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Evolução da Arte da Guerra – Das Gerações da Guerra Moderna aos Conflitos Assimétricos

Parte 3 – A Terceira Geração da Guerra Moderna

Este artigo, dividido em seis partes, pretende mostrar, por meio da história militar, a evolução da arte da guerra a partir do século XVII. Serão apresentadas as quatro gerações da guerra moderna, suas características distintas e avanços que fizeram elevar à próxima geração, bem como os expoentes e fatos marcantes de cada fase. Apresentará, também, as modalidades atuais da guerra moderna, notadamente a Guerra Assimétrica e a Guerra Híbrida e suas nuances. Por fim, abordará as implicações para o futuro dos combates.

A seguir, a terceira parte.

Combinação de Tanques e Infantaria Mecanizada e Blindada.

3. AS GERAÇÕES DA GUERRA MODERNA

Os fatores que definem as Gerações da Guerra moderna são a combinação do uso de novas tecnologias (armamentos, meios de transportes, equipamentos e logísticas) e o seu emprego tático. A nova tecnologia pode alterar a tática bem como as necessidades táticas podem impulsionar novas tecnologias. Quando a tática é alterada e, ao mesmo tempo, são usadas novas tecnologias, temos uma nova geração da guerra.

 3.1 A Terceira Geração da Guerra Moderna (3 GW)

Essa geração foi desenvolvida pelo Exército Alemão no período anterior à Segunda Guerra Mundial (II GM) e ficou conhecida como blitzkrieg (Guerra Relâmpago)[1], ou guerra de manobra. Conscientes de que não tinham uma indústria bélica forte, por causa das limitações impostas pelo Tratado de Versalhes[2] após a Primeira Guerra Mundial (I GM), os alemães desenvolveram táticas radicalmente novas.

Os alemães, como resultado dos termos de paz, tiveram de formar novo exército, e as tradições do velho Exército Imperial ficaram deliberadamente no esquecimento. Eles fizeram de 1918 o seu ponto de partida. Embora tivessem usado muito pouco o tanque, eles conheciam perfeitamente suas possibilidades. Leram atentamente os escritos dos entusiastas britânicos e franceses do tanque, Fuller, Hobart, Liddel Hart e Martel, coisa que seus conterrâneos não o fizeram. Combinando o conceito do plano 1919 com suas próprias técnicas de infiltração, e usando máquinas que eram agora mecanicamente seguras, eles produziram a Blitzkrieg – guerra relâmpago que seria seu instrumento da vitória na Europa nos anos de 1939-1942 (MESSENGER, 1978).

Não era baseada no poder de fogo e no atrito, mas sim na combinação do poder de fogo moderno, velocidade, na surpresa e na manobra. O ataque procura atingir, não somente toda a frente, mas também à retaguarda do inimigo, procurando eliminar a logística de apoio. A defesa, por sua vez, procura atrair o inimigo para então cortar-lhe a retirada. A guerra deixa de ser frontal empurrando ou segurando as forças no terreno. Agora ela é não linear. Segundo Lind (2005), taticamente, o Exército de 3.ª Geração busca entrar na retaguarda do inimigo e, assim, recolhê-lo de trás para frente. Em vez de ‘fechar e destruir’, o lema é ‘desviar e entrar em colapso’.

As armas passam a agir de forma combinada, potencializando seu poder de combate. Isso se estende para as forças terra-ar também. A manobra assume vertentes com diversas variantes e a iniciativa aumenta de importância. Compreender a “intenção do comandante”[3] passou a ser fundamental, o que significava ter liberdade de ação e iniciativa para o subordinado poder adaptar planejamentos e eventuais oportunidades. Nesta fase, quando se fala de planejamento e de batalha, a maior preocupação recaía sobre o objetivo e não mais sobre o processo. Assim, os comandantes das “Divisões Panzer” tinham vários comandos subordinados, cada um capaz de controlar e coordenar os diferentes sistemas de armas combinadas (HOUSE, 2008).

Não são apenas as táticas que mudam, mas muda a cultura militar. A disciplina imposta foi substituída pela autodisciplina. Em realidade foi novamente quebrada a cultura da ordem no campo de batalha.

Buscou-se a aproximação indireta para a destruição do inimigo. A Guerra de Manobra, ao contrário da Guerra de Atrito, visa incapacitar o poder de combate do oponente, com a obtenção de uma posição vantajosa e evitando ir ao encontro do conflito direto. O essencial era a ação exercida na retaguarda, sob qualquer de suas formas (HART, 2005).

