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Bora Lá Derrubar Mais Umas Estátuas? (II)

Há não muito tempo, num fórum público alguém pretendeu convencer-me de que o “fascismo português tinha sido pior do que o fascismo alemão” – “pior” porque menos evidente e, por isso, menos susceptível de imediata repulsa. Com o colonialismo português, algo de similar se passa, a uma escala maior. Há muita gente que acha que ele foi bem pior do que os restantes colonialismos europeus por ter sido menos evidente e, por isso, menos susceptível de imediata repulsa – não só por parte dos portugueses, como, sobretudo, por parte dos povos colonizados.

Manifestantes derrubaram em 14 de agosto de 2017, em Durham, na Carolina do Norte, EUA, a estátua que homenageava os soldados confederados.

Por isso, para estes “libertadores” da vigésima quinta hora, os sinais de afecto que os descendentes dos povos colonizados manifestam amiúde pelos portugueses denotam uma descolonização mal cumprida. Para os TPC cá de casa, os descendentes dos povos colonizados por Portugal não deveriam senão odiar-nos, tal como, em geral, acontece com os restantes povos colonizados relativamente aos seus povos colonizadores (veja-se, por exemplo, o que se passa em França, em grande escala, com os descendentes dos magrebinos que lá vivem). Por isso, os TPC cá de casa sentem um indisfarçável mal-estar quando se fala de Lusofonia. É que a Lusofonia é, por si só, em toda a sua incipiência, a prova de que os TPC cá de casa não têm, de todo, razão.

Por ser um povo “velho”, o povo português jamais permitirá qualquer derrube de estátuas tal como aquele que aconteceu nos EUA – mas isso não significa, obviamente, um qualquer branqueamento (passe a expressão) da História. Recuperando um exemplo já dado, ninguém considera que a acção de Afonso de Albuquerque seja exemplar para os dias de hoje – mas isso não implica, de todo, derrubar a sua estátua. Por falar em estátuas: provavelmente, a estátua mais marcante em Lisboa é a do Marquês de Pombal. Pois bem: do mesmo modo diremos que ninguém considera que a acção de Marquês de Pombal seja exemplar para os dias de hoje.

Ainda bem pois que os TPC cá de casa, tendo uma crescente visibilidade mediática, nunca terão um peso real na nossa sociedade (e eis aqui um ponto a considerar por parte de todos aqueles que se preocupam com a crise dos “media” em Portugal: pela nossa parte, estamos cada vez mais convictos de que esta é uma das razões maiores dessa crise). Se o viessem a ter, seria uma razia de monumentos históricos. Um último exemplo: o castelo de São Jorge, símbolo (ainda que póstumo) da conquista de Lisboa. Já estamos a ouvir os TPC cá de casa a sussurrar que essa conquista foi ilegítima e uma agressão religiosa (neste caso, do cristianismo ao islamismo). Decerto, o povo português, em geral, não se reconhece hoje nas práticas de 1147. Mas não a ponto, estamos certos, de lamentar o resultado do que então aconteceu. Deixem pois o nosso castelo em paz, bem como as nossas estátuas.

Post Scriptum – Uma excelente notícia para iniciar o ano novo: depois de já ter recebido, em Novembro, o “Prémio Vida e Obra” do Festival TABULA RASA, co-organizado pela NOVA ÁGUIA e pelo MIL, Pinharanda Gomes é agora homenageado pela Universidade Portuguesa, que, curvando-se igualmente (e finalmente) perante a sua monumental Vida e Obra, lhe irá atribuir o mais do que justo “Doutoramento Honoris Causa”. A sessão irá decorrer no dia 20 de Março,  às 14h30, na Universidade da Beira Interior, sua região natal.

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Imagem:

Manifestantes derrubaram em 14 de agosto de 2017, em Durham, na Carolina do Norte, EUA, a estátua que homenageava os soldados confederados.

(Fonte):

https://i.redditmedia.com/aQdjF2rP-Q5qm-B5q60ojPJGUf9p0NqtBOtEYsj5kls.jpg?w=320&s=48142095f119348fd2219fcd1e8d0241

 

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