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Argentina e Brasil: Primórdios da Agenda de Política Externa. A Visão do Outro em Formação

Como enunciando em nosso artigo anterior, historicamente, as relações entre a Argentina e o Brasil estiveram muitas vezes marcadas por percepções e visões que pouco poderiam corresponder à realidade.

A Proclamação da Independência do Brasil (Óleo sobre tela de François-René Moreaux, 1844).

A compreensão do período dos anos 1822-1831 é fundamental para o entendimento dessas ditas visões/percepções e de sua influência na elaboração das primeiras agendas de política externa das ex-colônias já independentes. Este período seria caracterizado pela necessidade de reconhecimento diplomático de parte das grandes potências para os novos Estados-nação, e pela busca da consolidação dos vínculos comerciais extra ex-metrópoles, que deveriam servir de ponto de partida para a conformação de ambas as sociedades (a Corte Imperial e Buenos Aires), de forma geral.

A elaboração de tais percepções a partir da inserção do Império do Brasil nas relações internacionais, no momento de seu surgimento como Estado independente, e sua interação com seu principal vizinho-rival (Buenos Aires) possibilita identificar alguns dos principais elementos conformadores, e indicar como se construiu esta relação de outrização, baseada na rivalidade e no jogo de soma zero, na agenda de política externa do Primeiro Império vis-à-vis Buenos Aires.

Alguns eventos históricos resultam significativos para demonstrar este tipo de posicionamento inicial. Ditos eventos formavam parte da lógica de construção das nacionalidades de cada um desses atores, que pareceria estar fortemente sustentada pelo recíproco conceito de contraposição ao outro.

No contexto regional, um dos principais neste período seria a Guerra de 1826, que levou à independência do atual Uruguai. Este conflito (1826-1828) se insertou na tentativa por parte de Buenos Aires de obter uma aliança continental contra o Império, visando solucionar a questão da Banda Oriental/Província Cisplatina, e formar sua própria nacionalidade sobre o que restava do Vice-reinado. Para o Império, representou a necessidade de manter a concepção herdada da estrutura europeia/portuguesa de potência, resguardando o que acreditava ser seu de direito como legado português.

Já num contexto internacional mais abrangente do início do século XIX, poder-se-ia destacar com variáveis determinantes da formação das agendas de política externa de Buenos Aires e do Rio de Janeiro, o contexto da Santa Aliança e o processo de “Balança de Poder” europeu, além da busca de enquadramento de ambos (Buenos Aires e Rio de Janeiro) por meio de alianças com a Inglaterra. Esses elementos moldariam e condicionariam ambas as políticas externas.

A partir deste quadro, a disputa de poder, peça fundamental do quebra-cabeça situacional, traduzido em seus componentes político, militar e econômico, nos permite vislumbrar as bases dos primórdios das agendas de política exterior, que perfilariam os objetivos que ambos pretenderiam alcançar no exterior, assim como também, estabeleceria o papel de Buenos Aires (não necessariamente das Províncias Unidas) e do Rio de Janeiro nessas agendas, marcando durante um longo período a diplomacia bilateral. A visão do Outro e as percepções recíprocas limitariam, assim, a capacidade de cooperação entre ambos os países pelos próximos cem anos.

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Imagem:

A Proclamação da Independência do Brasil (Óleo sobre tela de François-René Moreaux, 1844).

(Fonte):

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Referências bibliográficas

Cervo, Amado Luiz & Bueno, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. São Paulo: Ed. Ática, 1992.

Cisneros, Andrés & Escudé, Carlos. Historia General de las Relaciones Exteriores de la República Argentina. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1998, Parte I, Tomo III.

Fausto, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1997.

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Este texto é fruto do trabalho desenvolvido pela autora, nos últimos dez anos, no marco de sua pesquisa para a tese de doutorado. Parte do mesmo, numa versão mais longa em espanhol, foi apresentada ao Departamento de Pesquisa da UCES, no ano de 2005.

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