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Evolução da Arte da Guerra – Das Gerações da Guerra Moderna aos Conflitos Assimétricos

Parte 2 – A Segunda Geração da Guerra Moderna

Este artigo, dividido em seis partes, pretende mostrar, por meio da história militar, a evolução da arte da guerra a partir do século XVII. Serão apresentadas as quatro gerações da guerra moderna, suas características distintas e avanços que fizeram elevar à próxima geração, bem como os expoentes e fatos marcantes de cada fase. Apresentará, também, as modalidades atuais da guerra moderna, notadamente a Guerra Assimétrica e a Guerra Híbrida e suas nuances. Por fim, abordará as implicações para o futuro dos combates.

A seguir, a segunda parte.

Reprodução do quadro original “La Deuxiéme Bataille d’Ypres” (1917), de autoria do artista canadense Richard Jack (1866-1952).

2 AS GERAÇÕES DA GUERRA MODERNA

Os fatores que definem as Gerações da Guerra moderna são a combinação do uso de novas tecnologias (armamentos, meios de transportes, equipamentos e logísticas) e o seu emprego tático. A nova tecnologia pode alterar a tática bem como as necessidades táticas podem impulsionar novas tecnologias. Quando a tática é alterada e, ao mesmo tempo, são usadas novas tecnologias, temos uma nova geração da guerra.

 2.1 A Segunda Geração da Guerra Moderna (2 GW)

A 2GW foi a evolução da tática perante as novas tecnologias bélicas da época. Abrange o período de fins do Século XIX até após a Primeira Guerra Mundial (I GM). Seu maior desenvolvedor foi o Exército Francês. A guerra de segunda geração intensificou o fogo concentrado, a maior parte dele de Artilharia com seus fogos indiretos.  O objetivo era o atrito e a doutrina era baseada em linhas defensivas fortes em virtude das armas automáticas com grande cadência de fogo. Essas armas eram extremamente propícias para aparelhar qualquer sistema de defesa estática com grande eficiência.

O poder de fogo era cuidadosamente sincronizado aos planos e ordens detalhados e específicos da Infantaria, Cavalaria (inicialmente a cavalo e, posteriormente, com carros de combate, mas estes ainda empregados de forma secundária) e Artilharia. O sincronismo tinha que ser total, com ação de comando forte e trazendo novamente a cultura da ordem. A obediência sobrepunha-se à iniciativa em virtude da sincronização. A disciplina era vertical, hierarquizada, imposta.

Segundo Paiva (2010: 82), “os procedimentos eram rígidos e a disciplina prevalecia sobre a iniciativa”. Assim, o planejamento era rebuscado, mas limitava a criatividade e a busca de alternativas durante o combate. Ainda, Paiva cita que a “guerra era estática e de atrito. O atacante ‘empurrava a linha’ e o defensor ‘segurava a linha’, pois não havia mobilidade para envolver e cercar”. Deste modo a guerra parava no local, criando impasse de ordem operacional, mas que se desdobravam em problemas de logística, como a situação de saúde agravada pelas baixas condições de higiene e profilaxia que a guerra estática atrai. Isto criava um fator de baixas altíssimo, mas independente de ações do inimigo.

Armas e equipamentos foram criados e/ou aperfeiçoados, em especial o canhão, o fuzil e a metralhadora, resultando numa supremacia do fogo sobre o movimento. No final desse período começaram a surgir os blindados e a aviação, que levou à próxima geração da guerra moderna. Apesar do uso dos aviões e tanques na Primeira Guerra Mundial, estes não foram empregados de forma decisiva no combate, em virtude da doutrina de emprego ainda em desenvolvimento ou precária, bem como as limitações tecnológicas por serem inventos recentes. Nesse período, a estrada de ferro também tomou vital importância para a melhoria no transporte das tropas e de equipamentos pesados (WILCOX &WILSON, 2004: 38).

