bem como as necessidades táticas podem impulsionar novas tecnologias. Quando a tática é alterada e, ao mesmo tempo, são usadas novas tecnologias, temos uma nova geração da guerra.

5.1 COMPONENTES DA GUERRA DE QUARTA GERAÇÃO

Para entender a 4GW é importante dominar os conceitos de suas componentes principais, a Guerra Irregular e a Guerra Assimétrica, observando que elas se mesclam em vários aspectos e são complementares entre si. Em muitas situações elas são exatamente iguais.

5.1.1 Guerra Irregular

Enquanto a guerra regular é aquela que é travada entre Exércitos de países organizados e estáveis, tem bem definida a separação entre civis e soldados e sua maior característica é o conflito entre Estados, a guerra irregular coloca o Estado frente a um grupo que quer derrubar um governo instituído, tomar o poder por via revolucionária ou impor uma ideologia. As forças irregulares contra as quais o Estado luta, têm por característica serem organizações não institucionalizadas, nacionais ou estrangeiras, dentro ou fora do território nacional[1]. Cabe ressaltar que a guerra irregular coexistiu com todas as gerações da guerra moderna.

O Exército Brasileiro adota a seguinte definição para a Guerra Irregular: “conflito armado executado por forças não regulares ou por forças regulares empregadas fora dos padrões normais da guerra regular, contra um governo estabelecido ou um poder de ocupação, com o emprego de ações típicas da guerra de guerrilhas[2]. Divide-se em guerra insurrecional e guerra revolucionária”.

Após a II GM, a maioria dos conflitos armados foi de guerras ‘irregulares’, como terrorismo, guerrilha, insurreição, movimentos de resistência. Interessante ressaltar que esse tipo de guerra não deixa claras as definições de campo de batalha, uniformes ou divisões territoriais, assim como, a diferença entre civis e soldados. A guerra irregular foi progressivamente substituindo as guerras convencionais.

Objetivos anteriores como destruição de forças inimigas, conquista e manutenção do terreno passam a ter valor secundário na guerra irregular, pois o principal agora é a conquista da opinião pública e o apoio às atividades dos grupos que lutam a guerra irregular. Toda a ação armada tem por finalidade, também, atingir um objetivo psicológico.

Existem ainda situações onde uma nação pode estar usando táticas de guerra de outras gerações enquanto uma força oponente pode estar em guerra irregular, como os soviéticos e os norte-americanos operando em 2GW. Os primeiros contra os afegãos no início dos anos 1980 e os segundos na Operação Anaconda, contra a al-Qaeda em 2002  (WILCOX & WILSON, 2004: 44).

Visacro (2009: 223-224) classifica a Guerra Irregular em cinco tipos, os três primeiros em aspectos jurídicos e os dois últimos em ideológicos. São eles:

1.º – Guerra de Independência: ou de libertação nacional. Forças locais lutam pela independência de seu próprio local perante colonizadores ou exploradores que detém o domínio político e militar. Exemplo: a guerra pela independência da Argélia contra os franceses entre 1954 e 1962.

2.º – Guerra Civil: de caráter não internacional e com raízes políticas, ideológicas, religiosas ou étnicas. Exemplo: Líbano, em 1975.

3.º – Guerra de Resistência: conduzido por nacionais contra uma força de ocupação estrangeira. Exemplo: Resistência Francesa durante a ocupação nazista na II GM.

4.º – Guerra Revolucionária: destinada à conquista do poder de forma violenta para a implantação de um novo sistema. Exemplo: Revolução Cubana, em 1959.

5.º – Insurreição: sublevação popular desprovida de caráter ideológico. Apenas calcada em reivindicações políticas, sociais ou econômicas. Exemplos históricos: Canudos (1896-1897) e Contestado (1912-1916) no Brasil.

Exemplos clássicos de Guerra Irregular são encontrados nos movimentos nacionais de libertação, exacerbados após o fim da Segunda Guerra Mundial, como na Argélia (1954-1962), entre outras, bem como a Guerra do Vietnã (1955-1975).

No Brasil, o exemplo mais marcante são os combates que o Exército Brasileiro travou contra os grupos guerrilheiros na guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 e 1976. Os comandantes de destacamento e alguns integrantes da guerrilha foram treinados em técnicas e táticas de guerrilha na China comunista de Mao Tse Tung durante a década de 1960, muito ainda antes da instauração do Regime Militar em 1964, voltando ao Brasil para iniciar o movimento em início dos anos 1970. O objetivo do movimento revolucionário no Araguaia era derrubar o Governo militar instituído no país desde 1964 e implantar no seu lugar um governo comunista maoísta (AUGUSTO, 2002: 218) (MORAIS & SILVA, 2005: 28-29, 34-43).

5.1.2  Guerra Assimétrica

O conceito de guerra assimétrica foi utilizado pela primeira vez no artigo Joint Warfare of the Armed Forces, da edição norte-americana de maio de 1955 da Military Review, para designar forças oponentes no campo de batalha em situações totalmente desiguais. Com o passar dos anos, esse conceito foi sendo desenvolvido até o seu significado atual, onde uma força armada regular, representando um Estado organizado e reconhecido enfrenta uma força adversa não vinculada a um governo instituído, usando técnicas não convencionais e não se prendendo a convenções e nem a valores morais ou éticos universais.

