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A Nova Turquia

Neste meu primeiro artigo, gostaria de apresentar a vocês dois portais de notícias de fontes independentes, das quais podem ser encontradas informações atuais (e inacreditáveis) dos acontecimentos na Nova Turquia. Quando falamos sobre a Turquia, logo aparece um sorriso e simpatia nos rostos dos brasileiros. O mesmo acontece com os turcos quando se fala sobre o Brasil. A Turquia, principalmente depois da novela Salve Jorge, tornou-se um dos destinos turísticos dos brasileiros até 2015. Sua história milenar, hospitalidade, gastronomia, a chaminé das fadas da Capadócia, a Mesquita Azul, a Hagia Sophia, a Avenida Istiklal, de Istambul, as ruínas de Éfeso e a Casa da Virgem Maria são os principais. Quem visitava a Turquia, ficava muito emocionado e tocado por ver e estar nos locais apenas conhecidos nos livros de história no Brasil. Conheci muitas pessoas que fizeram uma segunda ou terceira viagem para a Turquia.

Cartaz anti-Erdoğan durante os protestos no Gezi Park, 2013, em Colônia, na Alemanha.

É do conhecimento de todos a importância, para os turcos, da figura de Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Após o colapso do Império Otomano, ele foi o mentor da construção da identidade nacional turca. Entre outros feitos, a abolição do Califado, o abandono do alfabeto árabe, a introdução de estilo de vida ocidental, o laicismo de linha dura, o controle total das atividades religiosas, a criação de uma religião civil, a exclusão dos alevitas, a exclusão da identidade curda e o marcante nacionalismo turco, os golpes militares e uma democracia frágil são importantes legados de Atatürk e de sua ideologia kemalista, institucionalizada pelas Forças Armadas. Dos 94 anos da República turca (1923-2017), 56 anos foram governados por presidentes de origem militar (Atatürk, Inonu, Gursel, Sunay Koruturk, Evren), 17 anos por dois presidentes civis, porém  kemalistas (Bayar e Sezer), ou seja, 73 anos da recente história turca foram dominados pela ideologia kemalista. Por isso, não se deve estranhar a presença tão marcante de Atatürk de ponta a ponta na Turquia.

Desde 2002, uma nova história da Turquia está sendo escrita por Recep Tayyip Erdoğan, fundador do partido islamista AKP e atual presidente turco. Ao contrário do pragmatismo de Atatürk, Erdoğan é extremamente populista e oportunista. Até 2011, ele fez boas reformas e acelerou a economia, mas em algum momento, por algum motivo, ele resolveu mudar o caminho. Erdoğan “pegou o ônibus da democracia” no sentido da União Europa e dos valores ocidentais, contudo desceu na estação da nostalgia do novo Império Otomano e sonha ser o novo califa dos muçulmanos do mundo inteiro. Ele é, paradoxalmente, o protetor dos refugiados sírios e fornecedor bélico dos grupos terroristas na Síria. Ergue o Alcorão nos comícios do partido, embora considere a corrupção e a lavagem de dinheiro algo lícito. É defensor da democracia e dos direitos humanos, porém autor do “teatro” de 15 de julho de 2016 (golpe militar), caçador dos curdos, dos seguidores do clérigo Fethullah Gülen e dos jornalistas. Desde o suposto golpe militar, Erdoğan administra a Turquia sob o regime do Estado de Emergência.

Gostaria de apresentar o portal de notícias turkeypurge (https://turkeypurge.com/pt-pt/), fundado por jornalistas independentes que revelam o tamanho inacreditável do expurgo, da tortura e da perseguição realizados por Erdoğan. Conforme o turkeypurge, desde os acontecimentos de 15 de julho de 2016, 140 mil servidores públicos foram demitidos e afastados. Entre eles, 45 mil professores, 8 mil acadêmicos, 5 mil promotores e juízes, 6 mil médicos. Mais de 100 mil pessoas foram detidas, mais de 50 mil pessoas foram presas, 2.099 escolas foram fechadas, 149 veículos de comunicação foram fechados e 231 jornalistas foram presos.

Outro portal de notícias que eu gostaria de mencionar, o Stockholm Center for Freedom, (http://stockholmcf.org/), com base na Suécia, preparado pelos jornalistas que fugiram pela perseguição do regime de Erdoğan, tem como foco as violações dos direitos humanos realizadas principalmente após 15 de julho. O site faz registros para a história e produz: relatórios sobre tortura em massa, discurso de ódio e raiva de Erdoğan, mulheres que foram presas, o fim do Estado de Direito, mortes suspeitas (supostos suicídios), liberdade de imprensa. Cada relatório é mais triste do que o outro. Por exemplo, sobre as mulheres, consta no relatório que “A Turquia sistemática e deliberadamente prende mulheres como parte da campanha de medo e intimidação”. 17 mil mulheres, junto com mais de 500 crianças de colo, foram presas desde 15 de julho. Nenhuma dessas mulheres possui alguma ficha criminal, mas agora enfrentam acusações criminais apenas porque o Governo declarou-as como sendo terroristas e golpistas da noite para o dia. Elas não foram condenadas ainda e, na maioria dos casos, nem sequer indiciadas, mas foram colocadas em prisão preventiva como parte da punição”.

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Imagem:

Cartaz anti-Erdoğan durante os protestos no Gezi Park, 2013, em Colônia, na Alemanha.

(Fonte):

By © Raimond Spekking / CC BY-SA 4.0 (via Wikimedia Commons), CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=26698820