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Argentina e Brasil: Vizinhos Próximos, Vizinhos Distantes

As relações argentino-brasileiras contemporâneas registram a cooperação como norma (apesar de qualquer divergência esportiva que possa ocorrer), cooperação esta cuja origem poderia ser oficialmente datada em 1985, com a assinatura da Declaração de Iguaçu. Antes desta época, porém, os esparsos movimentos de aproximação ocorridos não deixariam uma impressão muito duradora na memória coletiva da região.

Ponte Internacional Tancredo Neves, também conhecida como Ponte da Fraternidade – faz a ligação entre Foz do Iguaçu, no Brasil, com a cidade de Puerto Iguazú, na Argentina.

Durante a maior parte da história bilateral, a percepção do Outro, entre estes dois países foi de desconfiança e rivalidade. Esta desconfiança mútua teve sua origem na própria necessidade de elaboração das identidades nacionais, e na narrativa histórica que cada um destes Estados construiu ao longo do tempo, baseadas não apenas nos acontecimentos ocorridos, mas também na modelagem dada à memória coletiva criada sobre ditos eventos, a partir das percepções da sociedade que os viveu, de sua maior ou menor compreensão do contexto no qual esteve insertada, e na margem de manobra de que dispunha naquele momento.

O conceito de identidade aplicado aqui não é o tradicionalmente utilizado, pois nossa região organizou a sua sobre as cinzas das antigas metrópoles (Espanha e Portugal), sem uma distinção étnica da “mãe pátria” que pudesse gerar o embasamento de uma união. Estes Estados recém-independentes tinham o objetivo de se consolidar como Estados-nação. Entretanto, na ausência de diferenciações marcantes, estes proto-Estados tiveram que inventar suas delimitações. O modelo aplicado, então, diferiu do clássico, sendo o nacionalismo cívico (DOYLE & PAMPLONA, 2006)[1] e não a identidade étnica o subterfúgio usado. Para construir o Estado-nação, fora do sistema colonial ibérico, se forjou a ideia de pátria (terra nativa).

Quando buscamos ponderar sobre a construção destas identidades nacionais e seu impacto nas relações entre a Argentina e o Brasil, não podemos deixar de examinar a dinâmica representacional das mesmas. Durante os primeiros anos de formação dos novos Estados independentes (primeira metade do século XIX), esta necessidade de desenvolver uma imagem própria forjou um processo de construção do Outro (uma “outrização”) e, consequentemente, se modelaram representações recíprocas. Este período de “proto-Estado” é fundamental para a compreensão de como as “memórias coletivas” seriam construídas e como esta construção influenciaria as relações na sub-região pelos próximos 100/150 anos.

Dita outrização gerou uma memória social que em certos períodos não proporcionou elementos positivos para a construção de um relacionamento cooperativo, promovendo, no então, percepções conflitivas. As relações entre a Argentina e o Brasil estão repletas de ditas percepções e visões, muitas vezes desvirtuadas, do papel de cada um desses países e do lugar que ocupavam na agenda do Outro.

Essas visões formaram parte da lógica de construção das nacionalidades de cada um desses atores, que pareceria estar fortemente sustentada pelo recíproco conceito de contraposição ao Outro. Claramente, neste primeiro momento não seria possível assumir outra posição que não consistisse em uma Buenos Aires e um Rio de Janeiro transformados em administradores das desavenças históricas entre Portugal e Espanha, que haviam recebido de “herança” e tradição histórica; ambos iriam reproduzir a disputa pela hegemonia e dominação do estuário do Rio da Prata.

No entanto, as relações bilaterais se formaram não apenas sobre a base da disputa herdada das ex–metrópoles (apesar de que esse tenha sido o ponto de partida), como também por causa das interações do contexto internacional, regional e doméstico do período e, principalmente, da leitura interna que se fez de tais efeitos sistémicos por cada um (Rio de Janeiro e Buenos Aires), com seu reflexo e consequências na concretização da própria identidade nacional desses atores, e na projeção que pretendiam ter a nível latino-americano e internacional.

Vemos, então, que a relação entre Brasil e Argentina partiu de uma situação quase dialética e reativa entre Buenos Aires e Rio de Janeiro, gerada em parte pela herança das disputas do período colonial, e em parte pelas percepções recíprocas que foram sendo formadas a partir da necessidade de se construir uma nação onde só havia um Estado. À luz dessas observações, podemos perceber a enorme relevância das mudanças ocorridas nas relações bilaterais nos últimos 32 anos, a partir daquela assinatura da Declaração de Iguaçu.

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Este texto é fruto do trabalho desenvolvido pela autora, nos últimos dez anos, no marco de sua pesquisa para tese de doutorado. Parte do mesmo, numa versão mais longa em espanhol, foi apresentada ao Departamento de Pesquisa da UCES, no ano de 2005.

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 Imagem:

Ponte Internacional Tancredo Neves, também conhecida como Ponte da Fraternidade – faz a ligação entre Foz do Iguaçu, no Brasil, com a cidade de Puerto Iguazú, na Argentina.

(Fonte):

http://www.maladerodinhaenecessaire.com/wp-content/uploads/2012/04/Brasil-Argentina.jpg

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 Fontes consultadas:

[1] Ver:

DOYLE, D. H., & PAMPLONA, M. A. (ed.) (2006). Nationalism in the New World. Athens, Georgia: University of Georgia Press.

Bibliografia:

CARDOZO, Efraim. El Imperio del Brasil y el Río de la Plata. Antecedentes y Estallido de la Guerra del Paraguay. Buenos Aires: Librería del Plata, 1961.

CERVO, Amado Luiz & BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. São Paulo: Ed. Ática, 1992.

CISNEROS, Andrés & EACUDÉ, Carlos. Historia General de las Relaciones Exteriores de la República Argentina. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1998, Parte I, Tomo III.

DOYLE, Don H. & PAMPLONA, Marco Antonio (ed.). Nationalism in the New World. Athens, Georgia; University of Georgia Press, 2006.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1997.

MATTOS, Ilmar Rohloff de. “Um “País Novo”. A Formação da Identidade Brasileira e a Visão Argentina”; in Argentina-Brasil y la Formación de la Identidad Nacional. Buenos Aires: FUNCEB, FUNAG, 1997, n.° 1.

RAPOPORT, Mario. “Teoría e Historia de las Relaciones Internacionales. A Propósito de Un Libro de Jean-Baptiste Duroselle”; in Ciclos en la Historia, la Economía y la Sociedad. Buenos Aires, 1992, n.° 3.