O desenvolvimento tecnológico dos tanques, com o aumento da autonomia, poder de fogo, velocidade e blindagem, propiciou que estes executassem o rompimento das linhas de defesa inimigas e atingissem em profundidade o dispositivo. Esse avanço possibilitou executar o Aproveitamento do Êxito[4] e a Perseguição[5] dentro do território inimigo com mais velocidade e alcance. Também, a evolução dos aviões proporcionou o ataque às linhas de retaguarda e suprimentos, facilitando a destruição do apoio logístico inimigo.

Alguns nomes podem ser citados como desenvolvedores desta geração, como os pioneiros na Grã-Bretanha J. F. C. Fuller e Liddell Hart, no pós I GM, mas o expoente maior da guerra de Terceira Geração e do desenvolvimento dessa doutrina é o general alemão Heinz Guderian, que adotou a teoria inicial inglesa e a desenvolveu de forma completa. Guderian sofreu resistência inicial na Alemanha, mas o sucesso indiscutível obtido na conquista da Polônia em setembro de 1939 e na invasão da França em 1940, fez com que suas ideias fossem plenamente aceitas. Seu pensamento pode ser acompanhado nos livros Achtung Panzer e Panzer Leader, editados antes da II GM, onde se tem a primeira formulação da Guerra Relâmpago alemã. No entanto, quem colocou em prática as ideias de Guderian foi o general Manstein, ao planejar as invasões citadas.

Exemplos de conflitos de terceira geração, além da citada Segunda Guerra Mundial (específico para a Blitzkrieg alemã, já que os aliados só vieram a utilizar a 3GW com a adoção das táticas alemãs pelos norte-americanos e, posteriormente, com os russos na sua “Batalha Profunda”), são a Guerra dos Seis Dias[6] (1967) e a Guerra do Golfo[7] (1990-1991).

A Guerra de Terceira Geração ainda se constitui na forma completa de combate entre Exércitos de nações constituídas.

O Brasil não entrou em nenhum conflito em que tivesse condições ou oportunidade de emprego da guerra de Terceira Geração.

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Imagem:

Combinação de Tanques e Infantaria Mecanizada e Blindada.

(Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Blitzkrieg#/media/File:Bundesarchiv_Bild_101I-218-0504-36,_Russland-S%C3%BCd,_Panzer_III,_Sch%C3%BCtzenpanzer,_23.Pz.Div..jpg

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Fontes consultadas:

 [1] Ver:

O termo “Blitzkrieg”, ao contrário do que muitos pensam, não foi cunhado pelos alemães. A primeira referência apareceu nos jornais ingleses aquando da invasão da Polônia, em setembro de 1939, para identificar aquele novo tipo de manobra de guerra.

[2] Ver:

O Tratado de Versalhes foi assinado ao fim da IGM e impunha pesadas e humilhantes restrições aos alemães, entre elas a perda de territórios, pagamento de pesadas indenizações, proibições de possuir tanques e aviões de guerra, limitações de efetivos militares e redução drástica da Marinha em pessoal e material.

[3] Ver:

Compreender a “Intenção do Comandante” significa saber qual o objetivo a ser atingido ao final do combate. O que importa é atingir o objetivo e não a forma a ser usada para tal.

[4] Ver:

O Aproveitamento do Êxito é um dos cinco tipos de Operações Ofensivas, normalmente lançado em sequência a um ataque bem sucedido e caracterizado por avanço rápido e contínuo quando o inimigo tem dificuldade em manter suas posições. Procura, além da conquista do terreno, evitar que o inimigo tenha capacidade de reorganizar-se (Manual de Campanha C 100-5 – Operações – Exército Brasileiro).

[5] Ver:

A Perseguição é uma operação ofensiva que visa cercar e destruir uma força inimiga. É lançada após o Aproveitamento do Êxito. Seu objetivo é a destruição da capacidade de combate do inimigo (Manual de Campanha C 100-5 – Operações – Exército Brasileiro).

[6] Ver:

A Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967, opôs Israel a uma frente de países árabes compostos por Egito, Jordânia e Síria.

[7] Ver:

A Guerra do Golfo (19901991) foi motivada pela invasão e anexação do Kuwait pelas forças do Iraque do ditador Saddam Hussein. A ONU, por intermédio de seu Conselho de Segurança, autorizou o emprego de uma força militar de Coalizão Internacional (Estados Unidos, Reino Unido, Arábia Saudita, Canadá, entre outros) para libertar o Kuwait.

Referências Bibliográficas

 HART, Basil Henry Liddell. As Grandes Guerras da História. São Paulo, IBRASA, 2005.

HOUSE, Jonathan M. Combinação das Armas – A Guerra no Século XX. Rio de Janeiro: Bibliex, 2008.

LIND, Willian S. Compreendendo a Guerra de Quarta Geração. Military Review. Fort Leavenworth, edição brasileira, Janeiro – Fevereiro, 2005.

MESSENGER, Charles. A Guerra de Trincheiras. Rio de Janeiro: Renes, 1978.