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Evolução da Arte da Guerra – Das Gerações da Guerra Moderna aos Conflitos Assimétricos

Parte 1 – Primeira Geração da Guerra Moderna

Este artigo, dividido em seis partes, pretende mostrar, por meio da história militar, a evolução da arte da guerra a partir do século XVII. Serão apresentadas as quatro gerações da guerra moderna, suas características distintas e avanços que fizeram elevar à próxima geração, bem como os expoentes e fatos marcantes de cada fase. Apresentará, também, as modalidades atuais da guerra, notadamente a Guerra Assimétrica e a Guerra Híbrida e suas nuances. Por fim, abordará as implicações para o futuro dos combates.

Cena da Batalha de Borodino, 1812, durante as Guerras Napoleônicas.

1 INTRODUÇÃO

A Guerra dos Trinta Anos[1] é o ponto de partida para a definição da guerra moderna. O Tratado da Paz de Westphalia, que selou o fim do conflito em 1648 coloca, a partir de sua assinatura, o Estado como mentor e executor na guerra. Anteriormente, muitas entidades diferentes entravam em combate: famílias, senhores feudais, nobres, tribos, religiões, cidades, reis e empresas, usando diversos meios, não somente exércitos e marinhas (LIND, 2005: 12).

Os acordos firmados no tratado propiciaram, por meio de consenso, o início da configuração moderna do Estado, trazendo as noções de soberania nacional e de Estado Nação. Com o aumento gradativo do monopólio da guerra pelo Estado, temos o divisor histórico para que as guerras travadas a partir deste ponto sejam consideradas “Guerra Moderna”.

A Guerra dos Trinta Anos causou tantos danos e foi extremamente “bárbara” que houve, a partir do seu fim, a distinção entre militar e civil[2]. Somado a isto, o esgotamento da população e a escassez de recursos nos países da Europa eram tão grandes que os novos exércitos permanentes tinham que ser reduzidos. O exército tomou a forma de uma corporação disciplinada e composta de elementos recrutados por um período longo de serviço, que tinham sua conduta controlada firmemente na paz e na guerra.

 … a Guerra dos Trinta Anos é tida como a causa da morte de algo entre 4 e 7 milhões de pessoas, até 1648. A repugnância popular ao comportamento dos exércitos mercenários foi tão grande que ajudou a criar os exércitos permanentes, em geral, mais bem disciplinados (CUMMINS, 2010: 125).

Outro fator que mudou no período foi a observação que a guerra travada sem a busca pelo combate frontal e usando cercos era melhor, pois não causavam baixas, evitando os problemas da conscrição[3]. Essa nova forma foi chamada de “guerra limitada”.

As médias de mortalidade nos combates frontais eram muito altas e, de certa forma, inaceitáveis. Tal fato era extremamente oneroso e criava problemas sociais, pois estes efetivos tinham que ser repostos. Desse modo, era vantajoso exaurir as riquezas do inimigo ao invés de destruí-lo. O princípio base era o desgaste. Segundo bem explica Fuller (2002: 25), “o dinheiro, e não o sangue era o fator decisivo e, quando por meio de manobras contínuas… o tesouro do inimigo começava a secar, este, antes de enfrentar a ruína completa, buscava uma paz negociada”. O marechal de Saxe, em sua obra Reveries (1757), também expressou sua opinião sobre as técnicas de desgaste: “Nada enfraquece mais o inimigo, quanto esta maneira de agir; nada proporciona tantas vantagens”.

Com o advento da Revolução Francesa, houve o retorno gradativo à “Guerra Total”[4], buscando o combate direto e a destruição do inimigo. Com a diferença que o povo, por meio da conscrição, tomava o lugar do soldado mercenário dos exércitos reais.

Todos estavam envolvidos. Sintetizando o pensamento do marechal Foch em sua obra Os Princípios da Guerra, a era das guerras nacionais iriam atingir um nível desenfreado, pois empregariam todos os recursos da nação, mas para a defesa de ideias filosóficas, de onde surgem as paixões[5].

Todos estes fatores citados, a guerra limitada, o retorno à guerra total, a defesa de ideias filosóficas e ideológicas, aliados aos avanços tecnológicos foram modificando a guerra moderna, fazendo com que tivéssemos diferenças de meios, emprego e táticas que fasearam o estudo do período.

