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Bora Lá Derrubar Mais Umas Estátuas? (I)

Os Talibans do Politicamente Correcto (TPC) lá conseguiram derrubar mais umas estátuas nos Estados Unidos da América (derrubar estátuas é, como se sabe, uma especialidade Taliban), mas não cremos que esse seja um (mau) exemplo que se venha a seguir na Europa, apesar do crescendo dos TPC também entre nós. É que os EUA são ainda, comparativamente, uma nação adolescente, mais permeável, por isso, a atitudes extremistas. Não é por acaso que os extremistas que (se) matam são, sem excepção, jovens – e não idosos (como se poderia esperar, dado que, nesse caso, poucos anos de vida teriam a perder).

Estátua do general norte-americano Robert Edward Lee, que comandou o Exército da Virgínia do Norte durante a Guerra Civil Americana. Associada ao passado escravocrata, a estátua foi derrubada em 16 de agosto de 2017, em Charlottesville (Virgínia).

Com efeito, tal como as pessoas, também os países mais velhos são menos permeáveis a atitudes extremistas – em todos os planos, dos costumes às opções religiosas. Tal como as pessoas, também os países mais velhos são mais dados à tolerância, na sua ambivalência semântica: eu posso discordar do outro, posso até considerar que ele está errado, completamente errado, mas não é por isso que vou defender a sua aniquilação, a sua morte, nem sequer em forma de estátua.

Bem sabemos que os TPC não são dados a muitas leituras (seja de ensaio histórico, seja de ficção) mas, neste caso, bastaria que apreciassem cinema. É que grande parte da cinematografia americana que se debruça sobre a Guerra Civil não esconde uma grande simpatia pelos Confederados (aqueles cujas estátuas foram agora derrubadas). Dirão os TPC: prova de que os realizadores norte-americanos são também “supremacistas brancos”. Mesmo incluindo aqui o tão “bem-amado” Clint Eastwood, essa é uma acusação tão fundamentada quanto a recente acusação feita a Chico Buarque (a de que ele é “machista”). A ilação a tirar só pode pois ser outra, bem diferente.

Com efeito, se grande parte da cinematografia americana que se debruça sobre a Guerra Civil não esconde uma grande simpatia pelos Confederados é porque a questão da escravatura não era, de todo, a única questão em disputa. A montante e a jusante desta havia uma outra questão, não menor: a da (omni-)presença do Estado, representada pelo Norte “yankee”. Desde logo por isso, o Norte estava condenado a vencer: representava a modernidade da época. Mas isso não impediu, até aos dias de hoje, uma certa nostalgia, decerto mitificada, por uma vivência literalmente mais libertária, sem a (omni-)presença do Estado, que nessa Guerra Civil o Sul, para o bem e para o mal, representava.

Por tudo isso, estarem agora, em pleno século XXI, a derrubar estátuas dos líderes dos Confederados denota, nos EUA, um estado de adolescência não menor do que o sinalizado pela eleição de Donald Trump. Como dissemos, não cremos que esse seja um (mau) exemplo que se venha a seguir na Europa, apesar do crescendo dos TPC também entre nós e das suas ameaças. Na Grã-Bretanha, por exemplo, há quem pretenda também derrubar as estátuas do Almirante Nelson – e em breve, decerto, chegarão às estátuas do Churchill, alegando algumas opiniões suas menos politicamente correctas. E, em Portugal, também há muito por onde escolher. Só em Lisboa e na zona de Belém, temos as estátuas de Afonso de Albuquerque e de todos os restantes navegadores no Padrão dos Descobrimentos. Com o devido balanço, chegar-se-ia facilmente à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerónimos.

P.S.: Os nossos votos de um excelente Natal e de um excelso Ano Novo a todos os patriotas lusófonos.

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Imagem:

Estátua do general norte-americano Robert Edward Lee, que comandou o Exército da Virgínia do Norte durante a Guerra Civil Americana. Associada ao passado escravocrata, a estátua foi derrubada em 16 de agosto de 2017, em Charlottesville (Virgínia).

(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b2/Lee_Park%2C_Charlottesville%2C_VA.jpg/1200px-Lee_Park%2C_Charlottesville%2C_VA.jpg