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Arábia Saudita: Entorno Estratégico e Poder Naval

O Reino da Arábia Saudita é reconhecido internacionalmente pelo seu protagonismo no mercado petrolífero global, pelo fato de deter a maior produção mundial de petróleo ao lado dos Estados Unidos da América (EUA) e, também, por ser responsável pela segunda maior reserva comprovada deste recurso atrás somente da Venezuela. Somado a isto, a Arábia Saudita é, ainda, uma liderança no mundo árabe e islâmico sunita, além de ser uma importante potência militar na região do Oriente Médio.

Concepção artística de uma missão de combate de superfície de um navio fabricado pela Lockheed Martin.

Nos últimos anos, Riade tem acompanhado com preocupação o crescimento da influência do Governo xiita da República Islâmica do Irã na região e naquilo que podemos considerar seu entorno estratégico. O termo entorno estratégico tornou-se mais difundido no contexto acadêmico brasileiro, mais especificamente nas áreas de Relações Internacionais e de Defesa, a partir de 2008 com a publicação dos documentos de defesa pelo Ministério da Defesa. No caso do Brasil, a Política Nacional De Defesa (PND), de 2012, entende que o referido termo abrange não somente o ambiente regional brasileiro, ou seja, a América do Sul, mas também se estende a regiões de interesse e de importância para a projeção nacional, como o Atlântico Sul, os países lindeiros da África Ocidental, a proximidade do Mar do Caribe e a Antártida. Nessa direção, se transposto para o ambiente geográfico da Arábia Saudita, como lente para analisar o contexto geopolítico de Riade, é possível considerar que o entorno estratégico saudita abrangeria toda a Península Arábica, o Levante e o Iraque, o Chifre e a porção Oriental do Norte da África, o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico.

Conforme o argumentado acima, o Irã tem aumentado sua influência em pontos importantes do entorno saudita, como por exemplo no Iraque pós-Saddam Hussein; no Líbano, com apoio direto ao Hezbollah; no Iêmen, com suporte à milícia dos houthis; e, também ,na Síria. Em 2011, ainda no período de maior pujança da Primavera Árabe, o Bahrein também foi palco de disputa “indireta” entre Riade e Teerã. Mais recentemente, em junho de 2017, o Catar, que compartilha um dos maiores campos offshore de gás natural e de petróleo com o Irã, foi isolado política e economicamente pela Arábia Saudita e outros Estados árabes do Golfo Pérsico, entre outros motivos, por uma declaração atribuída ao emir do país, na qual ele afirmava não haver motivos para hostilidades árabes com o Irã.

Quanto ao poder naval de Riade, a Royal Saudi Naval Forces (RSNF), é a força militar que visa garantir a segurança e os interesses marítimos do país. Seu comando operacional é dividido em duas esquadras, uma no Golfo e outra no Mar Vermelho. A esquadra do Golfo está sediada em al-Jubail e tem bases em Dammam, Ras Tanura e al- Qatif. Este grupamento naval possui também um elemento de aviação naval (formado por helicópteros empregados para funções múltiplas entre as quais a de guerra antissubmarina). A do Mar Vermelho está sediada em Jeddah e tem bases em Haqi, al Wajh e Yanbu.

As principais atribuições da RSNF são defender a segurança e a integridade territorial da Arábia Saudita e de suas águas territoriais; proteção dos portos e dos navios que chegam e partem do país; patrulha, detecção e destruição de minas submarinas em águas sauditas; busca e salvamento em águas territoriais e proximidades marítimas. Para essas tarefas, a RSNF conta com 7 fragatas, 4 corvetas, 11 navios-patrulha, 3 navios-varredores para destruição de minas, e outras embarcações de menor porte com tarefas múltiplas (para efeito de comparação do mesmo tipo de embarcações o Brasil possui 8 fragatas, 3 corvetas, 28 navios-patrulha e 4 navios-varredores). Em janeiro de 2017, uma fragata saudita ficou avariada após ser atacada por rebeldes houthis no Mar Vermelho.

Apesar de ser a maior força naval da Península Arábica, assim como todos os países do entorno estratégico, com exceção do Egito, Israel e Irã, a Marinha saudita ainda não possui submarinos (embora possua interesse em adquiri-los), fato este que pode resultar em desvantagem no caso de operações de caráter furtivo e, também, em decréscimo de poder dissuasório para defesa costeira. No primeiro trimestre de 2017, no período em que o rei Salman bin Abdulaziz al-Saud esteve em visita oficial à Malásia, o Ministério da Defesa de Kuala Lumpur ofereceu treinamento a militares da RSNF para operação de submarinos como parceria para contribuir com o desenvolvimento de uma força naval deste tipo no Reino. A Malásia opera 2 submarinos Scorpène – de fabricação franco-espanhola – classe de embarcações que a Arábia Saudita já havia demonstrado interesse em incorporar em sua Marinha.

É bem sabido que a região do Oriente Médio é palco de disputas, conflitos e interesses geopolíticos que envolvem Estados regionais, potências de fora da região e atores não-estatais. Nos últimos anos, a Arábia Saudita tem acompanhado um crescente nível da influência iraniana em seu entorno estratégico, o que tem contribuído para a manutenção de um alto investimento militar na ordem de 7 a 13% do Produto Interno Bruto nacional entre 2010 e 2016. No ano de 2017 o investimento no setor deve se manter alto, principalmente após o anúncio do acordo militar com os EUA durante a visita do presidente Donald Trump no mês de maio.

Quanto à aplicação de investimentos no poder naval, a futura aquisição de submarinos, acompanhada da modernização das embarcações de superfície e da obtenção de novos navios, como as 4 fragatas encomendadas para serem construídas pela empresa norte-americana Lockheed Martin, certamente incrementarão as capacidades da RSNF e contribuirão para a manutenção da marinha saudita como uma das mais fortes da região.

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Imagem:

Concepção artística de uma missão de combate de superfície de um navio fabricado pela Lockheed Martin

(Fonte):

https://news.usni.org/2017/05/19/saudi-arabia-set-6b-lockheed-martin-frigate-deals-part-massive-110b-u-s-arms-sale

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Fontes consultadas:

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http://www.bp.com/content/dam/bp/en/corporate/pdf/energy-economics/statistical-review-2017/bp-statistical-review-of-world-energy-2017-full-report.pdf

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http://jornalri.com.br/artigos/oriente-medio/crise-diplomatica-do-catar

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Disponível em:

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Acesso em: 3 de setembro de 2017.