A guerra assimétrica, também, não assume um território ou zona de operações definidos, tal a guerra irregular. Seu espaço de ação pode ser qualquer lugar, independente de fronteiras políticas.

De todo o acima exposto, a Guerra Assimétrica está enquadrada nos conflitos de Quarta Geração.

A definição adotada pelo Exército Brasileiro para a Guerra Assimétrica é: “conflito armado que contrapõe dois poderes militares que guardam entre si marcantes diferenças de capacidades e possibilidades. Trata-se de enfrentamento entre um determinado partido e outro com esmagadora superioridade de poder militar sobre o primeiro. Neste caso, normalmente o partido mais fraco adota majoritariamente técnicas, táticas e procedimentos típicos da Guerra Irregular”.

Já a Marinha, em sua doutrina[3], adota a seguinte definição: “A guerra assimétrica  é  empregada, genericamente, por aquele que se encontra muito inferiorizado em meios de  combate, em relação aos de seu oponente. A assimetria se refere ao desbalanceamento  extremo de forças. Para o mais forte, a guerra assimétrica é traduzida como forma ilegítima de violência, especialmente quando voltada a danos civis. Para o mais fraco, é uma forma de combate”.

Após os atentados terroristas sofridos pelos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, além de mudanças na agenda de política de defesa dos países, há também a popularização da guerra assimétrica, tornando o conceito bastante conhecido. Definida, também, como guerra irregular em escala mundial, a maior mudança nas ações observadas são que os meios empregados na condução da guerra transcendem as atividades militares e deverá combinar todos os recursos à disposição e utilizá-los como meios para a condução da guerra. Manifesta-se com várias facetas[4]: guerra psicológica; guerra econômica; guerra com armamentos variados e improvisados; guerra química, radiológica, nuclear ou radioativa; guerra biológica, bacteriológica ou virótica; guerra cibernética ou eletrônica; cooperação civil-militar; crime organizado, entre outras. Tendo em vista que nesse tipo de conflito se busca atingir a moral do adversário, a guerra psicológica é preponderante, sempre usando técnicas de terror como atentados e sequestros.

O envolvimento de tropas brasileiras em combates durante as Operações de Imposição ou Manutenção da Paz no Haiti, principalmente nos primeiros contingentes, pode ser considerado de Guerra Assimétrica.

Ultimamente, o termo “Guerra Híbrida” vem ganhando destaque na mídia internacional. Na realidade, ela não se configura uma nova forma de guerra. Ela já faz parte da guerra irregular e da guerra assimétrica desde a Antiguidade. Houve esse novo incremento pelo uso maciço de novas tecnologias para se atingir objetivos antigos da guerra. Isso será melhor definido em uma série futura de artigos.

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Imagem:

Monumento Makamelchahid, erigido na Argel, em memória dos mortos na Guerra de Independência da Argélia.

(Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Independência_Argelina#/media/File:Makamelchahid.JPG

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Definição constante no Manual de Campanha EB70-MC-10.223 – Operações, do Exército Brasileiro, 2017.

[2] Ver:

A guerra de guerrilha é uma forma de guerra irregular que compreende as operações de combate executadas em território sob controle do inimigo, por forças predominantemente locais, de modo militar ou paramilitar, visando diminuir a eficiência do governo estabelecido nos campos político, econômico, psicossocial e militar (adaptado da definição do Exército Brasileiro).

[3] Ver:

Definição constante no manual Doutrina  Básica  da  Marinha  – EMA-305.  Estado ­ Maior  da  Armada. Marinha do Brasil: Brasília, 2004.

[4] Ver:

Essas facetas já são constantes na condução de uma Guerra Regular pelos Exércitos Nacionais, normalmente por tropas com características especiais (DQBN, Forças Especiais e Comandos).

 Referências Bibliográficas

 AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Rio de Janeiro: Bibliex, 2002.

MORAIS, Tais & SILVA, Eumano. Operação Araguaia – Os Arquivos Secretos da Guerrilha. São Paulo: Geração Editorial, 2005.

VISACRO, Alessandro. Guerra Irregular – Terrorismo, Guerrilha e Movimentos de Resistência ao Longo da História. São Paulo: Contexto, 2009.

____________ . O Desafio da Transformação. Military Review. Fort Leavenworth, edição brasileira, Março – Abril, 2011.

WILCOX, Greg & WILSON, G. I. Resposta Militar à Quarta Geração de Guerra no Afeganistão. Military Review. Fort Leavenworth, edição brasileira, 1 quarter 2004.

EXÉRCITO BRASILEIRO. Manual de Campanha EB70-MC-10.223 – Operações. Ministério da Defesa, 5.ª ed., 2017.

Joint Warfare of the Armed Forces, Military Review. Fort Leavenworth, edição norte-americana, Maio, 1955.

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