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A Difícil Reconstrução de Mossul

Localizada ao Norte do Iraque, Mossul esteve sob o domínio do Estado Islâmico durante três anos. A cidade foi libertada recentemente, após uma árdua batalha contra os extremistas islâmicos que durou cerca de nove meses, mas isto não significa o fim definitivo da guerra. A vitória iraquiana não representa o desaparecimento dos insurgentes e a cidade está em ruínas. A ONU calcula que a reconstrução da sua infraestrutura básica deve chegar a USD$ 1 bilhão. Esta estimativa refere-se apenas à restauração do sistema de água, de esgoto, de eletricidade e à reabertura de escolas e de hospitais. É preciso levar em consideração uma questão primordial que não está contemplada neste orçamento e que é a crise humanitária. Além da destruição física de Mossul, milhares de pessoas morreram e mais de 900 mil foram obrigadas a abandonar as suas casas e, atualmente, aproximadamente 700 mil ainda estão deslocadas. Ante tal situação, o colapso humanitário persiste e a ONU alerta para a necessidade de atendimento à população, em vários aspectos. Segundo Lisa Grande, coordenadora humanitária da ONU no Iraque, “muitas pessoas que fugiram perderam tudo. Elas precisam de alimentos, cuidados de saúde, água, saneamento e kits de emergência. Os níveis de traumas que estamos vendo são altíssimos. O que as pessoas viveram é quase inimaginável”. A complexa reedificação de Mossul pressupõe vários ângulos, incluindo a atenção humanitária e a reestruturação de uma sociedade destroçada.

Dair Mar Elia, no Sul de Mossul, o mais antigo mosteiro da Igreja Assíria do Leste, edificado no século VI, foi destruído pelo Estado Islâmico em 2014.

Ao contrário do que possa parecer, a guerra não acabou com a cessação das batalhas. Para além da reparação física da cidade destruída é imprescindível se efetivar a estabilidade suficientemente capaz para a recomposição do tecido social, o que é, neste momento, um desafio para o Governo iraquiano. Verifica-se que, embora o Estado Islâmico tenha perdido a guerra em Mossul, o grupo continua ativo. É consenso entre os especialistas e os políticos que a facção de Abu Bakr al-Baghdadi sofreu danos e perdeu o Califado, mas também se tornou uma organização transnacional, com células espalhadas em diferentes partes do planeta. Outro ponto que deve ser destacado é o seguinte: o Estado Islâmico não está enfraquecido tanto quanto se possa imaginar. Durante a expansão na Síria e no Iraque, ele construiu uma rede nos dois territórios, ganhou dinheiro e controlou populações, o que tem sido fundamental para os jihadistas que, de acordo com informações, apesar de terem sofrido vários revezes, viram as estruturas internas do grupo serem pouquíssimo danificadas, “se não reforçadas”, continuando a ser uma ameaça perigosa para a Síria e para o Iraque.

A prova cabal de que o Estado Islâmico continua a ser uma força militar forte é o fato de que as forças iraquianas, sozinhas, sem o apoio aéreo dos EUA, não conseguem romper o cerco dos extremistas e recuperar as suas fortificações, que podem ser utilizadas pelos jihadistas para organizar as suas operações e lançar ataques. Hoje, os cidadãos de Mossul se sentem aliviados com a derrota do Estado Islâmico e aqueles que tiveram que fugir da guerra podem até pensar em retornar à sua terra de origem. Porém, o otimismo que se segue após a expulsão dos insurgentes daquela cidade, não pode suplantar o esforço para finalizar a guerra, que passa pela tarefa árdua do Iraque em criar as condições necessárias para evitar mais violência no futuro. Para que isto aconteça, as forças governamentais do país terão que criar medidas capazes de eliminar as causas que permitiram a ascensão do Estado Islâmico naquele território e, ainda, suprimir aquelas fomentadas pelo grupo.

A superação de situações problemáticas, tais como a corrupção, que tem minado a confiança da população, a supremacia da governança xiita sobre a minoria sunita, as tensões no Norte, entre os curdos que aspiram à independência e os iraquianos, é primordial para o retorno da paz, em Mossul e no Iraque. Esta conjuntura que, no passado, criou o espaço propício para al-Baghdadi conquistar territórios estratégicos, ainda permanece e se junta a outra variável igualmente grave, que diz respeito aos jovens que foram persuadidos pelo Islã radical. Desconstruir estas mazelas é elementar para o Iraque evitar, não somente em Mossul, mas também em todo o país, o retorno do Estado islâmico ou de outro grupo da mesma natureza, uma vez que eles se aproveitam de Estados desestruturados para estabelecer domínios. De acordo com análises, a gestão do Estado Islâmico, em áreas que estão sob o seu controle, é mais rígida se comparada a alguns países, quando se trata de atender às necessidades básicas da população. Os Estados que, por ausência ou negligência, deixam um espaço de poder vazio, veem que ele é ocupado por esses extremistas que, muitas vezes, obtêm o auxílio da própria população local sem esperança, tal como aconteceu em Mossul.

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Imagem:

Dair Mar Elia, no Sul de Mossul, o mais antigo mosteiro da Igreja Assíria do Leste, edificado no século VI, foi destruído pelo Estado Islâmico em 2014.

(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mosul#/media/File:Saint_Elijah%27s_Monastery_1.JPG