Com base neste pressuposto, uma equipe composta por Willian Sturgiss Lind, coronel Willian Nightengale, coronel Joseph W. Sutton, tenente-coronel Gary I. Wilson e o capitão John F. Schimidt desenvolveu o trabalho conjunto “The Changing Face of War: Into The Fourth Generation”, publicado em 1989, que definiu a Guerra Moderna e sua divisão em quatro gerações. A divisão em gerações distintas não isenta que características de uma geração sejam encontradas em conflitos de outra. Lind e sua equipe basearam a divisão em características marcantes como premissa:

– 1.ª Geração (1GW)[6]: Utilização da Massa

– 2.ª Geração (2GW): Concentração do Poder de Fogo

– 3.ª Geração (3GW): Manobra

– 4.ª Geração (4GW): Conflitos irregulares e assimétricos

Os fatores que definem as Gerações da Guerra moderna são a combinação do uso de novas tecnologias (armamentos, meios de transportes, equipamentos e logísticas) e o seu emprego tático. A nova tecnologia pode alterar a tática bem como as necessidades táticas podem impulsionar novas tecnologias. Quando a tática é alterada e, ao mesmo tempo, são usadas novas tecnologias, temos uma nova geração da guerra.

 2  A Primeira Geração da Guerra Moderna (1 GW)

Segundo o trabalho da equipe de Lind (1989), a 1GW tinha o campo de batalha ordenado e está cronologicamente colocada entre 1648 e 1860. Esta geração tem sua importância no fato de que o campo de batalha ordenado criou a cultura militar de ordem. As representações militares e suas características, que distinguem o militar do civil, tais como uniformes, continências, graus hierárquicos, ordem unida, formaturas, entre outros, são produtos da primeira geração, com a intenção de reforçar a cultura da ordem e primordiais para o comando e controle nas batalhas da época.

A tática desenvolvida priorizava o esforço principal na concentração da massa de combate no local e momento decisivos no campo de batalha. Era uma guerra de linha e coluna cujas batalhas eram formais e lineares em frente e profundidade, sendo relativamente estruturadas, dentro das possibilidades dos meios de comando e controle (transmissão das ordens) da época.

Em meados do século XIX, o campo de batalha começou a se desordenar onde era ordenado (na disposição tática) e a se ordenar onde era desordenado (no campo pessoal). A contradição na cultura militar passou a ser necessária. A disciplina e a ordem, características militares, passaram a ter importância no campo da formação da personalidade militar e a desordem controlada no campo de batalha passava a ser fator específico da manobra. A cultura da ordem que já foi coerente com o ambiente em que operava, tornou-se cada vez mais em desacordo com ele (LIND, 2005: 12).

Ao contrário do século XVIII, onde havia altos índices de deserção entre os soldados, o sentimento de nação, recém-incorporado após Westphalia, passou a motivar os combatentes.

Os expoentes militares do período são Frederico, O Grande, da Prússia, e Napoleão Bonaparte, da França.

Exemplos da Guerra de 1.ª Geração são vistos na Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763), entre a Prússia de Frederico e seus adversários, Áustria, Rússia e França, nos batalhas de Rossbach (1757), Zorndorf (1758) e Kunersdorf (1759).

Mas o ápice da geração veio nas campanhas napoleônicas, nas famosas batalhas antagônicas de Austerlitz (1805), onde Napoleão mostrou sua genialidade derrotando a Coalizão Rússia, Áustria e Grã-Bretanha (BEAN, in Holmes. Pimlott, 2007: 176-188) e em Waterloo (1815), onde Napoleão foi derrotado pelos aliados comandados pelo general Wellington e pelos prussianos comandados por Blücher (BARR, in Holmes. Pimlott, 2007: 98-111).

Outra contenda famosa do período é a batalha de Balaklava, na campanha da Crimeia em 1854, conhecida como “A carga da Brigada ligeira”. Após este conflito, entrou a transição para a próxima geração da Guerra Moderna:

Desde então a glória e o drama de Balaklava deram lugar a uma guerra de atrito entre exércitos entrincheirados, presságio dos horrores da Frente Oeste na Primeira Guerra Mundial. A carga ficou parecendo coisa de antigamente, romântica, velha (LAMBERT, in Holmes. Pimlott 2007: 123).

A centralização excessiva, que inicialmente foi o diferencial das táticas de Napoleão, transformou-se na sua derrocada, pois os comandantes adversários começaram a tirar proveito da falta de iniciativa nos vários escalões de combate franceses, causada por essa centralização. Somada aos avanços tecnológicos, a guerra caminhava a passos largos para a segunda geração.

O advento das novas tecnologias de armamentos, tal qual mosquetes raiados e, mais tarde, armas de retrocarga e metralhadoras, com maior alcance e cadência de fogo, tornaram as táticas antigas de linha e coluna primeiro obsoletas, e logo suicidas. O ataque frontal passava a ser insustentável. As batalhas de Gettysburg, na Guerra de Secessão nos Estados Unidos ,em 1863, e diversas outras durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), com pesadas baixas, mostraram que uma nova fase estava para nascer. Combater daquela forma estava se tornando inviável (PAULA, 2010: 65). Um longo processo até a nova geração se iniciava.