Um dos grandes vultos militares deste período foi o marechal Helmuth von Moltke, “o Velho”, defensor de um planejamento mais flexível, que incentivasse a iniciativa e fortemente calcado na mobilização em massa e na logística, apoiada fortemente pelas ferrovias. Suas ideas eram, de certa forma, avançadas para esta fase, especialmente no que tange à iniciativa em todos os níveis de comando, o que o tornou um dos líderes militares, táticos e estrategistas estudados pelos expoentes da 3GW. Moltke era profundo conhecedor de Napoleão e Clauzewitz, porém não os seguia cegamente, adaptando às novas possibilidades tecnológicas (FULLER, 2002: 112). Moltke foi o grande estrategista na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), ponto de partida para a criação do Império Alemão. Ele revolucionou, também, ao usar o telégrafo para agilizar a transmissão de ordens, mas defendia que, após iniciada a batalha, o volume de ordens deveria ser mínimo. Os prussianos tinham a capacidade de aprender com seus erros do passado, não repeti-los e alterar suas ações a partir daí (MACNEILL, 2014: 301).

Como exemplos de batalhas famosas desta fase destaca-se Ypres (1914), com baixas elevadíssimas e que iniciou o sistema de trincheiras ao opor frente a frente o Exército Alemão aos aliados franceses, ingleses e belgas, os quais não conseguiam (ambos) romper as linhas dos inimigos; Somme (1916), foi o primeiro emprego de tanques da história (apenas 49 unidades do modelo Mark I), apesar da forma equivocada de uso, agindo como apoio à Infantaria e Cambrai (1917), a primeira batalha da história em que os tanques lideraram a ofensiva (476 unidades do modelo Mark IV). Todas na I GM (WILLMOTT, 2008: 61-63, 158-167, 220-223).

Em Cambrai, os britânicos finalmente mostraram que o tanque de guerra poderia resolver o impasse das guerras de trincheira na Frente Ocidental. Os tanques chegaram para vencer as guerras, mudando o aspecto delas para sempre. (CAWTHORNE, 2010: 180).

As operações executadas pelo Exército Norte-Americano na Guerra do Vietnã, entre  1965 e 1973, são consideradas, taticamente, como de 2GW.

No Brasil, as operações da FEB (Força Expedicionária Brasileira), na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial (II GM) são consideradas de 2GW. Apesar dos alemães já estarem empregando a 3GW, as tropas brasileiras ainda combatiam calcadas na segunda geração. Na frente italiana, os alemães também não dispunham de meios para combater em terceira geração. Alguns fatores contribuíram para isto, como a ainda forte influência da Missão Militar Francesa[1] na doutrina brasileira e, principalmente, pela falta de equipamentos adequados para combater em terceira geração, como tanques e aviões. Os blindados da FEB estavam restritos ao Esquadrão de Cavalaria, que só tinha condições plenas de executar operações de reconhecimento e a Força Aérea não tinha como operar em apoio direto ao combate.

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 Imagem:

 Reprodução do quadro original “La Deuxiéme Bataille d’Ypres” (1917), de autoria do artista canadense Richard Jack (1866-1952).

(Fonte):

http://www.archives.gov.on.ca/en/explore/online/war_artists/big/big_37_2nd_battle.aspx

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Missão de instrução militar, por oficiais do Exército Francês, que funcionou de 1920 até 1940 no Rio de Janeiro, com a finalidade de modernizar o Exército Brasileiro e direcionar o funcionamento de novas escolas e unidades. Na II Guerra Mundial, a doutrina francesa, essencialmente defensiva, estava ultrapassada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História – Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. São Paulo: MBooks, 2010.

FULLER, J. F. C. A Conduta da Guerra. Rio de Janeiro: Bibliex, 2002.

MCNEILL, Willian H. Em Busca do Poder. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2014.

PAIVA, Luiz Eduardo Rocha. Guerras de Quarta Geração ou Mais uma Falácia Travestida de Sapiência? In: JOBIM, Nelson; ETCHEGOYEN, Sérgio & ALSINA, João Paulo. Segurança Internacional: Perspectivas Brasileiras. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.

WILCOX, Greg. WILSON, G. I. Resposta Militar à Quarta Geração de Guerra no Afeganistão. Military Review. Fort Leavenworth, edição brasileira, 1 quarter 2004.

WILLMOTT, H. P. Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.