+55 (41) 99743-8306 contato@jornalri.com.br

A Escravatura, Aqui e Agora

Recentemente, passaram nas nossas televisões imagens chocantes, se é que ainda é possível, no século XXI, falar de imagens chocantes. No essencial, viram-se africanos a serem leiloados como escravos. Num país africano, ou no que resta dele: falamos da Líbia.

Tráfico humano na Líbia: migrantes africanos mantidos em cativeiro e vendidos como escravos sexuais.

Estranhamente (leia-se: como seria de esperar), as muitas vozes sempre prontas a apontar, da forma mais ruidosa, o dedo aos portugueses de há séculos por terem praticado a escravatura ficaram caladas. Bem compreendemos esse silêncio: habituados que estão a pensar por “clichés” politicamente correctos, a imagem de, em pleno século XXI, ver africanos a escravizar outros africanos não é de todo compreensível.

Na sua visão do mundo, a escravatura é ontologicamente só praticável por europeus em geral e por portugueses em particular sobre africanos. Que há séculos como ainda hoje existam africanos que escravizem outros africanos só pode ser uma impossibilidade ontológica. Por mais evidências que existam dessa prática.

Que essas vozes insistam que Portugal deve hoje pedir desculpas por algo que se passou há séculos e nada digam sobre os mesmos factos que se estão a passar aqui a e agora, também é infelizmente bem compreensível. Há muita gente que é capaz de se manifestar contra a fome no outro lado do mundo mas nada fazer se alguma vítima da fome for um vizinho do seu prédio. O “heroísmo” à distância, no espaço e no tempo, é, de facto, para muita gente, bem mais realizável.

Quanto às desculpas que devem ser pedidas aqui e agora, essas vozes nada dirão. Se falassem, acusariam, quanto muito, as potências europeias de terem semeado o caos em África, o que explicaria ainda as imagens da Líbia. Não compreendendo que esse é um argumento que insiste na menorização dos africanos e que, no limite, legitima até, a posteriori, o colonialismo. É tempo dos africanos serem responsabilizados por aquilo que se passa nos seus países. Sem mais alibis.

E a saída para isso também não passa certamente por acolher todos os refugiados que chegam à Europa. Um outro exemplo: recentemente, noticiou-se que membros do Exército regular iraquiano estavam a pedir asilo em países europeus, para fugirem ao Estado Islâmico. Que se aceitem, em situações de catástrofe, crianças, mulheres e homens que já não podem combater, nada a opor. Quanto a todos aqueles que ainda podem combater essa catástrofe cada vez maior, a ordem só pode ser: “voltem para os vossos países e lutem pelo vosso futuro!”. Deixar que toda uma geração desista dos seus países é desde já desistir do nosso futuro comum enquanto Humanidade.

Agenda MIL: 15 de Dezembro, 18h30, na Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa, em Lisboa: Lançamento do Volume VIII das “Obras Completas de António Telmo” e de António Telmo, Literatura e Iniciação, de Risoleta C. Pinto Pedro. Apresentar-se-á ainda o número 20 da revista NOVA ÁGUIA, onde foi publicado um escrito inédito de António Telmo.

—————–

Imagem:

Tráfico humano na Líbia: migrantes africanos mantidos em cativeiro e vendidos como escravos sexuais.

(Fonte):

http://static.euronews.com/articles/362956/1045x587_362956.jpg