Para o Brasil, temos exemplos de conflitos de 1GW as batalhas travadas na Caiena (Guiana Francesa), em 1809, que envolveram tropas luso-brasileiras, apoiados por ingleses contra os franceses. Esse conflito não teve importância estratégica e o território conquistado foi devolvido aos franceses em 1817 (SOUBLIN, 2010: 122), mas atendeu ao propósito de represália à invasão de Portugal pela França, que havia forçado a vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil, em 1808 e, dessa forma, atestando a autenticidade da Coroa Portuguesa na América do Sul.

Algumas manobras na Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), empreendidas pelas tropas brasileiras podem ser citadas. Um bom exemplo é descrito pelo visconde Taunay, na obra A Retirada da Laguna[7], quando as tropas brasileiras utilizavam as técnicas defensivas do “quadrado” para se antepor às incursões da cavalaria paraguaia.

Importante notar, que as nações que aderiram mais rápido a essas mudanças para a Segunda Geração dominaram (ou colonizaram) com certa facilidade outros países, mesmo muito maiores, caso da Grã-Bretanha em relação à Índia (WILCOX &WILSON, 2004: 38).

A Parte 2, na próxima publicação desse artigo, abordará a Segunda Geração da Guerra Moderna (2GW).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.

FULLER, J. F. C. A Conduta da Guerra. Rio de Janeiro: Bibliex, 2002.

HOLMES, Richard & PIMLOTT, John (Org). Atlas Hutchinson de Plano de Batalhas. Rio de Janeiro: Bibliex, 2007.

LIND, Willian S. Compreendendo a Guerra de Quarta Geração. Military Review. Fort Leavenworth, edição brasileira, Janeiro – Fevereiro, 2005.

PAULA. Luis Carlos Carneiro de (Org). História Militar Geral II: As Guerras de Napoleão ao Século XXI. Palhoça: Unisulvirtual, 2010.

SOUBLIN, Jean. Caiena 1809. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2010.

TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. A Retirada da Laguna. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2006.

WILCOX, Greg & WILSON, G. I. Resposta Militar à Quarta Geração de Guerra no Afeganistão. Military Review. Fort Leavenworth, edição brasileira, 1 quarter 2004.

Joint Warfare of The Armed Forces, Military Review. Fort Leavenworth, edição norte-americana, Maio, 1955.

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Imagem:

Cena da Batalha de Borodino, 1812, durante as Guerras Napoleônicas.

(Fonte):

https://www.pinterest.pt/pin/363243526174184245/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) foi desencadeada por diferenças religiosas que opôs protestantes e católicos na disputa por poder e territórios na Europa. O Sacro Império Romano e a Espanha, católicos, contra os protestantes da Boêmia, Dinamarca e a Suécia. A França e a Holanda apoiaram os protestantes por motivos de Estado.

[2] Ver:

Até então os efetivos militares eram compostos principalmente de mercenários, sem comprometimento com valores éticos e morais. Após esse período, com a conscrição, esses valores começaram a ser incorporados à disciplina (Nota do autor).

[3] Ver:

Conscrição era o ato de o indivíduo ser convocado para servir aos exércitos. A partir da Revolução Francesa apareceram normas regulando a participação obrigatória por um tempo determinado (conscrição universal).

[4] Ver:

O Estado como um todo, incluindo principalmente sua população, participam do esforço de guerra. Os homens jovens deverão lutar, os casados forjarão as armas e transportarão os suprimentos, as mulheres confeccionarão tendas e uniformes e servirão nos hospitais, os meninos transformarão a roupa branca em bandagem, os velhos serão levados às praças públicas para elevar o moral dos combatentes e pregar a unidade da República e o ódio aos reis.”, Trecho da Convenção da Revolução Francesa, de 23 de agosto de 1793.

[5] Ver:

Escrito pelo marechal francês Ferdinand Foch em 1903, o livro reúne em coletânea as conferências pronunciadas na Escola Superior de Guerra, em Paris.

[6] Ver:

Do inglês Generation War – 1GW (First Generation War – Primeira Geração da Guerra), assim sucessivamente até a 5GW (Fifth Generation War). Essa terminologia será usada ao longo deste artigo.

[7] Ver:

Publicado em 1872, retratava o dia a dia das tropas brasileiras da Expedição em Operação no Sul do Mato Grosso, desde Laguna, na fronteira do Paraguai, até o Rio Aquidauana, durante a Guerra da Tríplice Aliança em 1867. No total, desde a partida no Rio de Janeiro, em 1865, a expedição percorreu mais de 2000 Km e dos mais de 3000 integrantes, somente 700 sobreviveram.